O último colonialista a cair é uma estátua podre!


Crónica de Inês Tielas

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais, NOVA - FCSH


George Floyd foi assassinado pela polícia norte-americana, despoletando uma maré de revoltas e protestos que perduram até ao dia de hoje. Ao longo das semanas, o descontentamento alastrou-se a outras partes do mundo, e as reivindicações foram-se tornando também mais ousadas, exigindo-se coisas como a redução do financiamento da polícia e, no geral, a descolonização do mundo em que vivemos. Das palavras passou-se aos atos e, de súbito, a internet encheu-se de vídeos onde estátuas reminiscentes do período colonial e esclavagista eram derrubadas e profanadas. A reação não se fez esperar, acusando os protestantes de quererem “apagar a história”, “interpretar o passado à luz dos valores do presente” e de “vandalizar o que é de todos”.


O primeiro lesado, em Portugal, deste crime à memória foi a estátua do Padre António Vieira, no Bairro Alto em Lisboa onde, em vermelho tom de sangue, foi escrito “DESCOLONIZA” e se desenharam corações nos meninos indígenas que acompanham o padre. Mas que tem este padre, tão famoso pela sua bússola moral, a ver com o colonialismo? E mesmo que tenha, porque é que isso é errado se faz parte da nossa história? E mesmo que seja errado, não é pior querer esquecer o nosso passado e reescrever a história?


Muito do que suscita estas questões são entendimentos diferenciais sobre o que é a história. Na escola foi-nos ensinada uma cronologia muito organizada e arrumadinha. Fomos treinados para saber que cada questão teria apenas uma resposta possível. O passado foi-nos contado como se de biologia se tratasse, esquecendo-se o sistema de ensino de uma questão crucial: as mitocôndrias não precisam que nos recordemos delas para existirem e o ADN continua a duplicar-se, quer o estudemos quer não. O passado existe apenas na medida em que o recordamos sendo, portanto, uma questão altamente subjetiva. Isto não quer dizer que não existam factos, causas ou efeitos, porém o sentido e significado que lhes damos não é intrínseco aos acontecimentos em si. O que é recordado é tão importante como a forma em que é recordado e a pessoa que o recorda: diferentes pessoas têm memórias diferentes dos mesmos acontecimentos e escolhem falar deles também de maneira distinta, não necessariamente porque estejam a mentir ou se lembrem pior, mas porque cada um de nós, por múltiplos motivos, enfatiza mais umas coisas que outras e porque os mesmos acontecimentos não têm porque ter, e efetivamente não têm, o mesmo impacto em todas as pessoas.


Para além disto, o passado, tal como o presente, não é um objeto bem delimitado, com princípio, meio e fim, mas antes pode ser encarado como uma grelha repleta de interações complexas e dinâmicas entre um infindável número de atores que resultam na destruição e construção de partes do mundo. O que isto quer dizer é que é impossível uma só voz, uma só perspetiva extenuar tudo o que há para dizer sobre o que já aconteceu: em cada momento podemos encontrar mil e uma perspetivas antagónicas e, frequentemente, contraditórias. Isto só quer dizer que estamos na senda certa porque o mundo nunca é vivido da mesma forma por todas as pessoas.


Esta perspetiva liberta-nos do chamado fardo do passado, isto é, da obrigação de repetir e reforçar as narrativas que os vencedores teceram sobre si mesmos. Compreender que o passado é uma cacofonia permite-nos colocar certas questões relevantes: quem é que decidiu que monumentos habitariam o nosso espaço público? Quando é que essa decisão foi tomada e com que intuito? Quem foi excluído do processo de decisão? Que vozes queremos ouvir e, pelo contrário, que vozes é que estamos a calar? Que documentos foram consultados para construir as narrativas hegemónicas sobre o passado? Quem é que escreveu estes documentos originais e porque é que os consideramos fidedignos e imparciais? Em que medida dependem as identidades nacionais desta hegemonia? Que factos estão a ser ignorados, menorizados, subalternizados?


Isto liberta-nos, também, para compreender que construir faz tanto parte da história (ou História, se preferirem) quanto destruir. Se concordamos que o racismo e o colonialismo não são louváveis, não temos de manter estátuas nem outros monumentos que glorificam estas instituições para sabermos que elas existiram e existem. Aliás, podemos começar até a olhar com mais atenção para as datas em que estes monumentos são construídos: longe de serem inocentes acontecimentos históricos, eles também são escolhas deliberadas sobre que passado se pretende construir (note-se a quantidade de estátuas de homens de séculos bem passados que foram postas nas ruas por Salazar, uma escolha que se fez nos anos 40 do século passado que não tinha nem tem porque ser) e que passados se pretende silenciar.

Berlim é um bom exemplo da maleabilidade da memória pois embora não tenha mantido nenhum monumento nazi, por todos os cantos da cidade encontramos lugares onde podemos aprender sobre esse período da sua história. Pela mesma métrica, Berlim mantem troços das ruínas do infame muro não de forma descontextualizada, mas sim cheio de murais que celebram o oposto do que o muro originalmente pretendia ser. Se, efetivamente, aprendemos história para “não repetir os erros do passado”, então não faz sentido apelar a uma reprodução acrítica dos factos do passado de modo a não os “sujar” com a moral do presente. Antes pelo contrário, aprender com o passado implica, necessariamente, uma contextualização do mesmo à luz do presente. Quando se escreve “descoloniza” numa estátua que celebra o período colonial, estamos precisamente a fazer isso: a contextualizar, a exigir que não se repitam as narrativas coloniais do passado, a inventar novas formas de fazer sentido do doloroso legado colonial que nos sirvam mais do que as antigas.


Ao erigir-se, em 2017, uma estátua de António Vieira empunhando uma cruz com dois meninos indígenas ao lado, estamos a escolher recordar o colonialismo como uma cruzada caridosa, bem-intencionada, para salvar as almas dos pobres indígenas que, sem nós, os adultos europeus brancos e cristãos, ainda estariam na infância da vida. Isto é um enquadramento deliberado e profundamente colonial da figura do Padre António Vieira; é escolher lembrar um mito (que, como todos os bons mitos, tem um fundo de verdade, não deixando por isso de ser um exercício de ficção), e esquecer o papel que a igreja teve na colonização, dizimação, empobrecimento e destruição do mundo indígena – mundo esse perfeitamente completo, cheio de complexidades e estruturas próprias, que em nada necessitava da mundivisão imposta pelas potenciais europeias para existir e prosperar. Mais obscena se torna essa representação ao ser colocada diante da Igreja de São Roque, repleta de ouro e riquezas cuja extração forçada do que hoje é o Brasil levou à doença, física e psicológica, e morte de milhões de indígenas.


Exigir a descolonização dos espaços públicos, das escolas, do estado, do mundo é reconsiderar que vozes mandamos calar e que vozes queremos ouvir, como queremos recordar e o que queremos glorificar ou condenar. Descolonizar é, então, repensar radicalmente as fundações da nossa contemporaneidade e implica a destruição de parte dela, e a construção de novos elementos. Descolonizar é aprender novas formas de fazer uso da memória coletiva do mundo: em vez de repetir infinitamente as narrativas de uns, começar a procurar e a ouvir as histórias e estórias de quem foi colonizado, de quem foi escravizado, de quem foi forçado a trabalhar para destruir o seu próprio mundo e decidir, se após ouvir tudo isto, é mesmo um “quinto império” aquilo que desejamos para o mundo vindouro. Descolonize-se, então, o Padre António Vieira, os nomes das nossas ruas, os livros de história, as nossas mentes e as nossas práticas. Deitemos abaixo as estátuas, sem esquecermos que, um dia, elas estiveram lá. Recordemos os horrores sem os glorificar, aprendamos com eles, em vez de sermos subjugados à sua repetição eterna