Mas que economia(s) há?

“A ciência económica está a viver uma mutação, desafiando as tradicionais teorias sobre o equilíbrio dos mercados, que imaginam uma sociedade artificial e reduzem a racionalidade à maximização das vantagens individuais, e substituindo-as por análises de processos dinâmicos em economias reais marcadas por desigualdades de poder.”

de Rebeca Paiva



Cito-vos o início da contracapa do Manual de Economia Política, que pretende desconstruir esta ideia de que a economia se deve cingir a derivadas, interpretação de regressões lineares e teorias para o aumento da competitividade, procurando recuperar a forma como ela foi criada no século XVIII: com um ponto de vista plural e pela contribuição para a compreensão do mundo e decisão económica, com mais problemáticas reais e atuais e menos gráficos de análise oferta-procura (que são importantes e fazem parte, mas não exclusivamente).


Mas, então, o que é a E/economia? Em português, “Economia” designa o saber científico/a ciência social, e “economia” aquilo que a ciência estuda (por exemplo, a economia portuguesa). Em inglês, distingue-se economics de economy.

Esta distinção é importante por vários motivos. Por exemplo, tomando o ponto de vista da economia como ciência social e não como quase uma “Gestão 2.0”, ou unicamente como o estudo dos cálculos financeiros de um determinado país ou mercado.


Regra geral, a economia é ensinada nos cursos de economia (independentemente do ciclo de estudos) de forma relativamente pouco crítica/reflexiva. Tem-se em consideração uma única perspetiva, como se a abordagem neoclássica fosse a única via legítima para solucionar problemáticas atuais tão complexas como a desigualdade económica, a globalização, a falta de inclusão e a sustentabilidade ambiental.


Sendo assim, que economias existem? E porquê que é importante ir além das mainstream?


Algumas formas mais heterodoxas de economia pretendem ir além da mera análise do PIB. Nelas, inserem-se visões tão distintas como as feministas e/ou ecologistas (preocupadas com questões como o trabalho não-pago ou a gestão de recursos limitados do ponto de vista sustentável), marxianas (que analisam as crises cíclicas do capitalismo), socialistas (estudam a cooperação e gestão pública e social dos meios de produção), anarquistas (defendem uma sociedade libertária e anticapitalista, desprovida de instituições - incluindo Estados), institucionalistas (focam-se no papel das instituições e na dicotomia de Thomas Veblen entre tecnologia e o lado “ceremonial” da sociedade, a Leisure Class), economia social (empresas e organizações que se desenvolvem segundo um ponto de vista cooperacionista e sob objetivos comuns), economia circular (utilização de resíduos de uma indústria para reutilização noutra ou na mesma), escola austríaca (assente na ideia de que os fenómenos sociais e societais assentam exclusivamente nas motivações e ações dos indivíduos), e a lista continua...


Atualmente, as minhas preocupações para uma economia de futuro recaem em grande parte sobre a crise climática, as transformações do trabalho, o papel das instituições, a desigualdade de e entre países e o rentismo financeiro.

Considero estas questões fundamentais demasiado importantes para serem analisadas sob um ponto de vista único e exclusivo, pela necessidade de um debate aberto… e plural.