Não mexer uma palha

Quem nasceu na viragem do milénio, como eu, sabe bem o que é crescer com a sensação de estar na iminência do fim do mundo. Desde pequenos que ouvimos falar de grandes crises, fome, poluição, aquecimento global, subida do nível médio das águas, catástrofes naturais…

de Constança Cardoso


Estamos habituados a ouvir dizer que se não alterarmos radical e imediatamente os nossos padrões de consumo e produção, deixaremos de ter um planeta habitável dentro de poucas décadas.


Também estamos habituados a ouvir todo o tipo de propostas para combater esta enorme crise. Há quem ache que o problema é a sobrepopulação, e que se devem implementar rigorosas medidas anti-natalidade nos países mais populosos, há quem diga que se deve enviar lixo para outros planetas, há quem pense que a energia nuclear é a chave para a transição energética… enfim, há inúmeras propostas para adiar o fim do mundo. Umas mais ecofascistas, outras mais credíveis, outras mais complexas. Ideias não faltam.


Porém, e se uma das soluções passasse por não fazer nada? Ou melhor, por fazer o menos possível? A ideia vem de um agricultor e microbiólogo japonês chamado Masanobu Fukuoka, que desenvolveu uma forma de agricultura revolucionária durante a sua vida. Contrariamente ao que ditam os estereótipos sobre valores asiáticos, este homem não era apologista do trabalho duro. Nas suas palavras: “I do not particularly like the word 'work.' Human beings are the only animals who have to work, and I think that is the most ridiculous thing in the world. Other animals make their livings by living, but people work like crazy (…) The bigger the job, the greater the challenge, the more wonderful they think it is. It would be good to give up that way of thinking and live an easy, comfortable life with plenty of free time. I think that the way animals live in the tropics, stepping outside in the morning and evening to see if there is something to eat, and taking a long nap in the afternoon, must be a wonderful life. For human beings, a life of such simplicity would be possible if one worked to produce directly his daily necessities. In such a life, work is not work as people generally think of it, but simply doing what needs to be done.”


Numa época em que os agricultores de todo o mundo começavam a substituir os métodos tradicionais pelos produtos químicos e em que os solos, por consequência, iam ficando cada vez mais poluídos e estéreis, Masanobu Fukuoka desenvolveu um método que contrariava todas as tendências da sua época: não escavar, não mondar, não podar, não usar químicos nem grandes máquinas. No fundo, intervir o menos possível na terra, usando pouco mais que uma coisa: palha.

O primeiro passo a tomar era simplesmente semear trevo. Esta é uma erva rasteira que, por mais banal e inútil que pareça, tem a incrível capacidade de fixar azoto no solo, aumentando a sua fertilidade. Para além disso, ao crescerem, as suas raízes descompactam o solo, tornando-o mais “arejado”. Costumava também deixar as suas galinhas e patos à solta pelo terreno, para que o pudessem fertilizar com as suas fezes.


Para semear o trevo não revolvia a terra nem com ferramentas nem com máquinas. Sabia que, quanto mais o solo é remexido, mais exposto estará ao sol e a outros agentes que o vão empobrecendo. Por isso, começou a misturar sementes de trevo com outras sementes de plantas benéficas ao cultivo, envolvia-as em argila e, com as mãos, formava pequenas bolinhas que depois deixava secar e que mais tarde atirava sobre os seus campos. Assim, impedia que pássaros e insectos pudessem comer as sementes, e também que estas apodrecessem antes de germinarem. Tudo isto sem ter que intervir na terra. Este ficou conhecido como o método das “bombas de sementes” e foi mais tarde adoptado em várias partes do mundo.


No entanto, a grande protagonista da revolução iniciada por Fukuoka é a palha. Tendo a sua cultura de base preparada, o trevo, espalhava em seguida grandes quantidades de palha nos seus campos de cultivo. Deste modo, protegia a terra do sol, retinha humidade na terra e nutria os solos através do processo de decomposição da palha. As sementes que havia espalhado pelo terreno antes de o cobrir iriam, então, germinar e crescer através das pequenas fendas entre a palha, por onde uma quantidade suficiente de luz solar entrava. Depois, apenas esperava e, quando chegava o tempo, fazia a colheita. Estando esta terminada, devolvia ao solo a palha das plantas de arroz que havia colhido, num ciclo de cooperação em que se tira tanto quanto se dá. Com pouco esforço e imitando os processos da natureza, Fukuoka garantia a sustentabilidade das suas terras.


Este método não só era muito menos trabalhoso que os da agricultura convencional, como apresentava resultados incríveis em termos de produção. Não exagero quando digo que as terras de Fukuoka produziam tanto quanto as maiores e mais bem-sucedidas quintas do Japão. Em 1975 escreveu o seu mais célebre livro, The One-Straw Revolution, que tem tanto de manifesto quanto de guia prático. Uma reflexão profunda sobre os limites do pensamento científico e uma grande crítica ao antropoceno.


Assim, este homem tornou-se numa figura quase mítica e centenas de pessoas de todo o mundo viajaram até às suas terras na esperança de se tornarem seus aprendizes.


Durante muitos anos trabalhou em projectos em África, na India, no sudoeste asiático, na Europa e nos Estados Unidos, onde se ocupou de transformar desertos em áreas cultiváveis. Oferecia às comunidades locais com quem trabalhava cerca de 100 variedades de sementes, dizendo que era a melhor forma de as ajudar. Segundo Fukuoka, os projectos de ajuda humanitária limitavam-se a enviar apoio imediato, como comida e vestuário, o que mantinha estas comunidades numa permanente relação de dependência com os poderes externos. Para ele, a única forma de garantir a soberania local era partilhando sementes e conhecimento agrícola. Ainda a propósito deste assunto, disse numa entrevista: “The African governments and the United States government want people to grow coffee, tea, cotton, peanuts, sugar – only five or six varieties to export and make money. Vegetables are just food, they don’t bring in any Money (…) I wonder if people in this country realize that the United States is helping the people in Somalia but also killing them. Making them grow coffee, sugar and giving them food (…) The United States government is telling them to work, work, like slaves on a big farm, growing coffee (https://www.context.org/iclib/ic14/fukuoka/).


No deserto, adaptava as técnicas já mencionadas, mas também “ensinava” as raízes das plantas a crescerem em profundidade em vez de lateralmente. Não é que não haja água no deserto, dizia, esta simplesmente encontra-se debaixo da terra, em vez de à superfície.


Logo, através de um rigoroso calendário, Fukuoka habituava as plantas a não dependerem da rega e a procurarem água por elas próprias ao crescerem em profundidade. No início, regava apenas o necessário para as sementes germinarem, voltando a regar após 10 dias e, por fim, após um mês.

Os sucessos das suas intervenções em áreas desérticas valeram-lhe, o prémio Ramon Magsaysay em 1988, uma espécie de prémio nobel do continente asiático, na categoria de serviço público. O seu método, que ficou conhecido como “agricultura natural”, provou que mesmo com escasso acesso a água é possível produzir comida em áreas aparentemente “mortas”, sem ter que investir milhões em maquinaria e sistemas de irrigação.


Entendo que as grandes crises ambientais que vivemos se expandem muito além da agricultura e que a “revolução de uma só palha” não pode ser a solução para tudo. Porém, esta ensina-nos que podemos reverter situações desastrosas quando aprendemos a cooperar com a natureza, enquanto parte dela, ao invés de tentar domá-la à força. A experiência de Fukuoka mostra-nos que, ao entender e respeitar o ritmo natural das coisas, podemos inclusive tornar um deserto numa floresta em alguns anos, sem fazer quase nada. Onde será que podemos chegar se aplicarmos a sua filosofia em larga escala? Quanta terra estéril não poderemos fecundar? Quantos desertos não poderemos fazer recuar?