Exportações estão contra o novo normal

A economia portuguesa depara-se com uma das piores performances da sua historia, segundo o boletim económico de março de 2021 do Banco Portugal, uma queda de 7,6% do PIB , provocada por todas áreas importantes para o bom funcionamento de uma economia.

Texto de Gonçalo Brites Ferreira



O ano de 2020 não foi um passo atrás, foi um passo em falso que nos fez cair com um estrondo. Um ano ímpar na sociedade moderna que viu e reviu o valor da liberdade, quando esta lhe foi retirada. A “Palavra do ano” para a Porto Editora foi a palavra “saudade”, a palavra sem tradução e que tantas vezes usamos para explicar o distanciamento físico. Em 2020 usamo-la também para explicarmos a falta que o quotidiano dentro das suas rotinas mais banais nos faz.


Surge aquilo a que chamamos um “novo normal”, de máscara, distanciados e, durante alguns meses confinados, uma quebra na engrenagem que nos modificou para sempre.


A nossa geração assiste então, pela primeira vez, a uma crise mundial provocada por algo que não vem da economia, um vírus que foi capaz de congelar as cadeias produtivas, de distribuição e de consumo e que impediu a livre circulação de pessoas e mercadorias.

A economia portuguesa depara-se com uma das piores performances da sua historia, segundo o boletim económico de março de 2021 do Banco Portugal, uma queda de 7,6% do PIB , provocada por todas áreas importantes para o bom funcionamento de uma economia. Consumo interno caiu 5,9%, a formação bruta de capital fixo, indicador que demonstra o investimento em infraestruturas de produção, caiu 2,2%, a procura interna diminuiu cerca 4,7% e as exportações principais vítimas do arrefecimento abrupto da economia mundial, com o setor do turismo muito castigado, diminuíram 18,6%.

Para melhor análise destes dados e melhor previsão do que vão ser os próximos anos faltam-nos dados e previsões sobre a queda do PIB potencial, valor de referência importante numa economia, pois é a estimativa do seu valor de produção em condições de equilíbrio (noção que em economia se confunde com a perfeição dos acontecimentos, mas aqui vamos entender como se nenhum funcionário faltasse ao trabalho ou nenhum fornecedor se atrasasse numa encomenda), e uma diminuição, algo que inevitavelmente aconteceu em 2020, significa que uma economia mesmo com a pandemia acabada a 1 de janeiro de 2021 não seria capaz de produzir o mesmo que 2019, o PIB potencial irá nos fornecer então as estimativas sobre a destruição do tecido empresarial, da capacidade produtiva do país e do ponto de partida para a recuperação da economia em 2021.


A recuperação em 2021, apesar da necessidade de um novo confinamento mais agressivo no início do ano, irá acontecer: a evolução positiva dos processos de vacinação nos países desenvolvidos permitirá o levantamento de restrições e a livre circulação de pessoas e mercadorias voltará a ser o “velho normal”.

Em Portugal, o primeiro indicador económico que nos dá esperanças de retoma económica são as exportações. Mais uma vez as exportações aparecem para literalmente salvar a pátria. No primeiro trimestre de 2021, trimestre interessante do ponto de vista de análise, por ser o primeiro trimestre em que podemos de forma homóloga (isto é, analisar o mesmo período de anos consecutivos) estudar períodos afetados pela pandemia, as exportações evoluíram de forma positiva aumentando 5,6% face ao 1º trimestre de 2020, segundo o mais recente comunicado do INE à comunicação social, a evolução mais impressionante e que revela uma adaptação por parte do nosso tecido empresarial é variação homologa mensal do mês de Março de 2021, visto que o mês de Março de 2020 é o primeiro mês com casos confirmados e confinamento em Portugal, de 28%. Neste trimestre, o destaque vai para a evolução positiva das exportações de Material de Transporte (com uma evolução de 61%).

As exportações seguirão esta trajetória de evolução positiva durante o ano não só na componente de bens mas também na componente de serviços com a abertura dos corredores aéreos e com a movimentação de pessoas ou seja com a recuperação do Turismo. As previsões do governo são de uma recuperação de 8,7% em 2021 e 7,9% em 2022, de acordo com o Programa de estabilidade para 2021-2025.

As exportações assumem, desta forma, mais uma vez após uma crise, a responsabilidade de serem um motor de arranque de uma recuperação que será lenta e sinuosa. E, por isso, obrigado por estarem contra o “novo normal”.