Fita Curta - "Come and see"

Atualizado: 4 de Out de 2020



We used to wonder where war lived, what it was that made it so vile. And now we realize that we know where it lives...inside ourselves. - Albert Camus

Crítica de Afonso Abecasis

Para a rubrica Fita Curta



Com esta frase de Camus em mente é, no mínimo, interessante apercebermo-nos da contradição que a Guerra traz, especialmente nos filmes e, dentro destes, naqueles que se caracterizam como “anti-guerra”, visto que é difícil realizar um filme que consiga alcançar verdadeiramente esse efeito. Pois a Guerra, pela sua própria natureza, presta-se bem a histórias e espetáculos que se refletem no grande ecrã.


Embora haja algumas excepções, poucos se mostraram aptos para separar as amargas realidades da Guerra das ficções que enchem as grandes telas visuais como o cinema Russo/Soviético. Talvez devido a diferenças culturais, ou até às brutais experiências vivenciadas durante a Segunda Guerra Mundial, não nos deveria espantar que o cinema Russo tenha sempre tido uma reputação pelos seus filmes acerca de conflitos armados, raramente romantizados ou impregnados em produções de Hollywood. Desde Sergei Eisenstein e da sua obra Battleship Potemkin, passando por Stalingrad de Yuri Ozerov, os filmes Russo-Soviéticos vêm em variadas formas e números.


Mas de todos há um que se destaca, sendo considerado, por muitos, um dos melhores filmes de sempre e o melhor filme de guerra alguma vez feito: Come and See.

Realizado por Elem Klimov e apresentando um elenco quase que repleto de atores desconhecidos à altura (e até hoje), Come and See, de 1985, retrata a odisseia dum jovem miúdo e a sua luta pela sobrevivência numa Bielorússia ocupada pela Alemanha Nazi. Filmado para comemorar o 40º aniversário da vitória soviética e o fim da Grande Guerra Patriótica, é notável que este filme tenha sido lançado sem qualquer alteração ou censura, e completamente desprovido de nacionalismos, propagandas ou qualquer tipo de espectacularismo. Pelo contrário, trata-se duma representação sombria e angustiante pela persistência da vida, com um realismo implacável e uma honestidade brutal sobre o que a Guerra de pior tem para oferecer, dando origem a uma obra de arte verdadeiramente poderosa.


O enredo inicia-se numa praia da Bielorússia, em 1943, com um jovem chamado Florya (protagonizado por Aleksei Kravchenko), a brincar com os seus amigos a jogos de guerra, e a sonhar em juntar-se aos partisans soviéticos na luta contra o exército alemão. Apesar das advertências dos mais velhos e dos apelos da sua mãe, quando tem a oportunidade de concretizar essa vontade de defender a pátria, ele agarra-a sem hesitação.


Não demora muito para que Florya, um recruta ingénuo, colida com a cruel e chocante realidade do conflito, onde o esforço pelo país rapidamente se torna num esforço pela vida. O seu idealismo e utopia são as primeiras vítimas, seguindo-se a sua própria humanidade e sanidade.


O filme claramente distancia-se doutros mais típicos de guerra, ao mostrar que o ponto principal não é sobre lutar, mas sim sobreviver a um conflito. A narrativa é essencialmente enquadrada como uma horrível história de amadurecimento duma criança-soldado, e assistir à quantidade absurda de terror e tortura que ele tem que suportar enquanto criança, e o efeito transfomador que isso tem sobre ele, contribuem para um dos retratos mais trágicos na história do cinema.


O filme foca-se também nos inúmeros horrores que a Bielorússia soviética sofreu durante a ocupação Nazi, e não foge dos detalhes gráficos e realistas dos crimes cometidos. Aliás, antes de vê-lo não tinha a noção concisa da destruição total das vilas no país, onde aldeias inteiras eram assassinadas por puro capricho ou impulso, contabilizando mais de 600 vilas e mais de 100000 mortos.


Outro ponto, talvez um dos mais surpreendentes deste filme, é o facto do elenco ser composto na sua maioria por atores estreantes, o que torna o nível das representações ainda mais impressionante. Embora o crédito se deva a vários membros, Kravchenko mais ou menos acarta o peso do filme nos seus ombros, através da demonstração profundamente expressiva de Florya, ainda mais notável tendo em conta que apenas tinha 14 anos à altura. A quantidade de emoção que ele dispõe apenas com a sua cara e, acima de tudo, os seus olhos assombrados, é extraordinária. Vê-lo desde um patriota idealista a um sobrevivente em choque, quase mudo e à beira do precipício da sanidade, que viu demasiados terrores, é cativante e inesquecível. Se quisermos ver a cara da Guerra, não devemos olhar para Rambo ou Kyle (American Sniper), mas sim para os olhos aterrorizados e apáticos de Florya.


Come and See também beneficia da cinematografia e direção de Klimov, com as várias cenas das paisagens bielorussas a marcarem a diversidade natural onde o protagonista caminha na sua marcha sem rumo. Outra técnica é o uso do diálogo em primeira pessoa, fazendo-nos adotar o ponto de vista de Florya, tornando a perspetiva mais pessoal – sobretudo numa cena de bombardeamentos. Até a artilharia e munições usadas eram reais, inclusive os tiroteios, demarcando ainda mais o realismo da Guerra e a sua experiência.


É também impossível falar de Come and See sem mencionar que contém algumas das cenas mais impactantes de violência já colocadas em filme, notáveis pela sua “subtileza” emocional, com destaque para uma das exibições introdutórias, onde Florya e Glasha – uma rapariga que ele conhece no campo de recrutamento – fogem da sua aldeia abandonada e esta grita euforicamente, enquanto a câmera vira também, por apenas alguns segundos, para nos mostrar um conjunto de cadáveres empilhados num monte como se fossem lenha. Não é preciso muito, apenas aqueles segundos, para nos fazer aperceber do terror que aqueles miúdos estão a sentir, e com um efeito bem mais eficaz do que outras cenas que dispõem duma violência mais nítida.


E é este mesmo nível de honestidade que acaba por ser a única ressalva do filme, embora não seja uma contestação. Trata-se obviamente duma obra que não agrada a todos, por ser demasiado real e perturbadora. No entanto, é mesmo este efeito que faz com que estejamos perante uma criação única que dá significado ao cinema e à sua capacidade de deixar o espectador imerso e perplexo.

Mais que um filme, Come and See é uma experiência. E uma que não se foca em batalhas ou grandes eventos, quase que os evitando. De facto, o filme não contém uma única cena de batalha ou o que podemos considerar como uma cena de ação. Florya nem sequer chega a disparar a sua espingarda, apenas no final e, mesmo aí, é dirigido a um objeto. Isto permite que a atenção seja dirigida ao detalhe do sofrimento humano e aos custos trazidos pela guerra. Não é um filme onde vemos um conjunto de “irmãos” a avançar pelas praias da Normandia, ou um coronel Killgore (Apocalypse Now) a lançar napalm pelas florestas do Vietname. É sim, um filme que arranca a glória da Guerra, e substitui-a com um horror existencialista total.


No fundo, estamos perante uma das abordagens mais dedicadas ao realismo humano alguma vez colocada em filme e que, por retirar o manto da espectacularidade, acaba por se tornar mais cinematográfica do que a doutros filmes. O resultado final são 2 horas e 22 minutos que nos deixam chocados, imobilizados, arrepiados e que, acima de tudo, permanecem na nossa memória.


O próprio título do filme é inspirado na Bíblia, em versos do Livro da Revelação, onde o apóstolo João é chamado a testemunhar os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, o que faz jus à experiência que é ver esta obra. O protagonista perde tudo o que tem, desde a sua família às suas emoções, e a sua pátria sofre o que parece ser o Armageddon. E tal como o apóstolo João, nós apenas podemos ver o horror dos acontecimentos.


Aqui não há glória, e aqui não há heróis. Come and See vai direto à essência da Guerra: o Inferno na Terra. E a aflição. A aflição daqueles que têm de enfrentá-la.