Hidrogénio: it’s not easy being green

O preço da energia, sobretudo dos combustíveis, é um dos principais temas em cima da mesa da atualidade. Talvez por isso seja mais importante do que nunca pensar em alternativas aos combustíveis fósseis e conhecer as opções que têm sido pensadas nos últimos tempos.

de Maria Leonor Carapuço



Na mira dos investidores públicos e privados tem estado o hidrogénio verde. Este composto químico é produzido através de energias renováveis que alimentam um fenómeno chamado eletrólise da água. Quando a água entra em contacto com uma corrente elétrica contínua, a eletricidade faz com que a água (H2O) se decomponha em dois elementos, sendo um deles o hidrogénio (H2).



Por esta razão o hidrogénio verde distingue-se de outros tipos de hidrogénio como o cinzento, o azul ou o turquesa: a sua origem é sustentável porque a eletricidade usada provém de fontes renováveis. Atualmente, apenas cerca de 5% do hidrogénio produzido no planeta resulta deste processo.



O hidrogénio poderá ser uma das chaves para a transição energética, como solução para setores cujas emissões de carbono são difíceis de eliminar. Atividades económicas extremamente poluentes como o transporte de mercadorias através de veículos pesados, aéreos ou marítimos, bem como a produção de aço e betão poderão ter uma solução à vista no hidrogénio verde.


As suas vantagens passam pelo facto de não haver limites à sua produção, de poder ser usado onde for produzido ou transportado para outro lugar. É mais concentrado em energia do que outros combustíveis, portanto é necessário em menos quantidade e só requer água e energia renovável para a sua produção. No entanto, se for produzido através da energia disponível na rede elétrica, emitirá tanto dióxido de carbono como o uso de combustíveis fósseis, dado que nem toda a eletricidade disponível em rede é de fontes renováveis.



O uso desta alternativa espoletou muitas dúvidas e não foi consensual entre os especialistas. O hidrogénio é mais inflamável no ar do que o gás natural, o propano ou a gasolina, mas por ser um gás muito leve também se dispersa facilmente na atmosfera. Pela sua baixa densidade, o hidrogénio é muito difícil de transportar. Precisa de ser arrefecido até aos -253ºC para se tornar num líquido ou comprimido em 700 vezes a pressão atmosférica. Pequenas quantidades também podem ser misturadas com gás natural, o que permite a distribuição pelas condutas de gás natural já existentes.



Outra solução passa pela conversão de hidrogénio em amoníaco, cujo transporte é mais prático. Como explicou o presidente da Associação Portuguesa para a Promoção do Hidrogénio (AP2H2), José João Campos Rodrigues, ao Observador, a energia elétrica é transformada em hidrogénio, o hidrogénio em amoníaco, o amoníaco é transportado e no destino retira-se o hidrogénio de novo. Assim se cria um combustível para transportes pesados que não emite carbono.



O hidrogénio verde aproveita o excesso de produção de eletricidade das energias renováveis, que de outra forma não seria possível armazenar. Mas este armazenamento é muito custoso. Também noticiado pelo Observador, o presidente da associação ZERO, Francisco Ferreira, destaca que o hidrogénio tem custos de produção muito altos e são requeridas grandes quantidades de energia para a eletrólise. É preferível o uso direto de energias renováveis quando possível, como nos automóveis elétricos que funcionam a baterias, dado ser energeticamente mais eficiente. Tal não implica que o hidrogénio verde não deva ser usado nos setores dos transportes pesados e indústrias.



Com o objetivo de terminar com a emissão de gases que contribuem para o efeito de estufa até 2050, países por todo o mundo como o Reino Unido, a Alemanha, o Japão, os Estados Unidos, a Austrália e a China multiplicaram os seus investimentos no hidrogénio verde. A União Europeia não é exceção e um dos grandes eixos do plano de financiamento Next Generation EU (NextGenEU) é o hidrogénio verde.


Portanto, não é de estranhar que em Portugal se comece a assistir ao surgimento de iniciativas de produção de hidrogénio verde, sendo que o Plano de Recuperação e Resiliência conta com 185 milhões de euros para investir nestes projetos.



Na antiga central termoelétrica de Sines, colecionam-se as iniciativas para a produção de hidrogénio. Segundo o (agora ex) ministro do Ambiente e Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, o ‘cluster’ de hidrogénio em Sines conta para já com sete projetos identificados no valor de sete mil milhões de euros. A EDP anunciou o projeto Green H2 Atlantic, dinamizado por um consórcio com 12 outras entidades, cuja operação deverá começar em 2025.



Na região de Lisboa, a Dourogás Renovável e a Águas do Tejo Atlântico anunciaram também dois projetos para produzir biometano, hidrogénio verde e metano a partir de lamas de ETAR. Também na Asseiceira a Estação de Tratamento de Águas (ETA) da EPAL está a desenvolver um projeto para produzir energia e hidrogénio verde.



No concelho do Seixal, a Galp Gás Natural Distribuição (GGND) está prestes a concluir um projeto para produzir hidrogénio e misturá-lo na rede de gás natural, para já numa rede fechada de 80 consumidores. E a empresa portuguesa cotada no índice Nasdaq, Fusion Fuel, é uma das grandes impulsionadoras de projetos de hidrogénio verde, com tecnologia inovadora a nível mundial, que depende de energia solar.



Com toda a razão, no entanto, avisou Francisco Ferreira, da associação ZERO, que não se pode “forrar” o país de painéis fotovoltaicos. Por isso tornou-se uma prioridade, tanto a nível europeu como nacional, aproveitar os oceanos economicamente, nomeadamente com a produção de energia eólica offshore.


Na conferência "Gerar energia para o mundo e preservar o planeta" organizada pelo Clube de Lisboa, foi defendido pela ex-ministra e líder do CDS, Assunção Cristas, uma forte aposta nas energias renováveis oceânicas, mencionando a já existência de um projeto-piloto de moinhos eólicos e também a possibilidade da aposta no hidrogénio verde. Cristas destacou o potencial de um conhecimento mais aprofundado da zona económica exclusiva portuguesa (a terceira maior da União Europeia), bem como a produção agrícola através de recifes artificiais.



O grande impulsionador da produção de hidrogénio verde será inevitavelmente o custo. Com o cenário atual dos preços da energia e com o investimento que está a ser feito nesta solução, o dia em que o hidrogénio verde faz parte da nossa realidade pode estar mais perto do que se imagina.