"Não existem cegos, existem cegueiras"

Saramago. Nobel da Literatura. Rei das montras, das livrarias de esquina até à Bertrand.

Texto de Inês Moreira


Admito a minha relutância em ler a sua obra, primeiro, pela aparente presunção com que diz escrever “como quer e bem lhe apetece”, sem grande apreço pela pontuação (tão necessária a cabeças aluadas como a minha). Segundo porque, sejamos honestos, o Memorial do Convento, imposto a miúdos com a juventude a borbulhar e interesses voláteis, torna-se um valente suplício.

Dito isto, foi apenas recentemente, um pouco ao infeliz acaso da pandemia, que me comprometi com o Ensaio sobre a Cegueira. Não me lembrei que se tratava de um livro distópico, daqueles que tanta gente procura em tempos doidos como os de hoje. Se eu tivesse feito a associação, teria fugido a sete pés. Para maluqueiras, ou “distopias”, já me basta a vida. Não sou daquelas pessoas que procura sofrer por gosto. Não gosto de me moer com o que já está moído, ou se vem moendo.


Mas valeu-me a ingenuidade para abraçar a leitura, e ainda bem que o fiz.

Aprendi muito com este livro, especialmente a largar a minha casmurrice. Casmurrice essa que me levava a negar à priori uma escrita que se comprova brilhante e, por mais que me custe abandonar esta cegueira, extremamente percetível.

Este livro em particular (pois dos outros não posso falar) semeia aquele interesse que permanece e não se extingue, até que ao livro se regresse, e a narrativa se volte a desenrolar nas nossas cabeças.

Um mundo cego. Onde é que já se viu? Primeiro devagarinho, lentamente, até que “o mal branco” se apressa a alastrar e obriga a impor quarentena àqueles que, por um infeliz acaso, padeceram desse mal primeiro. Um deles, oftalmologista, o que acudiu o primeiro cego, e a sua mulher que, para sorte de muitos, e infortúnio da própria, teve a astúcia de se fingir de cega para acudir o marido, nessa quarentena que estava longe de se adivinhar o que se tornou. Ela, o elo essencial do jogo, a única que não cegou.

Encerrados num hospício abandonado, como que a anunciar a loucura, foram postos os primeiros cegos. “Medidas necessárias” dizia o governo. Foram chegando, e a ordem, ou a miragem, dissipou-se como nuvem, chegando a um ponto de não retorno. O caos instalara-se. A sujidade e a podridão, de espírito e de corpo, passaram a reinar, em especial assim que a comida começou a escassear. Não havia nada a fazer, converteram-se em bichos.

A primeira metade do livro passa-se neste hospício, a outra, com os primeiros cegos a fugir ao encontro do mundo cego.

Desconcertante. Um livro com relatos crus de desumanidade. No entanto, também dele brota alguma beleza. Beleza, essa, que não se vê, mas que se sente.


O velho calvo apaixona-se pela jovem da venda preta, e ela, para sua surpresa e dos restantes, retribui-lhe a consolação, e entrega-se de volta, na promessa de uma vida partilhada. Muito foi o que viveram todos juntos, em grupo, em busca da sobrevivência, na partilha de fragilidades, de dores, de angústias e de medos. Eles, duas pessoas que nunca se olharam, mas que se viram.

Cegos, andamos muitos de nós.

Milan Kundera, a este propósito, construiu num dos seus livros o seguinte diálogo:


“- Quando amamos alguém, amamos o seu rosto e tornamo-lo assim totalmente diferente dos outros.


- Bem sei. Conheces-me pelo meu rosto, conheces-me enquanto rosto, e nunca me conheceste de outra maneira. Por isso ainda não te passou pela cabeça que o meu rosto possa não ser eu.


Paul respondeu com a solicitude paciente de um velho médico:


- Como podes pretender que não és o teu rosto? O que é que há por trás do teu rosto?


- Imagina que vivias num mundo onde não existissem espelhos. Sonharias com o teu rosto, imaginá-lo-ias como uma espécie de reflexo exterior do que houvesse em ti. E depois, supõe que, aos quarenta anos, te mostravam um espelho. Imagina o teu pavor. Terias visto um rosto totalmente estranho. E terias percebido nitidamente aquilo que te recusas a admitir: o teu rosto não és tu.”


Um livro onde a cegueira ganha dezenas de conotações diferentes. Cegueira ideológica, cegueira social, cegueira de valores, cegueira de nós próprios, e dos outros. Aquilo que a cada um aprouver.

Uns andam cegos de extremismos, outros andam cegos de desumanidades, como aquelas que se desenrolam lá nas Áfricas distantes, ou as que se dão cá perto, na proximidade dos nossos lares, como a do sem-abrigo, que dorme anónimo, debaixo do mesmo teto ensaiado, ou a da família do andar de baixo, que passa fome e ninguém sabe, ou escolhe não saber.

Um livro que se molda aos nossos olhos, em jeito de óculos de míope, pronto a auxiliar quem se atrever a ver.

“Não existem cegos, existem cegueiras”.


E tu? Quais são as tuas?