Eu tenho orgulho

Texto de Gonçalo Loureiro

Devo começar por admitir que o meu distanciamento para com este pedaço de texto é reduzido. Há temas, assuntos, questões e problemáticas que vão para além de observações e opiniões ao incidirem na essência do nosso ser.

Marcha LGBTQI 2020 LISBOA


Vivi durante 20 anos um sufoco diário, um peso dilacerante que manteve parte da minha identidade escondida, envergonhada. Passaram 3 anos desde que decidi assumir a minha sexualidade e um balanço rápido deste tempo passado faz-me sentir grato pelo espírito inclusivo da família e amigos. Não deveria estar grato, ninguém me está a fazer um favor; mas a minha gratidão advém de uma posição relativa de privilégio - sou “sortudo”, numa realidade em que tantxs pessoas permanecem num eterno sufoco, vítimas de múltiplas e recorrentes violências discriminatórias.


Para muitxs “sortudxs” sair do armário é apenas o início de uma longa jornada de reconciliação, cicatrização e empoderamento e esta parece, na maioria das vezes, nunca ter fim. Como é óbvio, os mesmos caminhos são trilhados por pessoas heterossexuais, por via do conhecido percurso de descoberta e experiência sexual. No entanto, para pessoas LGBTI+ este caminho insere-se num quadro social que considera a heteronormatividade como sinal de correção, poder, normalidade e pureza. É neste quadro cruel, e em grande medida hediondo, que parte da solução face às agressões que privam as pessoas LGBTI+ da sua dignidade humana e dos seus direitos sociais, económicos, políticos e culturais passam muitas vezes pela clandestinidade, camuflagem, pela dissimulação (in)conformada.


Eu escondo-me e cubro-me.


Li uma publicação no instagram, de autoria desconhecida, que expressa, a meu ver, de forma clara, esta existência reprimida:

“pessoas queer crescem e desenvolvem uma versão de si mesmas que sacrifica autenticidade para minimizar humilhação e preconceito. A enorme tarefa das nossas vidas adultas é tentar perceber quais as partes de nós que são realmente nossas; e aquelas que criámos para nos protegermos.”

Eu estremeço e tento perceber.


Mas o nosso ímpeto de liberdade leva-nos a tentar alterar o status quo, a marcar presença, a ocupar espaço, a reivindicar uma vida mais digna, e a contestar os cada vez mais engenhosos movimentos que tentam perpetuar a nossa subalternidade. E o Pride é isto e muito mais: porque este mês é também reconhecimento, luto e solidariedade para com as pessoas que continuam a ser mortas, presas, agredidas, isoladas e excluídas pelo mundo fora; este mês é de esperança e afirmação, ao evocar uma utopia transformadora ainda por conquistar; este mês é de segurança, ao criar uma plataforma, um resguardo, uma comunidade onde cada membro tem a oportunidade de se encontrar com a plenitude do seu ser, sem medos e constrições; este mês é interseccional, abarcando as questões raciais, étnicas, questões de género ou até mesmo de precariedade económica e habitacional.


Eu luto, amo e resisto.


No passado dia 15 de junho, o Parlamento húngaro aprovou uma lei que visa banir pessoas e temáticas LGBTI+ de programas educativos e conteúdo televisivo para menores de 18 anos. Este atentado político, que toma de assalto os direitos e liberdades fundamentais da população húngara, reitera precisamente a importância deste mês de junho. Enquanto o governo húngaro trata a comunidade LGBTI+ como uma seita profana que pretende manipular jovens à “conversão” de uma sexualidade que não a heterossexual, o que está em causa é o acesso à informação, à educação sexual informativa e responsável, nunca impositiva, que tem como objetivo primeiro criar uma condição de liberdade em que cada pessoa possa viver a sua identidade sexual sem limites estatais. Em boa verdade, em vez de ser protetor e garante das liberdades individuais, o Estado húngaro assume o papel de “macho opressor”. São retrocessos como este ao virar da esquina, numa União Europeia de muitas palavras e promessas, e tímida ação, que levam à urgência de Prides muito mais festivos e participados, barulhentos e incomodativos. A liberdade é tua, é minha, é nossa.


Já em Portugal, num país de grandes costumes, o Pride passou despercebido. Entre arraiais liberais à margem da lei, celebrações futebolísticas divinas, e um Governo de um peso e muitas medidas, a comissão organizadora da Marcha do Orgulho LGBIT+ de Lisboa decidiu, e muito bem, cancelar a iniciativa devido à crescente incidência de novos casos de Covid-19 na AML. Ainda assim, continuamos a celebrar esta data importante e a idealizar um mundo diferente, mais justo, empático e inclusivo. A bandeira das muitas cores ergue-se este mês mais alto, simbolizando as lutas travadas por gerações passadas, as lutas que enfrentamos hoje, e simbolizando também a prontidão para aquelas que virão.


E por fim, mantemos-nos sempre orgulhosxs.