Gerês: A nossa única riqueza é ver


Se queríamos o Gerês tal como era, sem hordas humanas sedentas de banhos e escaldões, teríamos de o percorrer caminhando. E não exageramos se dissermos que vimos as paisagens mais belas da serra nos trilhos que aqui e ali se estendem pelos montes e vales.




Crónica e Fotografias de

Matilde Almeida

Estudante de Engenharia Biológica, IST

António Vaz Pato

Estudante de Biologia, FCUL



Serra!

E qualquer coisa dentro de mim se acalma…

Qualquer coisa profunda e dolorida,

Traída,

Feita de terra

E alma.


Miguel Torga, Diário II


Lisboa, 12 de Agosto de 2020



Miguel Torga, pseudónimo do poeta e médico transmontano Adolfo Correia da Rocha, faria hoje 113 anos. No alto de um dos miradouros mais visitados no Gerês, a Pedra Bela, numa rocha de granito talhada, está escrita em letra miúda esta estrofe que nos serve de epígrafe. Hoje em dia devemos as mais belas passagens deste escritor ao lugar que visitou ao longo de mais de meio século, nas suas férias. Na serra do Gerês, Torga encontrou o silêncio na beleza pristina dos montes e vales cobertos de granito e floresta e conseguiu a proeza de espelhar, nos seus Diários, a essência de um lugar cuja natureza é fiel à suas origens. Hoje, no dia do nascimento de Torga, no recanto predilecto do poeta, lavra um incêndio de ambos os lados da fronteira. Em Lindoso, no dia 10, 600 hectares de terreno foram reduzidos a cinza. Um piloto português morreu quando o Canadair que pilotava se despenhou a 2 quilómetros da fronteira. O seu copiloto espanhol encontra-se em estado grave. É uma tragédia que merece toda a nossa atenção e comoção. Sabemos que os incêndios em Portugal na altura do Verão são quase tão certos praias rebentando pelas costuras, mas ver o nosso primeiro e único parque nacional arrasado pelas chamas agita dentro de nós essa “coisa profunda e dolorida” que há quase 80 anos serenava em Torga.



Miradouro da Fraga Negra

Faz hoje 3 semanas que partimos para a Vila do Gerês, no coração do parque nacional da Peneda-Gerês (PNPG). Apesar de a natureza não nos ser propriamente estranha, sair da cidade para uma paisagem imaculada, onde o elemento humano se dissolve no meio natural, é percorrer a longa distância que hoje nos separa dela. E é encontrar à chegada, sobretudo, um equilíbrio (muitas vezes ameaçado) entre a mão humana e a paisagem original. Por mais tempo que nos detenhamos no parque, não existe momento nem lugar em que nos consigamos abstrair da serra que nos envolve.


O Gerês é uma paisagem heterogénea, feita de retalhos de rocha e arvoredo, unida por um elemento comum: a água. A água é o motor das metamorfoses sazonais do parque. A abundância com que corre pelos rios e lagoas oscila de uma maneira capaz de tornar um lugar noutro totalmente diferente de abril para julho.


Albufeira de Vilarinho das Furnas (rio Homem)

As cascatas, longe do seu esplendor e força máxima por estas alturas (em terras de água abundante, a seca vai-se asseverando com o passar dos anos no Verão), são ainda assim o destino predilecto da maioria dos visitantes do PNPG. A gentrificação é uma ameaça para quem deseja apenas os ruídos da água, do vento e das aves. À cascata do Homem, do Arado e da Fecha das Barjas ninguém retira a beleza, mas a mera presença humana ( que em nada é diferente, por exemplo, do Algarve em pleno Agosto) arrasa o contexto natural que a própria cascata moldou. Na verdade, tudo aquilo que a grande maioria dos visitantes queria era uma lagoa ou uma cascata perto de uma estrada transitável para aí ficar o dia inteiro, munidos das geleiras com vinho verde e cerveja e das obrigatórias colunas de som. Hoje em dia, o ser humano, por onde quer que passe em largas massas, nada mais é do que poluição visual e sonora. Se queríamos o Gerês tal como era, sem hordas humanas sedentas de banhos e escaldões, teríamos de o percorrer caminhando. E não exageramos se dissermos que vimos as paisagens mais belas da serra nos trilhos que aqui e ali se estendem pelos montes e vales.


Trilho dos Poços Verdes

Se, por um lado, lamentamos a ausência de curiosidade das pessoas por estes locais mais inóspitos, por outro, esperamos que assim permaneçam, sob pena de os perder. Saindo da periferia das estradas mais corridas, alcançamos a Junceda na sua imensidão granítica ou tropeçamos numa praia perdida do rio Homem, na barragem de Vilarinho das Furnas. E é em lugares como o Xertelo que encontramos a proporcionalidade entre acessibilidade e conservação. Os cerca de 5 km de trilhos domados quase exclusivamente por cabras e giestas que separam a aldeia do Xertelo das (mais de) Sete Lagoas mantêm este recanto do parque afastado de um cenário balnear capariquense. Na Mata da Albergaria existe um silêncio possível para quem procura somente a companhia de um rio correndo entre o granito, ladeado de carvalhos, olmos e faias. O tempo escorre sem pressa na Geira Romana, um dos trilhos que serpenteia a Mata, hoje um vestígio indelével da passagem, há 2000 anos, dos cidadãos da antiga Roma.


Miradouro da Junceda

É difícil para um habitante da urbe conceber a existência de uma área natural de proteção total, onde o impacto humano se resume a um pequeno troço de estrada sem asfalto. Na mesma lógica, para nós que estamos tão distantes da realidade natural e selvagem, não é fácil interiorizar o valor intrínseco e essencial de um lugar como este. Talvez seja por essa razão que a reação do país ao incêndio desta semana no Lindoso não tenha sido muito diferente da habitual reação a “mais um” incêndio. Estamos longe e falta-nos vontade para nos aproximarmos de um território selvagem que também é nosso e do qual nos devíamos orgulhar.


As Sete Lagoas

À saída do parque de campismo onde ficámos está uma placa já gasta pelo tempo. As letras mal se veem e é a sua presença é tão discreta que, apesar de passarmos por ela todos os dias, só nos apercebemos da sua existência já no fim da nossa estadia. No canto inferior direito está uma data: 11-10-1970, dia da inauguração do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Em baixo relevo lê-se, por cima:

Que este parque constitua uma escola e um símbolo onde se aprenda na contemplação das suas belezas, quanto respeito deve merecer a preservação dos recursos naturais de transcendente significado para o futuro do Homem e da própria civilização.


- Engenheiro Vasco Leonidas



Talvez não tenha sido por acaso que a descobrimos tão tarde. Depois de quilómetros e quilómetros de trilhos percorridos, de ribeiras, lagoas, floresta e granito, é como se a mensagem viesse apenas confirmar uma ideia que foi cimentando em nós ao longo dessa semana. Certamente que serão poucos aqueles que reparam na placa erodida pelo tempo. No entanto, muitos mais serão os que guardam do Gerês o mesmo fascínio que levou, há 50 anos, Vasco Leonidas e os seus colegas à criação da primeira área protegida de Portugal.

Há sítios do mundo que são como

certas existências humanas: tudo

se conjuga para que nada falte

à sua grandeza e perfeição.

Este Gerês é um deles.

Miguel Torga, Diário VII



Espigueiro na aldeia do Xertelo, Montalegre