Encontro às cegas

Atualizado: 30 de mai.

Para quem está prestes a molhar os pés na piscina dos grandes, ou seja, no mercado laboral, deixo uma preview do cenário atual. A verdade é que este país não é para velhos, nem para novos, e encontrar um emprego nos dias de hoje é um pouco como encontrar um parceiro.

de Flora André



Em primeiro lugar, há que procurar vagas minimamente dignas, o que significa que, depois de filtrar os estágios não-remunerados, os esquemas em pirâmide e os seus primos afastados, tudo bem espremido, quem procura trabalho, especialmente o primeiro, fica reduzido a uma meia dúzia de ofertas.


Dentro destas, encontrarão sempre as alusivas empresas fantasma, que anunciam anonimamente, e os anúncios ônibus, onde cabe tudo e mais alguma função. Segue-se a fase da candidatura, em que além do rácio ser 1000 para 1 – ou 50 cães para um osso, em bom português – têm de acertar nas palavras-chave para um motor de pesquisa filtrar o vosso CV, e escrever uma carta de motivação personalizada para a empresa que não a irá ler até 10 minutos antes da entrevista.


Se conseguirem a proeza de serem chamados para o tão badalado encontro às cegas – vulgo entrevista – preparem-se para despender umas boas horas e dinheiro em transportes, tudo para uma sessão de 15 a 30 minutos de bullying hipócrita, onde diretores e seniors incapazes de converter um word em pdf e de pronunciar “How are you?” sem o sotaque à camarinha, vão escrutinar as vossas competências linguísticas e digitais. Se não forem tão fluentes em inglês como a Rainha de Inglaterra, vão logo dizer-vos: “What? You no speak inglês? Adiós.”


Tal como nos namoros, há que haver um equilíbrio, há que estar disponível, mas não demasiado, senão perguntam-se logo: Se está tão disponível é porque ninguém o quer, não é? Tadito do encalhado, deve ter algo de errado com ele. Há também que ser interessante, mas q.b.. Ora, convém saber as últimas modas e escândalos da televisão, e ter um hobby para falar, porém, não mais que isso. Ninguém quer ir jantar fora com um sabichão que nos debite Jorge Miranda ao som de Bach, e, da mesma forma, ninguém o quererá contratar. Onde é que já se viu? Saber mais que o Chefe? Há que se ter passatempos, desde que estes não nos impeçam de trabalhar horas extras e ao fim-de-semana.


Assumindo que conseguiram conquistar no primeiro encontro, irão continuar num processo às escuras, sem noção de quantas fases ou tempo passará até receberem a tão aguardada resposta.

Como é de bom tom, só após uns 4 ou 5 encontros é que se pode consumar o ato. Sendo que nesta fase ainda nem sabem o quê em concreto ou condições expectáveis.


Passadas algumas fases de exercícios, dinâmicas de grupo, mais uma proposta ou apresentação, mais umas quantas entrevistas, recebem a temida oferta: um estágio IEFP por 9 meses, com ótimas perspetivas futuras de integração nos quadros, mas a ganhar menos. Com um sistema híbrido de 8 horas de trabalho presencial e 3 horas de teletrabalho, mais benefícios e, claro, a formação e investimento da empresa no candidato. No fundo, são uns sortudos e ainda deviam agradecer, quiçá até recompensar a empresa pela oportunidade, dando vida à expressão “pagar para trabalhar”.


Isto se conseguirem entrar no dia seguinte, dando aproximadamente 24 horas de aviso prévio ao atual empregador – se o tiverem –, e pagando a coima referente aos dias que não deram de aviso.


Isto se tudo correr bem, e não vos deixarem no “visto”, porque pode dar-se o caso de depois de todo este investimento nem sequer receberem uma resposta. É o chamado ghosting, prática mainstream entre os mercados laborais e de namoro.

E porquê? Porque a cultura do mercado de trabalho português está toda errada: não há transparência, nem valorização, nem respeito. Tempo é dinheiro, e quando as pessoas se candidatam sem saber bem para onde e para o quê, todos perdem. A teima em não apresentar as condições a priori leva a processos intermináveis de candidatos que desistem porque as condições não são compatíveis com as suas necessidades e qualificações.


Conseguem imaginar se fossem os candidatos a omitir a informação? Candidato X (nome confidencial), idade (20 – 25 anos), formação (de acordo com o mercado atual), experiência prévia (adequada às funções em questão). Levava logo swipe left.


Para equilibrar os pratos da balança no vosso próximo encontro, visitem websites como o Glassdoor, onde as empresas são avaliadas pelos candidatos.