Fita Curta - Mas o que é que foi isto?

Há filmes que quebram esta ilusão de que estamos sempre no controlo. Enquanto seres conscientes e racionais, lutamos contra o absurdo, tentamos resolver a discrepância entre nós e o inexplicável. Confrontados com ideias absurdas, súbitas ou sem explicação, ficamos sujeitos a um conflito onde o raciocínio é cedido a uma falta de sentido

Seleção de Afonso Abecasis



Às vezes, é um plot twist que parece surgir do nada que nos choca e faz questionar tudo o que vimos até àquele momento. Outras vezes, são histórias que mexem com a nossa cabeça do princípio ao fim: narrativas que parecem ser minimamente lineares, mas acabam a puxar-nos em zigue-zague, dum lado para o outro sem conseguirmos perceber bem o que se passa.


Há filmes que quebram esta ilusão de que estamos sempre no controlo. Enquanto seres conscientes e racionais, lutamos contra o absurdo, tentamos resolver a discrepância entre nós e o inexplicável. Confrontados com ideias absurdas, súbitas ou sem explicação, ficamos sujeitos a um conflito onde o raciocínio é cedido a uma falta de sentido.


É aí então que surge a típica frase: “Mas o que é que foi isto?”. O resultado é acabarmos à procura de respostas durante horas a fio - a querer, por tudo, discutir o que se passou e sobretudo encontrar alguém que partilhe das mesmas frustrações.


Estes filmes pertencem a diferentes géneros – dramas psicológicos, thrillers, ficção científica, surrealismo – mas os seus efeitos são muitas vezes os mesmos.


Mulholland Drive – David Lynch (2001)


Do génio do subconsciente – David Lynch, Mulholland Drive começou por ser uma ideia para uma série de televisão, tendo depois sido transformada em filme. Talvez por isso seja notória a narrativa mais fraturada e descontínua. Trata-se dum sonho em céu aberto,

movendo-se por caminhos repletos de curvas inesperadas. Lynch apresenta-nos Betty Elms, uma atriz que sonha ser uma estrela de Hollywood, e o seu encontro com uma mulher que sofre de amnésia. O resto é história.





Memento – Christopher Nolan (2000)


Marcando a primeira colaboração entre Christopher Nolan e o seu irmão Jonathan - no processo de escrita – Memento mostra-nos a narrativa dum filme que é construída numa ordem inversa. O que poderia ao início parecer uma obra um pouco presunçosa, acabou

por se tornar num dos melhores e mais originais thrillers de sempre. O filme conta a história de Leonard Shelby, que tenta encontrar o homem que violou e matou a sua mulher. No entanto, toda esta procura é agravada pelo facto de Shelby sofrer de perdas de memória a curto prazo – não se lembrando de nada que tenha acontecido nos últimos 15 minutos. Esta é uma viagem intensa.

The Holy Mountain – Alejandro Jodorowsky (1973)

Um mestre mexicano conduz uma figura de Cristo e outros discípulos a uma montanha de sábios imortais. Só Jodorowsky seria capaz de imaginar isto - um homem que se dedicou à arte de ajudar as pessoas a repensarem as suas relações, sobre elas próprias e no mundo

que as rodeia. Aqui, símbolos, sons e montagens permitem um tipo de expressão que guia suavemente o espectador, deixando um enorme espaço para interpretações e descobertas pessoais.




Mother! – Darren Aronofsky (2017)


Provavelmente o filme mais polémico da lista, Mother! é daquelas experiências que ou odiamos ou adoramos ou simplesmente não sabemos o que sentir. O filme mais bizarro e excêntrico lançado por um grande estúdio nos últimos anos, esta é uma obra que pertence a um realizador conhecido por materializar ideias fora do comum. Aronofsky sempre se

envolveu com temas como a imortalidade e o simbolismo religioso, mas Mother! traz outro patamar. Horrível em certas alturas, fascinante noutras, desconcertante durante a maior parte do tempo e sobretudo único, não existindo nada que se lhe assemelhe.


Donnie Darko – Richard Kelly (2001)


Depois de escapar por pouco a um bizarro acidente, Donnie, um problemático adolescente, é atormentado por visões de um coelho que o manipula a cometer uma série de crimes.

Uma história de alienação juvenil misturada com visões cósmicas, num background suburbano e nostálgico dos anos 80. Richard Kelly estreou-se com um dos maiores filmes de culto até hoje. Inspirando-se na obra de Stephen Hawking (A Brief History of Time), utilizou o conceito de viagem no tempo para estruturar a narrativa de Donnie Darko. A sensação que temos é exatamente a de estar num buraco negro, à deriva e a tentar perceber o que se passa.