Joana


Pensei nela como a rapariga sem futuro. O futuro da Joana depende mais dos outros do que dela própria, do que das suas decisões e força de vontade. O futuro não lhe pertence.

Ilustração: Francisca Faria


Crónica literária de Cecília Faria

Estudante de Sociologia, FCSH


Ilustração de Francisca Faria

Estudante de Pintura, FBAUL




Não recordo, como é natural, os pormenores desse dia. Adivinho que atravessei o pátio a passos largos, porque odeio sentir-me observada e nunca sei o que fazer às mãos e aos olhos. Percorri o mais rápido que consegui o troço de caminho que contorna a esplanada, para acabar com o desconforto que os olhares dos outros despertam em mim. Sei que estávamos em meados de outubro, mas os dias eram ainda de muito calor. Tinha acabado de almoçar, ingerira os croquetes vegetarianos e o arroz de ervilhas enquanto conversava com a Andreia sobre os últimos dias de aulas, a indignação que nos causava a praxe e as novidades amorosas das nossas vidas. Tinha sido uma boa manhã, aquele almoço fizera-me sentir bem numa faculdade que ainda era para mim um sítio estranho e desafiante, onde parecia que todos os meus movimentos eram estudados pelos olhos dos outros para perceber se valia a pena darem-se ao trabalho de me conhecer.


Atravessei, portanto, o pátio e fui encontrar por baixo do alpendre de ferro do portão, por entre o sol que me batia na cara e os alunos que dispersavam pela entrada, uma pequena rapariga sentada numa cadeira com grandes rodas cinzentas. Estava simplesmente parada a olhar. O que achei mais curioso é que ela não olhava para nada em concreto. Totalmente resignada à sua sorte, parecia indiferente a tudo o que a rodeava. Aproximei-me e reconheci a sua cara. Era do meu curso, já a vira em várias aulas. Tive uma leve indecisão, estava calor e eu queria imenso chegar a casa, ainda que não tivesse nada de importante para fazer. Mas acerquei-me daquela grande cadeira, onde ela se parecia afundar, daqueles grandes e rebeldes cabelos negros que lhe escondiam a cara, e perguntei-lhe o que fazia ali. A Joana, como mais tarde descobri que era o seu nome, perscrutou-me com os olhos por detrás dos grandes óculos e, em poucas palavras, explicou-me que estava à espera da boleia para a levar para casa. As aulas tinham acabado há já mais de uma hora, mas não havia na sua voz o mínimo sinal de revolta, o que me deixou impressionada. Efetivamente, vim a descobrir que a Joana aceita a realidade como ela é. Sentei-me a seu lado, no chão de pedra, e procurei acabar com aquele constrangimento inicial que se fazia sentir entre nós. Perguntei-lhe sobre o curso e esgotei todas as perguntas a esse respeito. Depois disso, um longo silêncio, sem que a Joana, em qualquer momento, parecesse com isso minimamente incomodada. Gostei disso, da sua naturalidade em ser ela mesma e deixar os outros ser. Esperámos à vontade mais uma hora.


No caminho para casa encontrei-me na estranha posição de me sentir mais revoltada com a situação da Joana do que ela própria. Não tivéramos uma conversa muita longa, contudo, enquanto subia a rua até minha casa, não pensava noutra coisa. Em poucas palavras, mas nunca deixando adivinhar um tom de queixa ou de lamúria, a Joana contou-me que a vinham buscar e ia diretamente para casa, onde, devido à sua pouca mobilidade, passa o tempo fechada até a mãe chegar do trabalho. Eu pressentia uma profunda tristeza em tudo aquilo, mas a Joana falou-me sempre calma e desinteressadamente.


Pensei nela como a rapariga sem futuro. O futuro da Joana depende mais dos outros do que dela própria, do que das suas decisões e força de vontade. O futuro não lhe pertence. Pertence à senhora que lhe dá boleia para casa, à sua mãe, aos rapazes e raparigas que todos os dias a levam às portas das salas de aula e a mim que decido fazer-lhe companhia numa tarde de outubro. A Joana resigna-se ao futuro, porque sabe que esse futuro não é na verdade dela e não lhe pertence. Ela não tem sequer a liberdade de reclamar sobre ele os seus direitos, porque as suas pernas não cumprem os deveres.


Durante a quarentena pensei muito na Joana. Para ela, esses dias não devem ter passado de dias iguais aos outros todos. Sentada na sua grande cadeira, sem poder sair de casa.

Tenho muitas saudades de sair da faculdade e avistar a Joana. De me sentar ao pé dela e tentar, nas suas longas esperas, de alguma forma, tornar-me parte desse futuro indeciso e abstrato que não é dela, mas também não é meu.


Nestes meses de confinamento, senti-me desamparada e sozinha. Sei que houve muita gente a sentir-se assim. O nosso futuro tornou-se incerto, não dependia de nós, mas dos outros. Não sabíamos o que nos esperava e ficámos cansados de esperar. Nós não podíamos decidir e estávamos sozinhos nas nossas casas. A fragilidade que agora sentimos relativamente ao nosso futuro e às nossas vidas é o pilar em que assentam os dias da Joana. O seu amanhã é sempre incerto e as longas esperas são parte do seu futuro.