Lourdes Castro, a luz que vivia das sombras

Estávamos no primeiro confinamento de 2020 quando, numa videoconferência de formação para os estágios do MAAT, ouvi, pela primeira vez, a curadora Inês Grosso falar-nos de um projeto que tinha em mãos, com Rosa Lleó, para celebrar os 20 anos dos Prémios EDP (Prémio Novos Artistas e Grande Prémio Fundação EDP Arte).

de Joana Soares


Obra da exposição A Vida Como Ela É, 2020, Fundação de Serralves


O objetivo era convidar os artistas galardoados a criar, através do encontro e contaminação, entre obras de diferentes gerações. Nesse dia, falou-se de Lourdes Castro e do privilégio de contar com o seu contributo para exposições de um museu que ela havia confessado, ao telefone, desconhecer (em 2016 foi criado, no campus da Fundação EDP, o novo museu, ao lado do Museu da Electricidade).



Tinha, então, 90 anos e vivia na ilha que a viu nascer, sem internet ou outras distrações do mundo pós-moderno. A ternura deste momento deixou-me expectante pelo que estaria por vir.


Nascida no Funchal, em 1930, Lourdes Castro aprendeu a ler e a falar línguas estrangeiras com a avó e, quando o liceu alemão encerrou, devido à guerra, passou a ter aulas particulares com uma senhora alemã, que também era botânica. Esta ligação à sua ilha natal influenciaria uma das suas obras mais apreciadas, o Grande Herbário de Sombras (1972), um diário intimista de 104 serigrafias de espécies botânicas impressas em papel heliográfico, num retrato meticuloso da flora da Ilha da Madeira, onde regressaria, em 2003, para construir a casa e o jardim onde viveria "no aqui e no agora” das suas últimas décadas.



O percurso de uma das mais notáveis artistas plásticas portuguesas foi marcado pelo momento em que, aos 20 anos, trocou o arquipélago pelo continente para estudar Pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL).



Depois de desafiar a convenção e pintar modelos-nus de verde, amarelo e roxo, quando a regra pressupunha que fossem cor-de-rosa, foi convidada a deixar o curso por não se enquadrar nos cânones académicos do ensino na altura - viria a concluir em 1956.


Este início conturbado foi superado pela oportunidade de desenvolver a sua identidade artística lá fora, primeiro em Munique e depois em Paris, com o marido e pintor René Bertholo. Em 1958, ganhou uma bolsa de Pintura da Gulbenkian e criou, juntamente com Jan Voss, Christo Javacheff, Costa Pinheiro, Gonçalo Duarte, José Escada e João Vieira, a revista e o grupo homónimo KWY, Ká Wamos Yndo, uma alusão às consoantes que não tinham lugar no alfabeto português, num contexto marcado pela repressão do regime. A revista literária impressa à mão marcou a emergência de novas linguagens figurativas, com uma tiragem de 12 números, cerca de 300 exemplares e exposições em quatro cidades europeias.



Foi nesta fase que Lourdes Castro deixou a abstração lírica e descobriu as sombras, que viriam a influenciar grande parte da sua obra e reconhecimento internacional.



Nas sombras das sombras, abordou a relação entre ausência e presença, desafiando as fronteiras da materialidade e imaterialidade, numa panóplia de técnicas, entre as quais: sombras impressas em serigrafia, sombras projetadas de amigos e conhecidos, contornos recortados em plexiglas (vidro acrílico), sombras bordadas em lençóis de linho, encenação de teatros de sombras (com Manuel Zimbro), instalações, cerâmica e livros de artista.


A sua obra mereceu retrospetivas em instituições culturais de referência (Gulbenkian e Serralves) e foi agraciada com a Medalha do Conselho Regional do Salon de Montrouge (Paris, 1995), o primeiro Grande Prémio da Fundação EDP (Lisboa, 2000), o Prémio CELPA/Vieira da Silva (Lisboa, 2004), o Prémio AICA/Ministério da Cultura das Artes Visuais (2010) e a condecoração com a Ordem Militar de Sant’Iago de Espada (2021), pelo Presidente da República.



A vida e obra de Lourdes de Castro, figura incontornável de uma geração responsável pela criação de um dos movimentos artísticos mais vanguardistas da história da arte em Portugal, não cabe nesta crónica.


O deslumbre pelo KWY nas aulas de mestrado e o entusiasmo pelos encontros ao virar da esquina com obras suas em exposição (Festa, Fúria e Femina e Um oasis ao entardecer, MAAT 2020) também não cabem aqui. Resta-nos a profunda admiração e as homenagens que, individual e coletivamente, se vão fazendo chegar.



Assim termino a minha:

Naquela tarde de sábado, fazia frio e alguém pintou o céu de tons alaranjados com laivos de rosa, que se fundiam no azul da noite que, ao seu ritmo, ia caindo. Entre chávenas de chá de erva príncipe, fiquei a saber que Lourdes Castro tinha partido para longe. Ali, naquele jardim de inverno que nos acolhia como se fosse casa, senti a beleza do que é efémero e a força de quem ilumina a sala. Senti o aperto no peito e os traços coloridos de quem contorna a inevitabilidade dos dias.



No caminho de regresso, havia rasgos de genialidade no horizonte e, por telefone, soubemos que os últimos tempos da artista plástica foram passados a abraçar serenamente a espera dos dias. É nessa espera que hoje a contemplo.


Olho para a natureza e ali está ela, na luz e na sombra, nos lençóis bordados, nos herbários vivos e nos objetos de um quotidiano agora mais pobre, mas acima de tudo mais rico, de um legado inesgotável, de tudo o que nos deixou.