Invasão do Capitólio: que papel para os media?


Cabe-nos a nós, em Portugal, reconhecer e evitar os erros mediáticos que criaram e mitificam a figura de Donald Trump, “vendendo-o” como uma opção válida para responder ao descontentamento. É crucial impedir o crescimento de candidatos de extrema-direita por todo o mundo. Preservar a liberdade nunca foi tão importante como agora.
REUTERS/Leah Millis
Reuters/Leah Millis

Crónica de Andreia Galvão

Estudante de Ciências da Comunicação, NOVA FCSH


Nos últimos dias, acompanhámos estupefactos os eventos na capital política dos Estados Unidos da América, o reflexo de uma democracia em vertigem. A invasão por parte de apoiantes do atual presidente norte-americano Donald Trump traduz-se na convicção da ilegitimidade eleitoral da vitória consumada pelo Partido Democrata, consubstanciando-se na figura de Joe Biden e Kamala Harris.


Na verdade, este evento foi antecedido por diversas declarações públicas de Trump, em que o próprio demonstra a vontade de continuar a disputar a presidência, criando teorias e conspirações que visam justificar que a sua derrota não traduz a vontade popular nacional mas, ao invés disso, são o sucesso de estratégias e fraude. Vários grupos de extrema-direita, entre os quais os conhecidos Proud Boys, entenderam nestes anúncios os dog whistles (referimo-nos aqui a uma mensagem política que emprega linguagem em código que parece significar algo para a população em geral, mas tem um significado mais específico e diferente para um subgrupo-alvo), motivando ação disruptiva para alcançar tais objetivos.


Foi internacional o acompanhamento do evento que chocou milhares pelo completo desrespeito pelas práticas democráticas, as mesmas práticas que os EUA assinalaram como ausentes e tentaram implantar agressivamente em diversos pontos do globo. É de ressalvar e refletir não só sobre o acontecimento, mas também a forma, o meio sobre como esta informação nos chegou.


Acompanhei a invasão do Capitólio, Washington, através da NBC, um canal cujos bias políticos são classificados como centristas, segundo várias páginas (disponível aqui ou aqui), tendo-me surpreendido a cobertura e o discurso relativamente aos invasores. São evidentes as distinções entre o jornalismo norte-americano e o europeu (ou, mais especificamente, o português), que derivam de tradições histórico-sociais completamente diferentes, refletindo-se numa ênfase maior de comentários por parte dos estadunidenses.


Toda a mobilização foi refletida como sendo meramente incitada por Trump, tendo sido os indivíduos envolvidos descritos como não tendo agência pessoal. Reflexo dos media num país cada vez mais polarizado, dividida em tribos e incapaz de dialogar, reduzindo todos os opositores como inequivocamente errados.


Quem são os ocupantes que quiseram tomar o Capitólio e porque estavam ali? Porque é que o discurso demagogo de Donald Trump continua a ser relevante para milhares de norte-americanos, mobilizando-os de tal forma a meio de uma pandemia mundial? Quais são os problemas que as levam a exigir respostas políticas de formas tão dramáticas?


As mobilizações convocadas pela extrema-direita refletem uma ausência estrutural de respostas sociais que afetam a vida da maioria da população. Joe Biden repetiu, inúmeras vezes ao longo dos discursos que visavam apaziguar a população, que “a América não era aquilo”. No entanto, estabelecemos na fundação dos Estados Unidos a exploração racial e as desigualdades socioeconómicas. A ausência da garantia dos direitos básicos à maioria da população, a injustiça localiza-se no âmago da nação.


Quando os media insistem em vilificar em Donald Trump todos os problemas que resultam na rápida deterioração da frágil democracia norte-americana, reduzindo os seus apoiantes ao estereótipo de saloios republicanos, incapacitados cognitivamente, de condição socioeconómica baixa, falham em reconhecer a verdade fundamental sobre os Estados Unidos. Um país inerentemente injusto, incapaz de responder estruturalmente em áreas centrais como a Saúde ou a Educação, por exemplo, é um país que cria brechas pelas quais se infiltra o discurso de ódio e, consequentemente, a extrema-direita.


Cabe-nos a nós, em Portugal, reconhecer e evitar os erros mediáticos que criaram e mitificam a figura de Donald Trump, “vendendo-o” como uma opção válida para responder ao descontentamento. É crucial impedir o crescimento de candidatos de extrema-direita por todo o mundo. Preservar a liberdade nunca foi tão importante como agora.