Números numa folha de Excel: A Palestina aos olhos do Ocidente

Texto de Vasco Maldonado Correia


Sobre a 2ª Guerra Mundial, mais concretamente sobre os campos de concentração nazis, George Steiner escreveu que se tinha dado um “turning point” na história da humanidade.

A mecanização da morte, a desumanização do Homem, a industrialização fordizada da chacina humana. Esta viragem resultou no reforçar da tendência de uma visão sociológica crónica que ainda nos dias de hoje transportamos no nosso ADN, e que certamente não terá começado na 2ª Guerra.


Essa ideia, sem dúvida reforçada pela era da informação, em que temos acesso a cada vez mais dados, factos e imagens, em que os historiadores têm cada vez mais recursos para explorar o passado e encontrar respostas que jamais encontrariam há 100 anos e em que a comunicação social tem cada vez mais meios para chegar a toda a gente, é a de que, em determinados acontecimentos históricos, há um número concreto (mas não identificável) de mortes ou de sofrimento que, ao ser atingido, transforma a pessoa em estatística, a vida humana num número, e se estiverem reunidas certas condições, o genocídio numa mera curiosidade digna de um quiz de amigos.


Penso muito nisto quando reflito sobre o que foi a escravatura, o colonialismo e a facilidade com que dispensamos certas conversas por já terem passado do prazo de validade, e tenho pensado também quando acompanho as notícias do chamado “Conflito Israelo-Palestiniano”. Muita coisa nesta última frase pode ser posta em causa - especialmente a palavra “notícias” em relação a uma crise que dura que há mais de 100 anos - mas foquemo-nos na resposta da comunidade internacional aos eventos das últimas semanas.

Há alguns dias, Israel incorreu em mais uma iniciativa de anexação violenta e fez rebentar mais uma crise territorial. Passados quase 48 anos da Guerra do Yom Kippur, que, como indica o nome, começou com um ataque egípcio e sírio ao povo israelita enquanto decorriam as cerimónias religiosas do Yom Kippur, é agora Israel, por vingança ou por puro sentido expansionista, a fazer o mesmo em Jerusalém.

A polícia israelita respondeu a protestos civis contra mais um processo de invasão da Palestina, com um ataque à Mesquita de Al-Aqsa, enquanto decorriam cerimónias religiosas do Ramadão. Face a isto, e aos incidentes e respostas que se geraram, a resposta oficial dos Estados Unidos, historicamente um aliado sionista, foi a de que o Estado de Israel “tem o direito de defender o seu território”.


O estado de Israel, nascido do movimento sionista, dada a história judaica e mais especificamente a onda anti-semita vivida em toda a Europa na viragem para o séc. XX, é um estado perfeitamente legítimo. Ainda assim, nada disso apaga que se tenha transformado precisamente num dos inimigos que justificaram a sua criação em primeiro lugar, num estado de Apartheid que discrimina consoante a religião e a etnia, que está à vontade em deixar pessoas a morrer à sede por não acreditarem no deus certo, ou por não terem nascido em coordenadas abençoadas.


O estado que nasceu para dar casa aos refugiados judaicos acabou por produzir a sua própria onda de refugiados, tornou-se num bicho-papão altamente militarizado, plantado no Médio Oriente como símbolo aparente da ocupação ocidental. E se é verdade que já nos seus primeiros anos este sistema segregacionista foi instalado (a Lei do Retorno de 1950 não foi mais do que uma maneira eficaz de retirar recursos aos palestinianos para os oferecer como prémio aos judeus que voltassem à casa-mãe), é revoltante que a opinião pública mundial, liderada pelos Estados Unidos da América, outrora tão empenhados em fazer Acordos de Paz entre os 2 lados, continue a chamar “conflito” ao processo de anexação, eliminação e limpeza étnica da Palestina.


Quando hoje saudamos a maneira como Israel tem gerido esta pandemia, e partilhamos, com inveja, vídeos das ruas de Israel que já não precisam de máscara ou distanciamento social, esquecemo-nos que do outro lado da rua, para lá dos muros que foram erguidos há mais de 70 anos, estão pessoas a quem são deliberadamente cortados o acesso à água, mantimentos básicos, ou ajuda humanitária.

Independentemente do lado em que se esteja, e da convicção com que se defenda qualquer tipo de solução, é difícil entender ou tentar justificar a construção de colonatos israelitas e consequente anexação territorial feita ao longo dos últimos anos (lembram-se quando em Portugal discutíamos a legitimidade de uma requisição pública para proteger dignamente trabalhadores imigrantes?), e ainda mais difícil é continuar com a narrativa de que a culpa ainda é dos 2 lados. Talvez tenha sido, sim, e é inegável que o que não falta é fanatismo ideológico sionista ou nacionalista árabe, mas isso não desculpa tudo.


O território da Palestina já praticamente não existe, está reduzido a pouco mais de 200 pequenas “ilhas” dentro de Israel e alberga uma das maiores densidades populacionais do mundo. O “conflito israelo-palestiniano”, que tanto se lamenta por parecer um problema que nunca vai acabar, está na verdade cada vez mais perto do seu fim. O problema é que não se chegou a nenhum acordo pacífico, não se conseguiu implementar a solução dos 2 estados. Um dia, a Palestina vai deixar de existir, porque a política israelita vai finalmente conseguir o que tem procurado fazer: eliminação eficaz e anexação total. E quando o inevitável acontecer, as mesmas vozes que saúdam o direito à defesa do território de Israel vão ser as mesmas a negar asilo aos milhares de refugiados palestinianos que continuarão sem rumo nem território para viver em paz.


Face a esta realidade, a este futuro iminente, dificilmente surpreenderá alguém a proeminência e crescimento de grupos como o Hamas, que tanta violência têm criado. E ainda que, concordando que é perigosa e fundamentalmente errada a condescendência que alguns setores da sociedade têm para grupos terroristas como este, parecem-me incomparáveis as iniciativas dos invasores às respostas dos invadidos. Ainda que se condenem os dois, não se pode olhar com os mesmos olhos um dos exércitos e sistemas de defesa mais avançados do mundo, e grupos que se defendem e atacam com pedras e rockets.

Como sempre, é olhando para a política que se consegue perceber alguns dos motivos de mais um conflito. Netanyahu, primeiro-ministro israelita desde 2009 (depois de uma curta passagem nos anos 90), está neste momento em apuros com a justiça pelo seu alegado envolvimento em esquemas de corrupção.

Além disso, antes do conflito, e depois de 4 eleições inconclusivas em 4 anos, estava a preparar-se uma coligação para derrubar o Likud, partido do primeiro-ministro, formada pela direita nacionalista e o centro moderado, juntando pela primeira vez partidos que representam as minorias árabes israelitas.


Reacendendo uma crise territorial, Netanyahu tem conseguido roubar o apoio de um dos partidos nacionalistas da coligação, o Yamina de Naftali Bennet, mais preocupado com a “ameaça árabe” e menos disposto a integrar um governo com membros árabes. E mesmo que não consiga formar governo, como não consegue desde 2019, Netanyahu fica a ganhar com a emergência da crise: a coligação que se preparava contra si desfaz-se, e mantém-se no poder como faz desde as últimas eleições conclusivas, como interino.


Netanyahu ganha poder e margem de manobra quando parte o mundo entre o Bem e o Mal, entre os israelitas indefesos e os terroristas palestinianos (e nesse aspeto, o Hamas dá-lhe muito jeito como aliado). Infelizmente para si, o problema da realidade é que costuma resistir a interpretações tão simples.


Resumindo esta manobra política, o livro Como Morrem as Democracias, que explora as ameaças do populismo pelo mundo, diz o seguinte: “Estes ataques podem ter consequências: se a população vier a partilhar a opinião de que os adversários estão ligados ao terrorismo, torna-se mais fácil justificar medidas contra ele.”

Concluindo com uma reflexão triste: num mundo que, quando visto na sua complexidade, se torna mais sombrio e difícil de compreender, os valores do humanismo obrigam muitas vezes a simplificar, a ignorar certos problemas face à incapacidade de os conseguir resolver a todos. Tem sido assim com qualquer vaga de refugiados nos últimos anos, e neste caso, o Ocidente - que tanto se orgulha dos seus valores civilizacionais avançados - transformou o povo palestiniano inocente e oprimido num número fácil de esquecer, assim que for somado à conta de todos os outros a quem se decidiu fechar os olhos. É uma triste sina, mas que tanta gente parece aceitar: a tradição judaico-cristã prega que todos nascem com um caminho único na sua vida, um plano escrito por Deus. Para uns, a glória, a fama, o sucesso ou a família. Para outros, pelos vistos, a folha de resultados de um Excel.