Leitura, para que te quero?


[Foto: Christin Hume @christinhumephoto.]


de Joana Soares


“9 em cada 10 portugueses têm baixo consumo cultural”, concluiu o inquérito realizado pelo Instituto de Ciências Sociais e Humanas (ICS) sobre as “Práticas culturais dos portugueses em 2020”, com financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian. Se 61% não leu um único livro nesse ano, quem efetivamente leu refere, em larga escala, que a motivação era a leitura por prazer, independentemente do grau de escolaridade. Entre as razões apontadas para os baixos níveis de leitura estavam o nível de escolaridade dos familiares e a ausência de práticas de leitura, oferta de livros ou idas a bibliotecas durante a infância.


Quando penso em apontar o dedo a quem nasceu em circunstâncias diferentes das minhas (é sempre tão tentador acreditar que podemos mudar o mundo como se a nossa vontade bastasse), dou um passo atrás, olho para dentro e recordo-me que venho de um lugar de privilégio. E que, tal como referido no estudo, tive a sorte de ter nascido numa família com gerações mais escolarizadas e sensibilização ao valor cultural da leitura.

Cresci numa casa rodeada de informação, de livros e de jornais. Lembro-me de assistir a conversas e serões na “mesa dos crescidos” até me fartar de assuntos sérios e ir brincar às escondidas, no tempo em que ser pequeno era caber em qualquer esconderijo e esperar que nos encontrassem ou esconder sapatos dos amigos em lugares secretos, apenas para nos desculparmos que “não se podiam ir embora tão cedo porque não sabiam onde tinham os sapatos”.


Tenho memória de todas as quartas-feiras os meus avós me irem buscar e me levarem à biblioteca para fazer puzzles infindáveis ou desenhar com outras crianças em elétricos no parque. Os meus pais contavam-me, praticamente todas as noites, histórias antes de dormir e quando tinha pesadelos era com histórias que voltava a adormecer. A música sempre se ouviu dentro e fora de casa.


Se num concerto ao vivo ou numa ida ao teatro se aprendia a valorizar a beleza do presente e a capacidade de improvisação, era nas idas a museus ou a cinemas independentes que nos confrontávamos realidades e formas de pensar o mundo diferentes de nós. Foi precisamente a exposição a essas atividades em contexto escolar, mas principalmente familiar, que moldaram quem sou hoje.

Muito virá naturalmente do acesso a essas oportunidades, mas sabemos que há momentos de viragem em que podemos ir vincando a pouco e pouco o nosso caminho, através de pequenos-grandes hábitos que, com a dose certa de dedicação e compromisso, nos podem levar longe.


E se “não ter interesse” ou “não ter tempo” pode ser impedimento, tê-lo também.

O ano passado comprometi-me a ler um livro por mês, mas não consegui. Embora tivesse lido mais no ano anterior, graças à tese de mestrado, sabia que continuava a ler devagar e que gostava de me debruçar com a profundidade necessária para me deixar deslumbrar pelas histórias que os livros me queriam contar. No meu ano sabático disse que ia ler muito mas não foi bem isso que aconteceu. Desta vez queria fazê-lo a sério e criar hábitos de leitura. Foi então que instalei a aplicação Goodreads, a minha nova aliada neste desafio.


Comecei por criar listas com livros que tinha na prateleira e que ainda não tinha lido mas que queria tentar ler, para perceber que não precisava de comprar mais livros novos e que se desse por mim a não resistir à perdição das feiras do livro, teria de ler primeiro um livro mais antigo e ir alternando com os novos.


Ao mesmo tempo que ia lendo ao meu ritmo e ganhando consciência dos meus hábitos de leitura (ou da falta deles), tentei não ceder à pressão de me comparar com pessoas que liam bem mais depressa do que eu e, em vez disso, inspirar-me nelas para continuar. A meio do ano achei que a coisa estava mal parada e estive para desistir.


No final do ano, em vez de 12 livros tinha lido 9. No ano seguinte, ao ver objetivos de 30 e 50 livros na minha rede de amigos leitores, pensei em aumentar o objetivo não atingido do ano anterior para 15 livros. Umas semanas depois caí em mim e voltei a traçar o mesmo objetivo, mas desta vez com a promessa de ler de forma mais consistente, cerca de 5-10 páginas por dia nos transportes públicos ou antes de dormir.


Para ávidos leitores estes valores podem parecer absurdamente baixos, mas a verdade é que devemos ajustar os objetivos às nossas necessidades e contexto para que os consigamos atingir e melhorar, um dia de cada vez.

Entre as várias estratégias podem estar: andar sempre com um livro na mala, deixar o telemóvel de lado ou em modo de concentração no tempo em que estamos a ler, requisitar livros na biblioteca com prazos limitados (mesmo com recurso a prolongamentos), definir um compromisso ou ter um amigo de leitura que nos vai motivando como no exercício. E, acima de tudo, começar por algo que nos motive.


Há uns tempos conversei com alguém que me confessou que não lia por opção, mas que se alguma vez lesse seria Freud ou Nietzsche e que não sentia necessidade de ler porque aprendia o suficiente a ver séries e filmes. Não podia discordar da importância destes últimos, mas algo na minha educação falava mais alto em nome da leitura.


Contra factos não há argumentos: ler ajuda a expandir o nosso vocabulário e melhora a capacidade escrita, estimula a imaginação e a empatia, melhora o foco e a concentração, pode prevenir o Alzheimer (pessoas que leem regularmente têm 2,5 vezes menos probabilidade de sofrer de Alzheimer do que quem vê televisão regularmente), aumentar a esperança média de vida (para quem lê mais do que 3 meias horas por semana) e reduzir os níveis de stress.

Os filmes e as séries continuam a ter um papel relevante, podemos focar-nos na realização, na interpretação dos atores, na banda sonora e, claro, na própria história - mas não substituem a leitura.


Para aqueles que também andam a melhorar os seus hábitos fica aqui o desafio de encontrarem estratégias que funcionem para vocês. E para quem já desenvolveu esta capacidade quase inata, fica a sugestão de encontrar novos horizontes dentro do espectro da leitura e inspirar outros a começar a ler enquanto descobrem a sua praia. Vamos a isso?