Mais do que meros vendedores de livros

Atualizado: 1 de Jun de 2020

A quarentena foi um período “anormal e estranho” para muitos livreiros que viram de repente os seus espaços encerrados para bem da saúde pública, mas foi também um tempo durante o qual o sector se uniu não só para identificar os problemas que enfrenta, como também para arranjar soluções para o presente e para o futuro da literatura e dos espaços que a homenageiam.

Reportagem de António Vaz Pato

Estudante de Biologia, FCUL



No dia 4 de maio, Portugal iniciou a 1ª fase de desconfinamento, depois de 45 dias de estado de emergência. Aos poucos, reabriram alguns estabelecimentos ao público. Dentro deste pequeno grupo, o Governo incluiu os cabeleireiros e as manicures (para o alívio de muitos e muitas), as lojas de pequeno comércio até 200 metros quadrados, os stands de automóveis, os centros desportivos, as bibliotecas e… as livrarias.


Por todo o país, as livrarias começam a abrir as portas e a receber os clientes habituais. A quarentena foi um período “anormal e estranho” para muitos livreiros que viram de repente os seus espaços encerrados para bem da saúde pública, mas foi também um tempo durante o qual o sector se uniu não só para identificar os problemas que enfrenta, como também para arranjar soluções para o presente e para o futuro da literatura e dos espaços que a homenageiam.


Dentro deste grupo de livrarias independentes estão a Snob e a Ler Devagar em Lisboa, a 100ª Página em Braga e a Fonte das Letras em Évora. O mundo das livrarias independentes é uma autêntica manta de retalhos, feito de diferentes personalidades, mas hoje mais do que nunca um existe um denominador comum que as liga: a incerteza quanto aos tempos que se avizinham. Aliás, toda a cultura navega por mares incertos neste momento. A verdade é que, apesar de ter agravado problemas que existiam há muito, o estado de emergência criou nas pessoas uma consciência maior para a importância da cultura. E é aliados a essa ideia que os profissionais do sector lutam agora por afirmar a sua posição estrutural no país.


Unir esforços

Estas 4 livrarias não são excepção no panorama. “Somos muitos (no sector livreiro), estamos unidos, nesta causa e as pessoas começaram a ver. O público não nasce ensinado, tem de conhecer a realidade e está a conhecer agora”, diz-me ao telemóvel, optimista, Rosa Azevedo, da Livraria Snob. Perante as dificuldades que se adivinhavam e o fecho obrigatório, as livrarias fundaram a Rede de Livrarias Independentes (Reli), uma plataforma comum que reúne mais de 80 livrarias independentes. A iniciativa partiu de uma constatação quase imediata, logo após o anúncio do estado de emergência. “Os problemas com que as livrarias se deparam agora têm de ser resolvidos colectivamente”, reconhece José Pinho, livreiro da Ler Devagar (LD). Esta associação surgiu numa altura em que se exigia, antes de mais, solidariedade entre colegas de sector. Fazendo jus à expressão "as dificuldades aguçam o engenho", os livreiros perceberam que a sua simbiose é essencial para competir com grupos editoriais e livreiros de maior dimensão, como a Fnac, a Bertrand ou até a Wook. E qualidade não falta para se demarcarem dos ‘grandes’. “A Reli tem um leque de oferta muito variado, as pessoas podem encontrar diferentes edições do mesmo livro a preços diferentes, porque também inclui na sua oferta alfarrábios, por exemplo”, explica Rosa Azevedo. A Reli quer afirmar-se no espaço livreiro e as pessoas começam a tomar consciência de que há todo um mundo de livrarias para além dos habituais grupos livreiros e das multinacionais.


A 100ª PÁGINA escreveu o primeiro capítulo da sua história em 1999. Actualmente, encontramo-la na Avenida Central, em Braga. A livraria tem as portas abertas na Casa Rolão, um palácio barroco de século XVIII, desde 2005. Apesar de o espaço ser antigo, a história da livraria é uma busca constante de uma resposta para a pergunta “Onde podemos ser diferentes e inovar?”. A 100ª Página oferece aos seus clientes e visitantes um catálogo e um atendimento personalizados, onde as editoras “mais marginais e alternativas” têm lugar de destaque. Entre o público mais jovem, Helena Veloso tem notado um crescente um interesse em poesia, tanto em leitores como autores. “Hoje em dia isso começa a ver-se mais”. A 100ª Página é, hoje em dia, um dínamo cultural de Braga, onde as pessoas se juntam não só para comprar livros, mas também para participar no eventos culturais da livraria, que vão desde lançamentos de livros a exposições.




Qual a razão para esta disparidade tão grande entre livrarias independentes e os grandes grupos? José Pinho não hesita em apontar a razão. “Os grandes grupos ficam com os louros de fazer os grandes descontos e isso não é correcto.”. Na teoria, a Lei do Preço Fixo dos livros só permite descontos até 10% no valor do livro. As livrarias são obrigadas a respeitar esta regra, mas os grandes grupos, pela sua estrutura e alcance, conseguem fazer descontos que chegam aos 50%. São descontos muito apelativos para o público, mas de certa forma ilegais. Perante esta competição desigual e injusta, o livreiro da LD assume um tom peremptório: “É preciso combater estas irregularidades”.


Na realidade, para além de ser uma plataforma de encomenda e compra de livros, a Reli é um movimento com reivindicações claras e objectivos definidos. Numa carta aberta dirigida ao Presidente da República, ao Governo Português, ao Ministério da Cultura (MC) e às autarquias, os livreiros apresentam as razões da sua insatisfação com o estado actual do sector e definem o seu objectivo principal, que se baseia na “conjugação de esforços” para concretizarem os seus “projectos individuais e o grande projecto colectivo que é o de dotar o país de uma rede de livrarias especializadas e de proximidade.” Na carta, as mais de 80 livrarias que a assinam propõem um conjunto de medidas emergenciais e estruturais que têm como objectivo não só salvar o sector, mas também torná-lo resiliente e robusto a longo-prazo. Entre elas, podemos ler o reforço das compras institucionais e subsequente inclusão das livrarias em “programas de aquisição de livros e revistas para as bibliotecas públicas, escolares, ou municipais”; o cumprimento da já mencionada lei do preço fixo, regulada por uma fiscalização mais apertada por parte das autoridades a grupos que não a cumprem; e “apoios financeiros a fundo perdido destinados ao reforço de tesouraria ou ao pagamento das rendas”.


A LER DEVAGAR nasceu em 1999 em pleno Bairro Alto. Depois de mudar de portas 3 vezes, em 2009 instalou-se na actual Lx Factory, onde tem casa agora. Com um catálogo de fundos editoriais extenso, a livraria começou por recusar as novidades produzidas pelas edi.toras. “No início, há 20 anos, não tínhamos na oferta de livros nem Harry Potters, nem Margaridas Rebelo Pinto, nem Josés Saramago”, admite José Pinho, um dos fundadores e actual livreiro da Ler Devagar. A Ler Devagar, em conjunto com outras livrarias como a 100ª Página, que surgiu na mesma altura, demarcou-se no sector por “4 componentes únicas”, explica José Pinho. “Folhear e ler os livros no espaço, o bar, o auditório para fazer sessões e eventos culturais e a pequena loja de cd’s”, todos estes aspectos revolucionaram o conceito de livraria independente. Pinho afirma que a livraria tem de ser, antes de tudo, “um local agradável”, onde as pessoas podem demorar-se, seja para ler um livro, seja para participar em eventos culturais ou simplesmente para tomar um café.


Ler Devagar (Fonte: Site da Lx Factory)


“Entregues aos lobos do imobiliário”

A questão dos arrendamentos e dos despejos é outro tema que suscita muita preocupação no sector. “A renda é uma grande fatia da despesa, a forma como as coisas estão feitas beneficiam sempre os mesmos, ou seja, os grupos com maior poder financeiro”, confessa-me ao telefone Helena Santos, da livraria Fonte de Letras (FdL), em Évora. Num sector em que ninguém trabalha com o objectivo de fazer uma fortuna, quando a facturação baixa 100%, os alarmes começam a soar. “Dois ou três meses sem facturar é uma tragédia.”, remata José Pinho. Os livreiros queixam-se de ser vítimas da especulação imobiliária, que tem elevado os preços das rendas a valores difíceis de acompanhar. A solução, subscrita pela Reli, passa por exigir ao Estado e às autarquias uma proteção face ao perigo da especulação pressiva e desregulada, permitindo a instalação de novas livrarias ou livrarias que foram vítimas de despejos em edifícios públicos. Rosa Azevedo deixa o aviso: “Não podemos estar dependentes de uma lógica selvagem de mercado. As autarquias e o Estado devem considerar as livrarias uma instituição cultural. Não somos meros vendedores de livros.”.


“Medida tomada à pressão”

O período de quarentena obrigatória expôs muitos problemas no seio do sector cultural e os avisos começaram a cair em catadupa. No dia 23 de abril, numa tentativa de responder aos desafios emergentes, o MC anunciou uma linha de apoio às livrarias e às editoras no total de 400,000 euros. Nas contas iniciais, pouco rigorosas, estimou-se uma verba de 5,000 euros para cada uma. Porém, a verdade está longe de ser esta. Os livreiros não hesitam em expor os erros deste apoio do ministério de Graça Fonseca. O primeiro problema surge a partir do momento em que não há factores de exclusão, o que gerou naturalmente valores repartidos sobrestimados. “Foi uma medida tomada à pressão. Na realidade, a livraria tem uma margem muito reduzida de lucro. Sobra muito pouco para nós”, esclarece Helena Veloso, livreira da 100ª Página, em Braga.


Outra das falhas apontadas à medida do MC é a inclusão, no mesmo pacote de ajuda, tanto livrarias como editoras.


Helena Santos, por seu turno, considera este pormenor “grave”, uma vez que a margem não é a mesma para ambas. Quando o Estado faz uma compra à livraria independente, “o dinheiro é repartido entre livraria, distribuidora, editora e autor. 5000 euros parece um valor simpático, mas não corresponde a um valor líquido.”. O valor real, segundo José Pinho, será à volta de 1000 euros. “1000 paus não dá nem para pagar a renda.”. Contudo, há quem veja nesta medida uma vontade do MC em ajudar e valorizar, como é o caso de Rosa. O problema, observa a livreira da Snob, está no financiamento deficiente do ministério que tutela a área, o que reflecte a importância relativa da cultura para o Estado. Já é certo e sabido que a cultura é uma área muitas vezes sacrificada em prol das restantes e até haver sinal de uma vontade superior em alterar o paradigma actual, a situação certamente não verá uma melhoria significativa.


A FONTE DE LETRAS (FdL) abriu as portas pela primeira vez em Montemor-o-Novo, em 2000. 13 anos volvidos e o destino levou-os a mudarem de ares, mas não para muito para longe, para a capital de distrito, Évora. Hoje em dia, em pleno Centro Histórico da cidade património mundial, a FdL continua a afirmar-se como um dos espaços culturais mais importantes de Évora. “A qualidade literária e a oferta de pequenas editoras mais alternativas” é uma das imagens de marca da livraria, segundo Helena Santos, livreira da FdL. Este facto aliado a uma programação cultural regular e a um pequeno espaço para exposições de artes plásticas torna a FdL uma paragem obrigatória em Évora.



As encomendas online

Para juntar à situação já difícil e delicada, a quebra no turismo é um dos efeitos colaterais da pandemia que desperta alguma inquietação. “Évora recebe muitos turistas todos os anos, a FdL vendia muito a turistas e essa fonte de rendimento desapareceu. Não se sabe quando voltará”, admite Helena Santos. Perante a incerteza de muitos quanto ao regresso do turismo, prevêem-se repercussões mais prolongadas e duras para algumas livrarias. A LD, no seio do Lx Factory em Lisboa, é outro exemplo de uma livraria que sentirá os efeitos da ausência de visitantes estrangeiros. Um dos grandes hotspots turísticos da cidade, o espaço em Alcântara costumava atrair muita atenção e, como tal, “Havia muita procura de livros por parte dos turistas”, de acordo com José Pinho, há 12 anos instalado num dos edifícios do antigo espaço fabril.


A diminuição abrupta desta fonte de rendimento externa veio expor fragilidades no sector, mas serviu também para reforçar o papel das livrarias na comunidade local, mesmo à distância. Durante o estado de emergência, as livrarias mantiveram uma relação com os clientes através do sistema de encomendas online. ”As encomendas funcionaram bem durante a quarentena, tivemos encomendas não só aqui em Braga, mas de todo o país.”, sublinha Helena Veloso. Rosa Azevedo confessa que as encomendas online “não substituíram” na totalidade o volume de vendas, mas foram suficientes para manter a livraria activa durante o estado de emergência. Os livreiros admitem que pode ser uma vertente a desenvolver nos próximos tempos. No fundo, um dos propósitos que está na génese da Reli é a criação de uma plataforma viável e bem organizada que possa rivalizar com os sistemas de compras online dos grandes grupos. Em plena era digital, esta é uma solução que se impõe.


A SNOB nasceu em Guimarães e desde a sua inauguração já esteve em três sítios diferentes. Rosa Azevedo explica que, na Snob, “quarentena foi trágica num modo particular, porque tínhamos acabado de mudar de espaço.”. A inauguração do novo espaço estava agendada para dia 28 de março, mas tiveram de aguardar o fim do estado de emergência para abrir de vez as portas no número 32A da Travessa de Santa Quitéria, em Lisboa. Na Snob todos os livros são escolhidos a dedo, há um processo de seleção muito criterioso gerido pelo livreiro Duarte Pereira, principal mentor do espaço. “Todos os livros que estão dentro da livraria nós gostamos . Não é só uma questão de princípio ou de gosto, é aquilo que é realmente o sucesso da Snob.”. E esperemos que este novo capítulo seja um de muito sucesso para a livraria.


Livraria Snob, na actual localização


“Os leitores são fundamentais”

Todavia, as encomendas online não foram o único ponto positivo da quarentena obrigatória. Os livreiros admitem que há uma crescente consciência da importância da estrutura bairrista entre os habitantes de um lugar. Helena Veloso não poupa os elogios à comunidade de Braga e ao reconhecimento pelo seu trabalho. “Maior parte dos clientes são já amigos da casa. Logo no primeiro dia da reabertura, vieram visitar-nos e ligaram de imediato aos amigos, ‘olha nem vais acreditar, estou na 100ª Página!’ ”. Helena explica que a livraria tem criado com os bracarenses ao longo dos anos, “uma relação que não é profissional.”. Uma das coisas que distingue uma livraria independente de um grande grupo é, nas palavras da livreira, “a responsabilidade da livraria para com a comunidade. A livraria é o agente cultural mais importante de um bairro.”.


Rosa Azevedo, por outro lado, sublinha a ajuda importante do círculo de clientes mais íntimo da Snob durante a quarentena. “Houve uma onda de solidariedade inexplicável por parte dos amigos e dos leitores. Encomendaram muitos livros. Eles perceberam que houve ali um momento de pânico para nós.”. Em Lisboa, a competição dos grandes grupos é mais notória e, portanto, Rosa alerta que a responsabilidade de manter estes espaços vivos e activos na cidade não cabe exclusivamente às livrarias nem tão-pouco às autarquias. “Os leitores são fundamentais. As pessoas queixam-se do fecho das livrarias independentes, mas depois vão comprar livros a grande superfícies livreiras porque estas fazem mais descontos”.

Já Helena Santos constata que, em Évora, a comunidade valoriza cada vez mais o pequeno comércio e esforça-se por apoiá-lo. “Tenho ideia de que as pessoas mais afastadas dos centros urbanos têm uma consciência maior da relevância de comprar em lojas locais. Há um maior cuidado na manutenção dessa relação.”.


Combater o status quo

Na ressaca da pandemia, as livrarias acordaram para uma realidade que se vai revelando aos poucos nos desafios que traz. Porém, as livrarias independentes entram nesta nova era da sua existência unidas por uma causa comum. Num sector que, nas últimas décadas, os peixes maiores têm dominado, comendo pelo caminho os mais pequenos, as livrarias da Reli apresentam agora o seu maior trunfo para combater o status quo que os monopólios criaram: a sua pluralidade e diversidade.


A Reli surge em tempos de crise para fortalecer a ideia de que a diversidade é mais importante do que a monocultura imposta pelos grandes grupos. E a verdade é que esta pandemia veio interromper um período de relativa evolução no sector. “Há todo um conjunto de livrarias recentes que abriram há dois, três anos e houve, sem dúvida, um contexto que ajudou a que isso acontecesse.”, assume Helena Veloso. Um pouco por todo o país surgiram novas livrarias na última década. É uma prova importante de que o sector pode crescer e manter-se activo face às muitas dificuldades que enfrenta.


Os próximos tempos serão determinantes a longo prazo para as livrarias. Actualmente, apesar das incertezas todas, há razões para acreditar em dias melhores. Cabe agora às livrarias manter a união que já provou a sua força e o seu potencial. Cabe ao Estado e às autarquias, por consequência, não só apresentarem soluções para os problemas estruturais, como também estarem à altura das dificuldades que a cultura e o sector livreiro enfrentam, dando-lhes o estatuto que há muito merecem. E cabe-nos a nós, cidadãos e habitantes de uma comunidade, reconhecer o quão fundamental é o nosso papel como consumidores nas escolhas que fazemos. A compra de um livro é um acto político, não é um acto indiferente. No fim de contas, somos nós os responsáveis por manter a palavra “independente” junto do nome destas livrarias.