Meritocracia: um mito que legitima as desigualdades

Atualizado: 23 de mai.

No contexto da sociedade altamente desigual e polarizada que temos, a meritocracia é mais um daqueles conceitos cujas graves consequências são ignoradas, ludibriadas e aproveitadas, de forma a manter determinadas narrativas ideológicas.

de Rita Varela



Para alguns, importa apenas não comprometer o ‘estado das coisas’ e, ironicamente, recorrendo à (falsa) ideia de que todos podem chegar ao mesmo sítio e alcançar o mesmo desde que trabalhem arduamente para tal, a não colocar em risco as hierarquias de poder do sistema económico vigente.


Abstratamente, apresenta-se o conceito não só como algo inofensivo, mas também sinónimo de justo e, consequentemente, admirável e defensável. Desafio-vos a lançar a palavra no dicionário e, ignorando pequenas variações, encontrarão algo do género: “Forma de liderança que se baseia no mérito pessoal, em vez de se basear em riqueza ou estatuto social”.


Ora, é a isto que chamamos o mito da meritocracia. No contexto da nossa economia, não há nada que perpetue mais este fenómeno do que o privilégio, o qual é determinado, em grande parte, pela riqueza e pelo estatuto social – questões de sorte e herança.

O meu argumento reside no facto de que a nossa ação individual não pode ser analisada fora de contexto, fechando os olhos à realidade envolvente e a todas as desigualdades que existem. Numa sociedade capitalista, patriarcal e racista, não começamos todos do mesmo lugar, não enfrentamos todos os mesmos obstáculos, nem temos as mesmas oportunidades, como os defensores da meritocracia afirmam: na verdade, os degraus das escadas são maiores para uns do que para outros.


Na sociedade em que vivemos, extremamente polarizada em termos socioeconómicos, o berço onde se nasce é um fator determinante do 'sucesso'. Olhando para questões como o aproveitamento escolar, as condições socioeconómicas do agregado em que um aluno se insere influenciam significativamente não apenas o sucesso escolar do mesmo, como também a sua ambição académica. Ademais, segundo a OCDE, esta relação consegue ser maior em Portugal do que no conjunto dos restantes países que pertencem à organização. E não é difícil compreender o porquê de tal se verificar. O nosso aproveitamento, processo de aprendizagem e de criação, varia consoante o que temos à nossa disposição, nomeadamente em termos de acesso a uma boa alimentação, cultura, lazer, roupa confortável, transportes, suportes para o estudo, como livros e material escolar, etc. Infelizmente, nem todas as famílias têm condições económicas para providenciar esses bens aos seus filhos e isso deixa-os automaticamente num ponto de partida diferente relativamente àqueles que têm acesso aos mesmos.


Da mesma forma, questões como o género, orientação sexual, raça e etnia são também passaportes ou portas fechadas para o acesso a melhores condições de vida. Na economia capitalista, as mulheres continuam a auferir um salário menor em relação aos homens no desempenho de funções iguais e trabalho igual.

São elas que trabalham, em média, mais uma hora e treze minutos por dia (em relação aos homens), a maior parte sendo trabalho doméstico não pago. Continuam a ser questionadas, em entrevistas de emprego, sobre a sua pretensão em ter filhos: aos olhos do modelo meritocrático, elas são vistas como menos produtivas e, portanto, menos meritórias, tendo em conta que são quem dá à luz e fica em casa a tomar conta dos filhos, quer seja na licença de maternidade, quer seja no apoio aos dependentes noutros contextos, pois geralmente são elas as cuidadoras informais.


Também a homofobia e a transfobia patentes em todas as estruturas da nossa sociedade levam a que pessoas LGBTQIA+ sejam sistematicamente expostas a situações de violência e marginalizadas em inúmeros contextos sociais e laborais, devido a normas, valores patriarcais e preconceitos institucionalizados, que lhes negam os seus direitos, sendo que são cada vez mais os estudos que expõem a grande vulnerabilidade económica a que esta comunidade está sujeita.


A existência de racismo estrutural, por tantos negada, é um obstáculo permanente e traduz-se num constante ataque à integridade física e psicológica de milhares de pessoas, comunidades e etnias, cujos caminhos são conturbados no âmbito da habitação, educação e segurança, nomeadamente nas políticas de policiamento. No estudo Being Black in the EU, divulgado em 2018, conclui-se que a população de origem africana residente em Portugal tende a ser mais pobre, ter empregos mais duros e desgastantes e a viver frequentemente em casas sobrelotadas ou degradadas.


Além disso, muitos daqueles que alcançam ‘sucesso’, chegando a posições de topo e de poder, acreditam que tudo isso foi determinado por mérito individual, que tudo foi fruto do seu árduo trabalho e dedicação. Assim, tendem a ver o insucesso de outrem como sendo exclusivamente da sua responsabilidade, logo, é merecido e justo que fique para trás.

Neste sentido, se a um indivíduo lhe falta a perceção e consciência de que existem fatores alheios a si que propiciam o seu sucesso, há, evidentemente, uma tendência para que veja o investimento no estado social como desnecessário e deslegitime os processos de distribuição da riqueza.


Este modelo, patrocinado de forma selvática nos Media de hoje, difunde a ideia de que todos podemos alcançar o que queremos, bastando para isso trabalhar, ser produtivo, empreender, pensar positivo e arriscar, alinhando a ideia de sucesso – que deveria corresponder ao progresso coletivo de toda a sociedade – com o individualismo, em que as relações com os outros são uma espécie de jogo em que para um ganhar (ter melhores condições de vida), o outro tem necessariamente de perder.


Para lutar contra tal, contra a polarização da sociedade e a desigual distribuição da riqueza, que são legitimadas por este mito da meritocracia, o primeiríssimo e mais básico passo é o investimento nas estruturas públicas, de forma a garantir que os cuidados de saúde, a educação, a habitação e a cultura chegam a todas as camadas da sociedade. Estas são questões essenciais e não prémios de mérito.


Para lutar contra tal, é também imperativo compreender que o apelo à meritocracia é empregue por forças políticas que procuram legitimar o sistema, tornando as desigualdades socioeconómicas justas e inevitáveis e, dessa forma, manter o status quo. Na verdade, não há melhor forma de o manter do que levar quem é explorado a legitimar a sua própria exploração.