Inflação: o mauzão onde ninguém põe a mão?

Desde o início de 2021 que a inflação tem registado uma tendência crescente, inicialmente, crescendo ao ritmo pré pandemia e, nos últimos tempos, com valores observados sempre acima dos projetados.

de Catarina Neto



A inflação é uma realidade distante para muitos: A minha geração cresceu numa União Monetária que enfrentou o desafio de manter uma inflação próxima de 2% durante muitos anos. Numa economia de taxas de juro baixas e na impossibilidade de as baixar mais, surgiu a necessidade de adotar políticas monetárias não convencionais, com o objetivo de estimular a economia e lutar contra a deflação. Por se tratar de um conceito difícil de compreender para muitos, torna-se importante desconstruir como, após estímulos de políticas monetárias e orçamentais implementadas ao longo de todos estes anos, nos vemos perante uma situação de inflação crescente e num ambiente caracterizado pela incerteza. É, por isso, necessária literacia nesta área, para que não se caia em discursos falaciosos que sejam gerados apenas e só para aproveitamento político, alheio a factos técnicos que são muitas vezes encobertos em discursos mais sindicalizados.


Em Portugal existem inúmeros estudos públicos que procuram apresentar de forma clara muitas das variantes das matérias económicas, como é o caso do Boletim Económico de Março 2022 publicado pelo Banco de Portugal, onde é apresentada de forma pormenorizada não só as implicações económicas da guerra na Ucrânia como também um enquadramento das políticas à nova realidade, a evolução da taxa de inflação com projeções futuras e, por fim, os fatores que contribuíram para esta situação.


Como é sabido, os bens energéticos têm tido um contributo preponderante para o aumento da inflação na Zona Euro. Em particular, assistimos a um crescimento substancial do preço destes bens nos mercados internacionais. No entanto, o aumento dos preços é geral, e não se restringe aos bens energéticos e alimentares.

Por um lado, o efeito deste aumento dos preços das matérias-primas energéticas acaba por inflacionar muitos outros produtos via custos de produção e de distribuição. Por outro, também as disrupções nas cadeias de valor globais e mesmo a escassez de produtos nos mercados internacionais têm contribuído para o aumento significativo do preço de determinados bens, onde assistimos a um aumento da procura que não foi acompanhado por uma resposta semelhante da oferta. Tal como no caso da energia, este problema foi igualmente intensificado com o conflito militar na Ucrânia.


Em Portugal, a inflação atingiu 5,3% em março de 2022, e a teoria económica aponta para a importância das expectativas dos agentes nas previsões da inflação no futuro, uma vez que são importantes indicadores sobre a persistência do aumento da inflação. Na condução da política monetária, as expectativas mais relevantes são as das famílias e das empresas: no caso das famílias estas são em grande parte moldadas pelo preço dos produtos que as pessoas adquirem frequentemente (como é o caso da gasolina/gasóleo e bens alimentares). Assim, o meu ponto é precisamente alertar para a necessidade de evitar que as expectativas da sociedade se modifiquem por meio de discursos sem cautela de pedidos de aumentos salariais indexados à inflação, sem que sejam explicadas as possíveis consequências de políticas expansionistas numa altura crítica como a que vivemos. Naturalmente que a inflação tem consequências negativas para o poder de compra dos agentes que não podem ser negligenciadas, e é preciso ter em consideração que este problema afeta as despesas das famílias de forma assimétrica, podendo conduzir a um aumento das desigualdades. Contudo, é importante salvaguardar que a discussão sobre o futuro da inflação não seja feita de forma isolada e tratada como independente da Política Monetária, uma vez que esta é (e continuará a ser) uma determinante crucial no seu comportamento. É importante que se atente a como o atraso na atuação do BCE pode afetar a economia e que um passo em falso pode atirar as economias da Zona Euro para uma recessão (tal como aquela a que assistimos nos anos 70 com o atraso de atuação dos Bancos Centrais).


Não se pode exigir a tal aclamada política orçamental expansionista enquanto o Banco Central Europeu não cumprir a sua parte naquele que é o seu objetivo primordial: defender uma inflação de 2% e subir as taxas de juro.

Tal como defendeu o economista Ricardo Reis, num cenário como este, é essencial que o BCE suba as taxas de juro e pare de hesitar naquilo que é agora urgente e inevitável. O desafio é fazê-lo ao ritmo ótimo de subida das taxas que continue a tornar possível não cair numa recessão, uma vez que, quer uma subida rápida demais, quer um prolongamento do atraso teriam efeitos nefastos.


O FED falhou ao atrasar demasiado a implementação das medidas, e o BCE está a prolongar neste momento um atraso que pode dar origem ao seu próprio falhanço.