Isolado no Topo

"O homem que agora leva o povo indiano para o precipício na gestão da pandemia (...) já foi um herói local e ainda o é para muita gente, mas no Ocidente continuamos a ignorar o alcance desta personagem. Agora que é responsável pela expansão global da covid-19, (...) vale a pena fazer uma avaliação da figura e das suas dificuldades mais recentes."
"Para tomar decisões, só confia em si próprio e isso viu-se no tiro final que deu na sua credibilidade económica, quando há 3 anos decidiu retirar de circulação muito do dinheiro físico da Índia sem plano ou aviso. À medida que subiu a pulso, Modi foi-se isolando cada vez mais no seu fanatismo, nos seus retiros para a montanha e na sua corte de “yes-men”."
"(...) Modi está a passar de prazo. É a altura da sua oposição se organizar eficientemente (...) Em Calcutá, provou-se que a Democracia indiana ainda respira, apesar do iliberalismo do seu Primeiro-ministro. Até 2024, é bom que se consiga capitalizar essa réstia de oxigénio."


Crónica de João Maria Jonet

Licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais, NOVA-FCSH


Narendra Modi é um dos políticos mais perigosos do Mundo e durante muito tempo isso não pareceu importar a ninguém. Líder incontestado de uma Democracia com quase 1,4 mil milhões de habitantes, tem consolidado o poder na Índia fazendo uso do gigantesco aparelho estatal e de um discurso alicerçado no aprofundar das divisões étnicas e religiosas do país.


O homem que agora leva o povo indiano para o precipício na gestão da pandemia, fazendo mega-eventos em que brinca com a falta de máscaras enquanto morrem no mínimo 4 mil pessoas por dia, já foi um herói local e ainda o é para muita gente, mas no Ocidente continuamos a ignorar o alcance desta personagem. Agora que é responsável pela expansão global da covid-19, e possivelmente pelo desenvolvimento de variantes que podem deitar o combate da vacinação a perder, vale a pena fazer uma avaliação da figura e das suas dificuldades mais recentes.


A poucos surpreenderá que um país com a população da Índia e com a sua falta de condições sanitárias seja um foco de contágio do coronavírus. Mais surpreendente será chegar à conclusão de que isto aconteceu sob a batuta de uma pessoa que se destacou com uma governação tecnocrática, no preponderante Estado de Gujarat, ajudando assim a normalizar a extrema-direita indiana. Para contextualizar, Modi é o líder do BJP, uma força política que tem origens ideológicas nas pessoas que assassinaram Mahatma Gandhi por “apaziguar” os muçulmanos indianos (ou seja, aceitar a sua existência).


Um fanático hindu, Modi é conhecido pela sua humildade e ética de trabalho, misturando uma vida religiosa hermética com reconhecida competência técnica na gestão económica. Foi responsável por um crescimento brutal em Gujarat (ajudado pelo enorme capital humano do Estado, casa de partida da maioria dos empreendedores indianos que recebemos no Ocidente) e conseguiu repetir a dose a nível nacional, pelo menos até os ventos deixarem de soprar a seu favor.


A partir do momento em que a economia deixou de colaborar, também algo intimidada com o seu estilo autoritário e de microgestão, começou a usar as táticas que ajudam o BJP a manter o poder. Para tomar decisões, só confia em si próprio e isso viu-se no tiro final que deu na sua credibilidade económica, quando há 3 anos decidiu retirar de circulação muito do dinheiro físico da Índia sem plano ou aviso. À medida que subiu a pulso, Modi foi-se isolando cada vez mais no seu fanatismo, nos seus retiros para a montanha e na sua corte de “yes-men”. Os resultados revelam-se caóticos.


Uma das razões para o BJP tirar do poder o Congresso, histórico partido de centro-esquerda de Gandhi e Nehru, foi o facto de estes terem caído de podres, mais focados na manutenção de poder do que na governação do País. O mesmo parece estar a acontecer com o novo poder. Com a sua retórica anti-muçulmana radical, Modi conseguiu ainda ser reeleito em 2019, mobilizando o voto hindu contra um Congresso associado negativamente a políticas dinásticas e defesa de minorias. O facto do sistema político indiano lhe permitir ter maioria absoluta com menos de 38% dos votos também tem ajudado a dividir e reinar, perseguindo adversários e limitando a imprensa, enquanto tenta deportar muçulmanos pobres por não terem rendimentos. Caso isso não resultasse, havia sempre a ameaça de guerra com o Paquistão de forma a manter o eleitorado na linha.


Se a preocupação com a resolução de problemas já era muito lateral, nesta segunda vaga de covid atingiu níveis ridículos de desconexão. Enquanto os números de casos e mortes atingiam níveis irreais (de lembrar que na Índia o potencial da maioria não estar sequer a ser contada é muito grande), Modi estava apenas focado em ganhar Bengala Ocidental, um dos maiores Estados indianos, e o maior que ainda é controlado por um aliado do Congresso. Falhou em toda linha, mas não sem antes ter ignorado a pandemia de forma asquerosa.


Cada vez mais sozinho, ferido pelos eleitores em vários processos estatais que decorreram no último mês e já sem um projeto claro para a Índia (excluindo a sua ideia de limpeza étnica e religiosa), Modi está a passar de prazo. É altura da sua oposição se organizar eficientemente, sendo possível que com o seu controlo da imprensa (tem calado cada vez mais críticos à medida que as mortes aumentam) e das estruturas burocráticas, seja talvez tarde demais. Em Calcutá, provou-se que a Democracia indiana ainda respira, apesar do iliberalismo do seu Primeiro-ministro. Até 2024, é bom que se consiga capitalizar essa réstia de oxigénio.