Não é um Cachimbo, é Arte ao Domingo

Prisma (Vhils) e Interferências (Alexandre Farto, António Brito Guterres, Carla Cardoso), no MAAT


[Fotografia Pedro Pina, maat, 2022. Fonte aqui.]


de Joana Soares


O mês de abril foi marcado por reencontros com lugares e pessoas onde já fui e voltei a ser muito feliz. Diz-se por aí que não devemos revisitar estas memórias para não as estragar, mas este mês prova precisamente o contrário.


No primeiro fim-de-semana voltei à SMUP para o festival de música Micro Clima, de que vos falei numa outra crónica, e no dia seguinte visitei o MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Belém, onde estagiei em plena pandemia no verão de 2020.


A sensação de regressarmos onde já nos sentimos bem pode ser nostálgica e desconcertante.

Por um lado, conhecemos os cantos à casa, abraçamos caras conhecidas e sentimo-nos acolhidos. Por outro lado, o relógio marca o passo e ao olharmos para quem fomos, apercebemo-nos do quanto crescemos e de que tal como as exposições, também nós somos temporários.


“Então e as exposições permanentes?”, perguntam vocês. Também as há, de facto. Como em tudo na vida, é importante termos bases sólidas, presas à terra, que nos sustentem. E depois há momentos, pessoas, ideias, criações rotativas e temporárias que servem para nos dar forma e moldar - ainda que um dia se possam tornam permanentes. Será isso o crescimento? A exposição a estímulos que nos confrontem como a arte contemporânea e que nos façam refletir sobre nós, o outro, o nosso lugar no mundo e a coletividade?


Por falar na beleza do que é efémero e na solidez do que perdura, findo o mês da revolução, trago-vos duas exposições de um artista que, em certa medida, vai quotidianamente revolucionando este mundo globalizado, principalmente através da arte pública.


No dia 25 de abril de 2020, em pleno confinamento, Alexandre Farto (Vhils) marcou o direto de Bruno Nogueira, no instagram, esculpindo o rosto de Zeca Afonso na parede de sua casa, na mesma noite em que Eunice Muñoz surpreendeu os mais de 70 mil espetadores com a sua neta Lídia, ao alinhar nas brincadeiras de Bruno Nogueira. Foi, sem dúvida, uma noite que ficou para a história, tal como a querida Eunice que dois anos depois, também em abril, nos lembraria o que é deixar este mundo e ao mesmo tempo perdurar e ser-se eterno.


Voltando às exposições, Prisma e Interferências, vamos começar pela primeira com nome de figura geométrica, localizada na galeria oval do MAAT (com arquitetura da inglesa Amanda Levete).


Assim que entramos, somos de imediato envolvidos num sono de Vhils, onde ecrãs de grandes dimensões nos teletransportam em câmara lenta para os vários cantos do mundo, num percurso labiríntico que retrata o período que antecede a pandemia.

Esta instalação imersiva pode tornar-se facilmente claustrofóbica e provocar náuseas a visitantes inexperientes, que se limitem a caminhar sem parar para experimentar a possibilidade de se colocarem no espaço e brincarem com ele. Se nos pusermos a andar de costas e nos alinharmos com o ritmo do vídeo, a experiência torna-se mais orgânica e podemos quase fundir-nos com ela.


Isto é, a possibilidade de encararmos a arte como um convite para desconstruir o que achamos que sabemos. Tal como Vhils se agarra às paredes e as desconstrói para nelas poder esculpir e imortalizar pessoas que viveram em lugares transformados pela aceleração do tempo, numa tentativa de dignificar a presença humana que posteriormente apreciamos com outra noção de perspetiva.


Neste prisma de vídeos absorvemos comprimentos de onda e frequências de lugares conhecidos que receberam a intervenção artística de Vhils, como Cidade do México, Cincinnati, Hong Kong, Lisboa, Los Angeles, Macau, Paris, Pequim e Xangai. Mas cujas personagens acabam por se diluir como figurantes na banalidade dos contextos urbanos globalizados, sem grande destaque para a individualidade de cada um. Nesta sala oval coexistem dois planos distintos, a complexidade da existência humana e o peso da coletividade, que acabam por caracterizar estes e outros contextos do mundo globalizado.


É precisamente por isso que a exposição Interferências ganha escala, capaz de espreitar para dentro das culturas urbanas emergentes, que coexistem numa mesma metrópole, conhecida pelas suas incontáveis horas de luz, que ironicamente tendem a iluminar mais intensamente determinados lugares, deixando à margem tantos outros, onde efetivamente há quem brilhe e tenha tanto para contar.


Começando pelo fim, porque cabe ao museu sugerir percursos e orientar os visitantes, mas como discutimos acima, cabe ao visitante dialogar com as obras e ser um participante ativo na sua experiência, destaco a secção quatro, “O Direito ao Imaginário”, onde nos são apresentadas fotografias de jovens modelos, numa alusão aos mundos para os quais nos evadimos e criamos, mas também ao direito de ver concretizados esses sonhos, pois também elas têm o direito à igualdade de oportunidades e a ser artistas, dentro e fora da metrópole.


Na secção dois, “Coerção, Resistência e Identidades”, há duas obras que me marcaram profundamente. A primeira, da Filipa Bussuet, mostra-nos numa manta de retalhos os rostos de várias crianças a quem foi negada a nacionalidade portuguesa, apesar de terem crescido aqui. Esta manta colocada sobre uma cama, um lugar onde supostamente as crianças se sentiriam confortáveis e acolhidas, esfrega-nos de forma nua e crua a dura verdade e o impacto destas decisões na definição da identidade e nas oportunidades destas pessoas. Se virarmos costas a esta obra, damos de caras com uma homenagem e reconstituição de Alcindo Monteiro, três vídeos incorporados em quadros, que pregam na parede a dor da inimputabilidade e da injustiça de um assassinato por racismo, em 1995, tão longe e tão recente como a minha idade.


E por falar em homenagem termino com as fotografias que prenderam o meu olhar logo no início da exposição, fotografias de Julião Sarmento, que nos deixou em 2021 e cujas obras comecei a apreciar com olhos de ver, no ano anterior, enquanto preparava guiões para visitas à exposição da FLAD, criadas no tempo da ditadura.


Voltando ao tema do início desta rubrica, sim, devemos voltar aos lugares onde já fomos felizes.

Não só porque voltamos mais maduros, com outros olhos, com outras inquietações e curiosidades, mas porque nada permanece, tudo se transforma e devemos a nós e aos lugares que nos acolhem a oportunidade de os revisitar numa outra luz, para descobrir os palcos que entretanto se criaram para o diálogo entre obras e artistas, visitantes e curadores, neste conceito de ágora que é o passado, presente e futuro dos museus.


Prisma e Interferências podem ser visitadas até dia 5 de setembro de 2022 no MAAT, com programação complementar de eventos, com direito a workshops, conversas, performances e visitas guiadas. Gratuito ao 1º domingo de cada mês e com vários descontos em vigor nos restantes dias. Isto não é um cachimbo. É arte ao domingo!