Make your own sandwich

Segundo o barómetro sobre a igualdade remuneratória divulgado pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, a diferença salarial entre homens e mulheres diminuiu 80 cêntimos em 2018 face a 2017 para 148,9 euros, diferença que equivale a 48 dias por ano sem receber


Texto Maria Madalena Freire

Estudante de Ciências da Comunicação (FCSH)


Fotografias Alexandra Costa

Estudante de Multimédia (FBAUL)


(Fotografia) Alexandra Costa

A 8 de Março, no silêncio de São Bento, ouve-se o rufar dos tambores, enquanto os polícias dispersos nas escadas da Assembleia se preparam. As grades fecham o acesso à escadaria e usualmente dão espaço para os média assentarem o seu material - nem um microfone da CMTV se vê. O carro de caixa aberta aproxima-se, enquanto os berros contra o machismo rompem através do microfone. A multidão salta e repete. No curvar da esquina revela-se a massa roxa que acompanhou desde o Largo de Camões. Pergunto-me onde colocarão as garrafas de vidro de um litro de cerveja.


Entretanto, os gritos contra os fascistas soam cada vez mais alto e dá jeito ao movimento a rima perfeita com feministas. O ritmo e a melodia empolgam a multidão, muita dela composta também por homens, a praça em frente à AR começa a encher e eu sou envolta por faixas, cartazes, batuques e seres deambulantes que não sabem bem o que se está a passar nesta tarde de domingo.

Ouço que “Lisboa já é a cova do machismo”, evidente pelos inúmeros homens que gritam em clamor juntamente com as mulheres ao seu lado, havendo até os que trouxeram os filhos mais novos. A consciência de que a educação é que muda o estado das coisas vê-se pouco, mas existe.



(Fotografia) Alexandra Costa

Apesar da brincadeira e do divertido que possa ser ouvir música tribal que faz o sangue circular mais rápido e o coração bater freneticamente, há vertentes importantes que se notam neste movimento.


“Nem uma menos, vivas nos queremos” entoa enquanto a massa não pára de crescer e o grito contagia todos de forma avassaladora. Aqui lembramos os números que, apesar de enfadonhos, são importantes e notáveis. Em Portugal, morrem, em média, 2 mulheres por mês, vítimas de violência doméstica. Apesar de não descartar que o inverso também acontece, os números demonstram a cultura de submissão enraizada nas entranhas do nosso país, ainda mais quando em muitos desses casos, o envolvido é absolvido ou a pena é mínima.

Segundo o barómetro sobre a igualdade remuneratória divulgado pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, a diferença salarial entre homens e mulheres diminuiu 80 cêntimos em 2018 face a 2017 para 148,9 euros, fixando-se em 14,4%, o que equivale a 48 dias por ano sem receber, comparativamente aos homens. Torna-se ainda mais notável quando temos 60.9% de mulheres com curso superior, uma maior percentagem que os homens, sendo estes, depois, quem ocupam os cargos superiores no mercado de trabalho. Percebo que não se queira correr riscos ao colocar um mulher num cargo importante, já que pode ficar à espera de bebé. Ou talvez não perceba. Será que somos nós que nos temos que adaptar ao mercado de trabalho ou este a nós? Neste sistema certamente que o mercado é colocado acima de qualquer moralidade.



(Fotografia) Alexandra Costa

​ Num dos sucessivos discursos proferidos da camioneta improvisada de púlpito, é referida a exploração mercantil sob a mulher, tanto na exposição de ideais de beleza formatados, estigmas, como um dos maiores problemas que o sexo feminino enfrenta no mundo - a mutilação genital (MGF). Em Portugal, um país que se considera desenvolvido, um estudo da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, realizado em 2015, estimou que no nosso país cerca de 6500 mulheres com mais de 15 anos possam ter sido sujeitas a MGF, valores estes encobertos por motivos de aceitação social, religião, preservação da virgindade, maior possibilidade de casamento e aumento do prazer masculino.


Enquanto estes números são debitados para audiência de peso, já sentada e atenta, eu continuo a minha busca pelos meios de comunicação, ainda não avistados.


De seguida, quebra-se o maior preconceito com uma simples frase “O feminismo não é um ódio pelos homens ou guerra dos sexos é, sim, a luta pela igualdade de todos.” - Apesar de ser dito vezes e vezes sem conta, há quem tape os ouvidos e escolha não ser feminista, há quem tape os olhos e escolha palavras como “ressabiadas”, “histéricas”, “exageradas”. No fim de contas, são as mulheres que têm que se tapar mais, para não se sujeitarem a eventuais crimes sexuais, não é verdade?


Porém, não serei ingénua ao ponto de não saber, também, o que esta e muitas marchas implicam no espectro político. No fundo, não há mesmo escapatória ao sistema e somos todos filhos deste. Para além desta suposta celebração da mulher, há pedidos e vontades que vão para lá do que importa realmente. Com vista a quebrar as convenções, estigmas e preconceitos concebidos pela sociedade em relação à mulher, esta marcha do dia 8 de Março não devia ser mais do que isso. Por isso questiono-me porque tivemos Bloco, Livre de um lado e PCP do outro? Os partidos separaram-se na sua politiquice e ambos gritaram por união, ao mesmo tempo. Como esperam ser ouvidos quando nem sequer praticam o que pedem? Não poderiam deixar de parte os interesses e gavetas políticas de lado para lutar por um objetivo comum? Refiro-me, também, à direita que em muito peca por não presenciar esta marcha. Conforme a sua fama, a direita não sai muito à rua, só quando vê os seus interesses próprios gravemente postos em causa. Não poderá a mulher de direita ser representada também? Será que sair à rua e gritar pelos próprios direitos é ser extremista?



(Fotografia) Alexandra Costa

​Nisto denoto, também, afazeres políticos, disfarçados por lenços roxos abanados no ar, que são despachados no meio dos discursos. Num dia em que se combate as atitudes de subserviência esperadas pela mulher, não se pode exigir também dela algo em que não acredita. Aí o BE e o Livre pecam, porque se contradizem, dando a impressão de que só é livre quem vai de acordo com a sua visão.

A acabar de extrair as minhas conclusões, com as pernas já a doer de estar parada em pé, ouço um último grito contra as vítimas de violência policial. Olho freneticamente para os polícias e guardas do outro lado da cerca. Agarrados ao cigarro e ao telemóvel, fazem refresh no seu feed de Facebook. Certamente que não verão notícias do 8 de Março.

Em Portugal, os tambores ainda soam demasiado baixo, mas pelo menos já não temos que lhes fazer sanduíches.