Friends: o nosso unagi

De Manhattan a qualquer lado do mundo, há pessoas emocionalmente investidas na amizade entre estes seis seres humanos disfuncionais, porque se vêem a si e ao modo como se relacionam, no ecrã.

Texto de Teresa Brito e Faro

A última quinta-feira foi marcada pela reunião mais antecipada do ano: a Rachel, o Ross, a Monica, o Chandler, a Phoebe e o Joey voltaram. Ainda que enquanto os atores e não as suas personagens, o elenco regressou aos apartamentos da Monica e dos rapazes, ao Central Perk e à icónica fonte onde foi gravado o único genérico que ninguém passa à frente.

Entre lágrimas e abraços, a emoção no reencontro dos seis amigos representa na perfeição o sentimento dos milhões de fãs, de gerações tão diversas, face a esta série. São duas horas de nostalgia que não foram feitas para serem só vistas, mas vividas, e que deixam claro: Friends não é só uma série. Nada que conquiste o amor universal na dimensão que Friends fez é só uma série.

Resta-nos, portanto, procurar respostas à eterna questão: o que é que torna Friends a série mais adorada dos últimos 30 anos?


Podem ser péssimas pessoas, mas estão lá

Ao acreditarem que as amizades da vida real funcionam com a dos Friends, os fãs da série ganham permissão para serem e fazerem o que querem sem risco de perderem o respeito das pessoas à sua volta – é reconfortante saber que nenhum traço de personalidade, por mais peculiar ou extremo que seja, nos torna menos merecedores da lealdade e constante apoio dos restantes - . A lição que levam para casa, por exemplo, do episódio “The One with Mrs. Bing”, é a de que podem beijar a mãe do vosso melhor amigo sem que isso traga graves consequências para a amizade.


A dose certa de nada relatable

Sei que não sou a primeira a refletir sobre isto, mas não há renda controlada em toda Nova Iorque que permitisse à Monica, mesmo em 1994, pagar um T2 em Manhattan com o salário de quem passa manhãs, tardes e noites a conversar com os amigos no café do rés-do-chão. A boa notícia é que uma sitcom não se quer rigorosa e que os dias vazios de preocupações daquelas personagens são o que permitem ao público esquecer-se das suas – mais do que ver os nossos próprios problemas representados no ecrã, queremos relaxar e fantasiar ter um pato e um pintainho como únicas responsabilidades na vida.

E de muito relatable

Quando os criadores de Friends, David Crane e Marta Kauffman, projectaram o conceito do que viria a ser Friends, descreveram-na como sendo uma série sobre “aquela altura da vida em que os teus amigos são a tua família”. Em última análise, é uma série sobre o fenómeno mais universal de todos – relações.


De Manhattan a qualquer lado do mundo, há pessoas emocionalmente investidas na amizade entre estes seis seres humanos disfuncionais, porque se vêem a si e ao modo como se relacionam, no ecrã. Os mais reservados nas emoções, mas sempre presentes, vêem-se no Ross. Outros, vêem-se na Rachel, nos momentos em que baixam a guarda e se deixam acolher com vulnerabilidade. No Chandler, estão os engraçados, a esconder a insegurança com humor, transparecendo honestidade, contudo, na cumplicidade com os amigos. Na Monica, as mães e pais do grupo, cuidadores e preocupados com o bem-estar de todos. No Joey, os que expressam o amor com pureza e sinceridade, sem conter as demonstrações de afeto. Na Phoebe, os desajustados para quem os amigos são casa e lugar seguro para se ser autêntico.


O mais provável é já termos visto um pouco de nós em cada uma daquelas personagens e sentido algum conforto ao perceber que não estávamos sozinhos. No final de contas, Friends faz-nos sentir conectados, ou, por outras palavras, como sempre ouvi dizer sobre a televisão, é uma boa companhia.