Fita Curta - As Mulheres no Cinema

Artigo de Afonso Abecasis


Tal como em tantas outras áreas, também no cinema a mulher não tem tido, até hoje, o devido reconhecimento. A visão feminista apontava, já na década de 70, para uma subrepresentação do género feminino na indústria. No entanto, as mulheres foram fundamentais na criação daquilo que é hoje Hollywood. Nos anos de 1910, Lois Weber era a realizadora mais bem-sucedida, gerindo a sua própria produtora de filmes.


Com a ascensão do cinema noir nos anos 50, Maya Deren e Ida Lupino estavam na vanguarda deste movimento. Nos anos 70, Ana Mendieta criava o maior número de filmes experimentais daquela década. Com a chegada dos anos 80 e 90, atrizes como Jane Fonda ou Julia Roberts quebravam recordes de salários. Já na viragem do século, Natalie Portman, Angelina Jolie ou Maggie Gyllenhaal passavam do grande ecrã para o papel de realização.

Há centenas, senão milhares de mulheres com imenso talento para lá desta lista. Aqui refiro apenas algumas que inovaram e puxaram pelos limites da criatividade ao mesmo tempo que combateram estereótipos sociais, sexuais ou raciais.


Agnès Varda (1928 – 2019)

Conhecida como “Madrinha da Nouvelle Vague”, Varda teve uma prolífica carreira de realização que se estendeu por seis décadas. Tendo começado como fotógrafa, estreou-se em 1955 com La Pointe Courte onde depois realizou uma série de curtas até escrever e realizar Cleo From 5 to 7, um dos seus filmes mais conhecidos. O seu estilo focava-se mais num realismo documental, abordando sobretudo o papel das mulheres na sociedade, bem como outras críticas, tudo com um aspeto experimental e o uso de atores amadores, muito pouco convencional à época. Varda apresentava um estilo único no cinema, usando a câmara como uma caneta. Ganhou o Leão de Ouro em Veneza em 1985 e foi a primeira mulher realizadora a ganhar um Óscar Honorário em 2018.

Sugestões: Cleo from 5 to 7 (1962), Faces Places (2017), Vagabond (1985)


Chantal Akerman (1950 – 2015)

Chantal Akerman deu ao cinema uma nova perspetiva feminista. Os seus filmes inspiraram Sofia Coppola e Gus Van Sant a explorar ritmos semelhantes nas suas obras. As suas ideias refletiam muito a opressão da sociedade sobre a mulher. A cineasta belga passou algum tempo em Nova Iorque durante a década de 1970, onde frequentemente incorporou a sua própria mãe, uma sobrevivente do Holocausto, nos seus filmes. Após a morte da mãe, Akerman suicidou-se em 2015. A sua filmografia baseava-se muito na relação recíproca entre o espetador e as imagens, no movimento das pessoas em espaços claustrofóbicos e o seu estilo propunha capturar a vida mais mundana, encorajando o público a ter paciência com ritmos lentos, enfatizando o dia-a-dia das nossas vidas.

Sugestões: Jeanne Dielman, 23 Commerce Quay, 1080 Brussels (1975), News From Home (1977), From The East (1993)


Ava DuVernay (1972 - )

Agente de publicidade no início da sua carreira, DuVernay acabou por mudar de área, tendo ganho mais atenção como cineasta no seu primeiro filme Middle of Nowhere, que lhe valeu um prémio de realização no Sundance. DuVernay foi também a primeira afro-americana a ser nomeada para melhor realizadora nos Globos de Ouro e a primeira mulher negra a ter um filme nomeado para um Óscar com Selma, um retrato histórico do Movimento dos Direitos Civis nos EUA. Mais tarde decidiu explorar as desigualdades raciais no sistema de justiça criminal americano com o seu documentário 13th - também ele nomeado para um Óscar – e na sua série When They See Us, que contou com várias nomeações para um Emmy.

DuVernay está na vanguarda duma nova geração e renascimento de cineastas negros que proclamam uma autodeterminação na indústria, e questionam a condição das minorias em países predominantemente brancos.

Sugestões: Selma (2014), 13th (2016), I Will Follow (2010)


Sofia Coppola (1971 - )

Filha de Francis Coppola, Sofia Coppola chegou à indústria do cinema com um background em representação, moda e design - tendo estas áreas desempenhado um papel importante nos tons estéticos dos seus filmes. Ao longo dos anos, Coppola foi bastante transparente sobre as suas experiências com o sexismo na indústria, criticando também as grandes produtoras e o seu foco no negócio em vez da componente artística. Acabaria por incorporar a sua marca no mundo do cinema independente. O seu estilo é descrito como um conjunto de retratos em câmara lenta, repletos de paletes emocionais contraditórias e marcado por histórias com um tom melancólico e uma sensação de sonho.

Sugestões: Lost in Translation (2003), The Virgin Suicides (1999), The Beguiled (2017)



Céline Sciamma (1978 - )

Fortemente inspirada por Lynch e Akerman, a guionista francesa Céline Sciamma estreou-se com Water Lilies em 2007, tendo de seguida realizado mais dois filmes – Tomboy e Girlhood – todos acerca do amadurecimento e da adolescência. Já em 2019 produziu a sua obra com mais reconhecimento internacional – Portrait of a Lady on Fire. Um tema comum nos seus filmes é a questão do género e da identidade sexual entre raparigas e mulheres. Sciamma também recorreu a vários atores amadores e utilizou a moda e o estilo enquanto partes importantes da caracterização, tendo sido muitas vezes a própria designer de produção. Feminista e ativista, acabou por fundar o ramo francês do movimento 5050 by 2020 - um grupo de profissionais da indústria do cinema que defendem a igualdade de género e a paridade salarial.

Sugestões: Portrait of a Lady on Fire (2019), Tomboy (2011), Girlhood (2014)