Gastão Reis

A carreira de Gastão Reis foi curta demais, não só pela sua juventude, mas também pelo seu talento, uma vez que se tratava de um dos jovens mais talentosos da sua geração. Ao virtuosismo e groove do seu baixo, aliava uma excelente capacidade de representação e voz inconfundível, que faziam dele um intérprete sem par.




Eulogia de Francisco Carvalho

Estudante de Direito, FDUL



Nada nos prepara para vermos partir aqueles de quem mais gostamos. O mesmo princípio aplica-se para aqueles que, de alguma maneira, nos inspiram.


Gastão Reis, de 24 anos, foi encontrado sem vida na sequência do desabamento de um prédio em Lisboa. A sua vida e o seu talento merecem várias homenagens. Por isso, ainda que neste momento as palavras sejam poucas, farei aqui a minha parte.


Recordo-me quando, em 2017, descobri os Zarco, aquando do lançamento do seu primeiro EP Zarcotráfico. Não sabia bem de que se tratava, nem quem seriam os seus intervenientes, mas fiz questão de partilhar com os meus amigos essa descoberta incrível que acabara de fazer. Para além dos instrumentais virtuosos e alucinantes de rock progressivo, a voz do vocalista e baixista Gastão fascinava-me e fazia qualquer um sentir-se vivo, tratando-se de um autêntico estimulante.


Dois anos mais tarde, a banda edita o seu primeiro álbum, Spazutempo. Uma odisseia com características diferentes daquelas que foram apresentadas no primeiro EP. Mais maduro, mas que nos transporta para o mesmo universo quase mitológico.


Mais recentemente, há que exaltar a sua prestação no álbum Cuca Vida do Conjunto Cuca Monga, com excelentes contribuições, sobretudo a nível de coros, mas também no refrão do single "Tou Na Moda". Neste projeto, Gastão presenteou-nos com toda a sua criatividade, tanto ao nível das letras e poesia apresentadas, como a nível da sua capacidade vocal, com as suas icónicas harmonias. Uma análise detalhada a este trabalho pode ser encontrada no Pista A Pista, feito por alguns amigos e companheiros da editora Cuca Monga.


Poucos dias depois de ter atuado num dos mais icónicos palcos de Portugal - a Altice Arena - este jovem inspirador é vítima de um acidente trágico, que nos deve fazer a todos refletir.


A carreira de Gastão Reis foi curta demais, não só pela sua juventude, mas também pelo seu talento, uma vez que se tratava de um dos jovens mais talentosos da sua geração. Ao virtuosismo e groove do seu baixo, aliava uma excelente capacidade de representação e voz inconfundível, que faziam dele um intérprete sem par.


A sua partida vem frisar a importância de ouvir e apoiar a música independente portuguesa neste momento que, só por si já é difícil. Deve ser vista também como um convite à união dos músicos da cena alternativa lisboeta, que deverão estar gratos por terem convivido com Gastão Reis, e que agora têm a missão de nunca deixar cair no esquecimento o seu legado.