Hergé

A banda desenhada é a minha única forma de expressão. Que mais tenho à minha disposição? A pintura? É preciso dedicar-lhe uma vida.”, podemos ler numa das paredes de “Hergé”, exposição dedicada a Georges Remi, artista de múltiplos talentos, patente na Fundação Calouste Gulbenkian até 10 de janeiro de 2022.


A pouca importância atribuída à banda desenhada afetava Hergé, cuja obra, intencionalmente consagrada, suscitava entusiasmo, mas tardava em ser reconhecida como uma verdadeira arte. A exposição celebra Hergé sob a forma de um regresso às origens, explorando vários aspetos menos conhecidos da sua personalidade, começando pelas suas incursões na pintura no início dos anos 1960 e pelo fascínio que, naquela época, ele tinha pela arte do seu tempo, a mais moderna.


Com “As Aventuras de Tintin”, Hergé reuniu uma reserva de imagens documentais que lhe permitiram integrar nas suas vinhetas referências a diversas correntes artísticas. As pranchas desenhadas a lápis testemunham o grande domínio de Hergé na arte do retrato. O seu traço a lápis torna-se mágico quando se concentra nos seus personagens. É examinando, de perto ou de longe, os retratos realizados por Hergé que nos damos conta até que ponto ele desenha bem. A sua sensibilidade, o seu feeling e o seu domínio deste género são notáveis.


Se a banda desenhada foi, durante muito tempo, considerada uma arte menor, foram personalidades como Hergé que a impulsionaram para níveis artísticos nunca igualados. Certos esboços, realizados a grafite, do Capitão Haddock, de Tintin ou do Professor Girassol, por exemplo, lembram-nos — pela sua complexidade, a sua turbulência sábia, a justeza de tom — exercícios de estilo que nada ficam a dever aos grandes mestres que Hergé admirava: Da Vinci, Dürer, Holbein, Ingres, entre outros.


“Tintin proporcionou-me felicidade. Fiz o meu melhor e nem sempre foi fácil. Mas diverti-me imenso.”, remata Hergé no final de 1975 ao “La Libre Belgique”.



Fotografias e texto de Duarte Costa