F1: de "Billionaire (old) boys club" a série de entretenimento?

Com a chegada da Liberty Media, tudo isso alterou profundamente, dando-se início a uma era onde a F1 é o desporto que mais rapidamente cresce nas redes sociais, ultrapassando largamente a Premier League e a NBA.

de Matilde Pinhol


No final de 2021 tive muitas conversas com amigos que começaram assim: “Estás pelo Hamilton ou pelo Verstappen?”. Para alguém que acompanha a F1 há largos anos é fácil perceber que o interesse pelo desporto tem vindo a crescer desde 2017, seja através da série da Netflix “Drive to Survive”, seja pelo campeonato do Mundo de 2021 ter sido tão renhido (algo que não acontecia desde 2016).


Em cima não referi 2017 por mero acaso. Este é um ano que marca um ponto de viragem importantíssimo para a F1 e que nos permite, assim, destacar dois períodos: o antes e o após Liberty Media.


A Liberty Media é nada mais do que a empresa de média norte-americana que comprou os direitos comerciais do mundial da F1 num negócio multimilionário. Estes direitos eram até então detidos por Bernie Ecclestone e, sob a sua liderança, o Grupo da F1 controlava a administração, o set up e a logística de cada Grande Prémio. Para Bernie, não fazia qualquer sentido modernizar e adaptar este desporto à era das redes sociais, chegando a demonstrar publicamente aversão ao Facebook, Twitter e YouTube.


Assim, o seu principal alvo seriam “os homens de 70 anos cheios de dinheiro”, não compreendendo o objetivo em tentar apelar às gerações mais novas. Esta mentalidade acabou por tornar a F1 num billionaire (old) boys club, o que se traduziu num desinteresse cada vez mais acentuado e na perda de potenciais patrocínios. Com a chegada da Liberty Media, tudo isso alterou profundamente, dando-se início a uma era onde a F1 é o desporto que mais rapidamente cresce nas redes sociais, ultrapassando largamente a Premier League e a NBA.


Autorizando a abertura dos bastidores aos fãs (algo que antigamente seria impensável), passou a existir um contacto mais direto com as equipas. É esta a principal função da série “Drive to Survive”: dar a conhecer o que se passa fora da grelha de partida. Ao mesmo tempo, apresenta-nos também a história de equipas incontornáveis como a Williams, criando ainda falsas narrativas intriguistas entre colegas de equipa através do poder da edição. Apesar de compreender o objetivo inerente e de reconhecer o seu impacto (inclusivamente, comecei a acompanhar a F1 a partir da série), acredito que “Drive to Survive” esteja a tentar tornar a F1 numa forma de entretenimento, o que pode colocar em causa algum do rigor que um desporto altamente regulamentado como este necessita de ter.


Felizmente, a ação da Liberty Media não se tem feito apenas através de séries da Netflix. Por isso, é importante que reconheçamos o seu incansável trabalho nas redes sociais, especialmente no que ao YouTube diz respeito.

Se tirarem um momento para analisar o canal de YouTube da F1 poderão reparar que, além do elevado número de subscritores (6.9 milhões, para ser mais exata), o conteúdo é bastante variado. Tão depressa somos presenteados com brilhantes ultrapassagens dos tempos em que o monegasco Charles Leclerc competia na F2, como no momento seguinte ficamos maravilhados com um Sebastian Vettel capaz de enumerar todos os campeões da F1 desde 1950, quase como se de uma enciclopédia humana se tratasse.


O impacto deste estilo de conteúdos foi tão positivo que levou as equipas de marketing da RedBull, McLaren e Ferrari a explorar mais afincadamente esta estratégia. No caso da McLaren, souberam juntar esta perspetiva às causas importantes do nosso tempo, fazendo parceria com a instituição de caridade de saúde mental MIND, em que gravaram um vídeo no qual os pilotos pintaram os respetivos capacetes para a corrida seguinte. Esses capacetes foram depois vendidos e o dinheiro arrecadado reverteu para a instituição.


Durante o confinamento de 2020, a adrenalina, as paragens feitas em tempo recorde e o cheiro de pneus queimados foram rapidamente substituídos por Grandes Prémios virtuais, o que demonstrou uma capacidade de adaptação louvável.

E nem mesmo a COVID impediu este contínuo crescimento. Durante o confinamento de 2020, a adrenalina, as paragens feitas em tempo recorde e o cheiro de pneus queimados foram rapidamente substituídos por Grandes Prémios virtuais, o que demonstrou uma capacidade de adaptação louvável. Também os pilotos mais jovens se souberam reinventar face às adversidades: Lando Norris, Alex Albon, George Russell e Charles Leclerc fizeram dezenas de lives de gaming na Twitch que somaram inúmeros desafios e momentos caricatos que permanecem como referências entre os fãs até hoje.



De todos os mencionados, foi o britânico Lando Norris quem conseguiu tirar o maior proveito desta popularidade. No final desse mesmo ano (2020), criou a QUADRANT, uma página inteiramente dedicada a produzir conteúdos para as redes sociais e a criar uma linha de merchandising, ambos com enorme sucesso em termos de seguidores (215 mil no Instagram), visualizações (mais de 30 milhões de visualizações no YouTube) e volumes de vendas.


O Grupo da F1, mesmo depois da chegada da Liberty Media, continuou dono e senhor de toda a logística das transmissões televisivas, fornecendo estes mesmos direitos de transmissão a nível global. Ao monopolizar a logística, concentraram em si os direitos de autor sobre as imagens captadas. Tal permite-lhes gerar ainda mais conteúdo, dando a possibilidade de publicarem imagens de alta qualidade e vídeos que captam na perfeição a beleza sonora de um motor daqueles que são os carros mais rápidos do Mundo. Tudo isto é igualmente possível devido à liderança na F1 no que toca a tecnologia de ponta de transmissão televisiva, seja através de câmaras incorporadas nos próprios carros, dando a sensação de que somos nós que os estamos a conduzir, gráficos atualizados em tempo real ou de imagens em 4K.


Para lá dos pequenos ecrãs dos nossos telemóveis, outras tentativas para aumentar as audiências e o engajamento online da F1 têm sido feitas através de uma garantida igualdade de oportunidades entre todos. Aqui, não me refiro às múltiplas campanhas que têm sido feitas relativas ao racismo ou a movimentos como o #WeRaceAsOne. Falo sim do Pacto de Concórdia, um acordo assinado entre a FIA – Federação Internacional do Automóvel - e as atuais 10 equipas. O mesmo promete uma maior competitividade, diminuindo a disparidade financeira existente ao impor-lhes (às equipas) um tecto orçamental.


É necessário exigir novas regulamentações ou impedir um desenvolvimento dos motores e diminuir a capacidade de testagem de aerodinâmica da maquinaria. Por outro lado, isto também não será o cenário ideal

Ora, tudo isto parece-me fogo de vista. Equipas de topo como a Mercedes terão sempre os equipamentos e conhecimentos técnicos que equipas de fundo da tabela como a Haas dificilmente conseguirão equiparar, por mais limitado que tentem tornar o orçamento da primeira. A mudança tem de ser feita, essencialmente, nos carros em si. É necessário exigir novas regulamentações ou impedir um desenvolvimento dos motores e diminuir a capacidade de testagem de aerodinâmica da maquinaria. Por outro lado, isto também não será o cenário ideal. Na realidade, poderia provocar um subaproveitamento abissal a nível mecânico e tecnológico do desporto, e tudo isto em prol de uma maior popularidade.





A reestruturação e modernização da F1 tornaram-na mais acessível e apelativa aos olhos de uma audiência de Millennials e Gen Z, trazendo novos fãs e, consequentemente, aumentando substancialmente a venda de bilhetes. Contudo, as críticas feitas ao longo deste texto chegam sempre à mesma conclusão: a de que a F1 se tem tornado progressivamente em entretenimento, descurando em toda a linha, como referido, de uma vertente rigorosa e fundamental de aplicação dos regulamentos. É importante inovar, nunca haja dúvidas disso. No entanto, a Liberty Media não pode colocar em causa a essência da F1.