John McCain e o Trumpismo


John McCain era um homem ao serviço do povo, que nunca teve medo de ir contra ninguém – fosse no Partido ou na Casa Branca – na defesa pelo que está certo. Nota-se agora a falta que faz para o país e para o mundo.



Crónica de Vasco Maldonado Correia

Estudante de Comunicação Social, UCP



No meio do espetáculo mediático que foram as eleições presidenciais dos EUA, dei por mim a revisitar (e descobrir) vídeos de uma das figuras mais exemplares da história da política americana: John McCain. McCain foi derrotado em 2008 por Barack Obama, e fica para a história como um dos mais respeitosos derrotados de sempre. Não devia ser notícia, mas com as tristes imagens que temos recebido, é necessário enfatizá-lo: as derrotas são para serem aceites. Não há melhor exemplo do que o famoso discurso de McCain em reação à sua derrota em 2008, em que escolheu o momento para destacar as qualidades do seu oponente, frisar o momento histórico em que os E.U.A. elegeram pela primeira vez um afro-americano para a Casa Branca, e para apelar à união à volta do novo Presidente. Uns tempos antes, num comício com os eleitores, ficou também para a história o momento em que o senador republicano interrompeu uma mulher que lhe dizia que não poderia confiar em Obama por ser “um árabe”. A resposta foi categórica: “No, ma’am. He’s a decent family man and citizen that I just happen to have disagreements with on fundamental issues”. Uma sombra do que vemos hoje em Donald Trump.


John McCain foi um dos poucos honrados republicanos que tiveram a coragem de bater o pé a Trump, e a rebeldia valeu-lhe duros insultos do agora ex-Presidente. “He was a hero because he was captured. I like people who weren’t captured”, disse Trump sobre a captura e tortura de McCain no Vietname. McCain morreu não muito tempo depois, e Trump não se ficou por aí. Não foi convidado para o enterro - onde, por exemplo, Joe Biden chorou a morte do amigo - e um ano mais tarde lembrou que nunca ninguém lhe chegou a agradecer pela sua aprovação da cerimónia de estado.


Mas em 2020, nestas eleições presidenciais, a memória de John McCain continuou bem viva, com a ajuda da sua viúva Cindy, e o Arizona, estado que o republicano representou no Senado até ao dia da sua morte, mostrou a Donald Trump que a sua atitude tinha consequências. Embora outros factores tenham sido importantes, os eleitores do Arizona mostraram o cartão vermelho ao Presidente e viraram-se para o Partido Democrata, em sinal de desaprovação ao desrespeito pela sua figura histórica*. É uma história improvável, face ao estado de impunidade em que Trump vive, mas é uma mensagem importante para o mundo, mesmo que o mundo não a queira ouvir. O homem que disse que podia matar alguém na 5ª Avenida e sair incólume levou uma grande lição.


McCain era um defender acérrimo da democracia e dos seus valores. Quando hoje vejo a guerra de trincheiras em que a política se tornou, conforto-me nos ideais do senador republicano. Adversários políticos não são inimigos, podem até ser amigos que discordam em temas fundamentais. Veja-se o exemplo da sua amizade improvável com Joe Biden! Do outro lado não está a fonte do mal, muito menos o nosso maior inimigo, está apenas uma pessoa com ideias diferentes das nossas. Não devemos afastar-nos do outro lado, devemos tentar entendê-lo e trabalhar em conjunto. “We’re getting nothing done, my friends, we’re getting nothing done”, avisou McCain numa das suas últimas aparições, referindo-se à falta de consenso e cooperação no Senado americano. John McCain era um homem ao serviço do povo, que nunca teve medo de ir contra ninguém – fosse no Partido ou na Casa Branca – na defesa pelo que está certo. Nota-se agora a falta que faz para o país e para o mundo.


Porque, olhando para o GOP, poucos são os que conseguem honrar o seu testemunho. Nas primárias republicanas em 2015, antes da eleição de Trump, são conhecidos os insultos e considerações que foram feitas a respeito do homem que viria a ser Presidente. Numa publicação na revista conservadora National Review, a equipa editorial fez críticas ao seu falso conservadorismo, comparou-o a Bernie Sanders, criticou as suas loucuras na imigração, lançou dúvidas sobre o seu passado empresarial e alertou para a sua falta de preparação para o cargo a que se propunha concorrer. Juntando-se a muitos outros senadores, governadores e oficiais do Partido Republicano, o editorial da revista chamou-lhe grosseiro, bruto, populista e narcisista, mas a parte mais importante foi uma pergunta premonitória: "If Trump were to become the president, the Republican nominee, or even a failed candidate with strong conservative support, what would that say about conservatives?".


Entretanto, até 2020 andámos, e muito ficou para trás. Mas a promessa dos conservadores de não apoiarem o alvo a que tão certeiramente apontaram não foi cumprida. Os senadores republicanos, especialmente, acusaram uma chocante falta de compromisso para com a verdade e para com a sua palavra. Há muitos exemplos, mas o caso do impeachment de Donald Trump não deixa margem para dúvidas: apenas um (UM!) senador republicano, Mitt Romney - curiosamente, ou não, outro candidato vencido por Obama - foi capaz de votar a favor da destituição do Presidente, face a provas claríssimas da culpa do acusado. Também vale sempre a pena ver (nem que seja para rir um bocadinho) o vídeo em que Lindsey Graham, chairman do Senado, pedia que usassem as suas palavras contra si no futuro se fosse preciso, quando garantia que o Presidente Obama, em último ano de mandato não podia preencher uma vaga no Supremo Tribunal. A parte engraçada, claro, veio este ano, quando o mesmo Lindsey Graham liderou os seus colegas senadores até à aprovação de Amy Coney Barrett para o lugar deixado vago por Ruth Bader Ginsburg, apenas a algumas semanas da eleição. As suas palavras foram-lhe recordadas, como tinha pedido, mas não foram suficientes para curar a hipocrisia.


Durante 4 anos, os republicanos suportaram, apoiaram e exponenciaram o trumpismo embarcaram na onda de mentiras e desinformação criada pelo Presidente, e não tiveram escrúpulos na hora de subscrever a narrativa de guerrilha instalada. Houve – e há – algumas excepções. Há até uma página de Wikipedia que lista os notáveis republicanos que se opuseram à reeleição de Donald Trump. Acusados de traidores, são uma minoria num partido em que pouco resta da mensagem e postura de John McCain. Ainda assim, agora a maioria tem uma oportunidade de se reposicionar. Trump caiu, mas fica nas mãos dos republicanos o que fazer com o trumpismo. Se a memória de John McCain ainda estiver presente, talvez as coisas mudem.


Num texto assinado "Dreaming of a Landslide", o conservador Andrew Sullivan defendeu há umas semanas a necessidade de uma vitória avassaladora de Joe Biden, recordando que só em momentos de derrotas históricas o Partido Republicano conseguiu perceber a mensagem do eleitorado e se conseguiu reestruturar para melhor. Apesar da vitória do democrata, os números têm sido encarados como pouco animadores e com margem insuficiente para provocar reais mudanças no partido. Não devia ser o caso. Olhando para a História, percebemos a dificuldade do feito de Biden. Raramente um Presidente Republicano incumbente - palavra que acrescento ao meu vocabulário - não consegue a reeleição contra um Democrata. Desde 1900, apenas os republicanos Herbert Hoover, Gerald Ford, que nunca chegou a ser eleito, e George H.W. Bush, que foi prejudicado por um terceiro concorrente com uma votação histórica, foram derrubados na sua tentativa de reeleição contra um Democrata. Biden ter ganho tão naturalmente (apesar da demora) devia ser encarado como uma vitória histórica. Um landslide, se quiserem. E por isso está na hora do Partido Republicano repensar a sua identidade.


Infelizmente, é difícil ser tão optimista. A queda do Presidente e a viragem no Arizona deviam e podiam servir de exemplo para que os estragos de Trump no Partido Republicano ficassem por aqui, mas já sabemos que ninguém tem tanta sorte numa só noite. Mitch McConnell, Lindsey Graham, Ted Cruz e companhia prometem, mesmo que não o digam, manter bem viva a alma do Presidente derrotado. John McCain dá voltas no túmulo. E quem perde são os Estados Unidos.



* Apesar de alguns jornais não darem a corrida do Arizona como concluída, o cronista segue as projeções prováveis de certas agências que dão Joseph R. Biden como vencedor neste estado. (N.E)