Negacionismo epidémico

A um ano da próxima disputa eleitoral, o Brasil já vive o clima de campanha. Os pré-candidatos embarcam em viagens pelo país para inaugurações de obras e lançamento de programas.

de Marta Dias



Os debates públicos com representantes da oposição começam e as disputas políticas intensificam-se. Contudo, este cenário está longe daquele que é efetivamente vivido pela generalidade da população brasileira. Perante o maior colapso sanitário e hospitalar da história do Brasil, o país vive agora um período de alta instabilidade política marcada por um clima de conspiração e total desconfiança.



A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) aprovou esta semana o relatório final que aponta o Presidente Jair Bolsonaro como principal responsável pela crise sanitária do país e o indicia por diversos crimes, nomeadamente crimes contra a humanidade. O relatório faz uma ampla análise a toda a gestão da crise sanitária pelo Governo federal e revela que Bolsonaro e os seus ministros favoreceram de uma estratégia que permitia a livre circulação do vírus pela população. Entre os métodos utilizados, destacam-se a rejeição de medidas básicas de saúde pública e a prescrição de medicamentos, como a cloroquina, sem eficácia comprovada a doentes infetados com a covid-19.



A somar a estas acusações, a plataforma digital Youtube suspendeu recentemente o canal do Presidente brasileiro na sequência de um vídeo onde o líder da extrema-direita alega uma correlação entre o uso de vacinas contra a covid-19 e o desenvolvimento facilitado de sida (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), justificando assim a sua posição contra a imunização. Os porta-vozes da plataforma reagiram rapidamente ao responsabilizar a ação de Bolsonaro como uma grave violação das diretrizes de desinformação.

Não é a primeira vez que um chefe de Estado é apontado como locutor de narrativas baseadas em teorias conspiratórias e negacionistas. Recorde-se que durante um debate primário presidencial de 2015, Donald Trump associou o processo de vacinação ao autismo “epidémico”. Na prática, nenhum presidente - ou melhor, nenhum funcionário nacional - recorreu a teorias de conspiração de forma tão instintiva, e tão frequente, como Trump.

Porém, a disseminação de teorias conspiratórias e negacionistas poderá trazer mais problemas e obstáculos às ordens nacional e internacional do que se possa pensar. Eis o porquê:


O chefe de Estado ou Presidente é considerado o representante máximo de uma nação – o símbolo da legitimidade. Pelo poder retórico do seu cargo e pela sua capacidade institucional, as suas afirmações são frequentemente vistas como irrefutáveis e aceites por apoiantes, membros do Governo e agências executivas.

Desta forma, as realidades conspiradoras de Trump e/ou Bolsonaro têm consequências diretas para a realidade pública, a nossa realidade. A título de exemplo, dados de um inquérito Quinnipiac revelaram que os republicanos têm a maior taxa de ceticismo em relação à vacinação comparativamente a qualquer grande grupo demográfico nos Estados Unidos.

Em segundo lugar, as teorias conspiratórias presidenciais tornam-se justificativas para deslegitimar as instituições democráticas. Por sua vez, a supressão da legitimidade representa uma ameaça única à democracia: rejeita o significado, o valor e a autoridade das práticas democráticas, das instituições e dos funcionários. Diante da gravidade da pandemia da covid-19 no Brasil (e também no mundo), as comunidades internacionais, como a Organização Mundial de Saúde (OMS), e as associações médicas e científicas brasileiras têm sido sistematicamente alvo de descredibilização.

Por fim, poderão estar em causa também questões como o disfarce de discursos de ódio. As teorias conspiratórias e negacionistas são várias vezes utilizadas para diferenciar o “eu”, geralmente western, do “outro” de forma a fomentar o ódio. Por outras palavras, a identificação de uma ameaça iminente à nação, o dito bode expiatório, leva a população a agir sobre emoções de ódio e medo. Aludindo ao discurso de anúncio da sua campanha, Donald Trump acusou o país vizinho de enviar “drogas e violadores” através das fronteiras, incentivando assim a construção de um muro na fronteira dos Estados Unidos e México.

Tal como o ex-presidente norte-americano, Jair Bolsonaro continua a negar a ameaça que representa a pandemia. É um notório fornecedor de desinformação e é conhecido por atacar peritos, incluindo os do seu próprio governo. No fundo, o Presidente brasileiro é uma das figuras-chave que mantém o negacionismo epidémico no palco internacional.