Em Trânsito

Atualizado: 15 de Mar de 2020

Retomo rapidamente ao asfalto de Lisboa e revejo todos os desafios dessa semana. Vou esquecer-me de algum de certeza. Um certo stress percorre-me então o corpo. Azáfama na cozinha.

“O que queres levar? Já tens a roupa arrumada? Agora quando é que voltas cá? Não te esqueças de ir ver a avó antes de ir.”


O cenário é o de domingo, após o almoço. Num dos poucos fins-de-semana em que vou a casa. São 15h e Lisboa já chama com languidez, como o domingo frio, mas solarengo, do início de fevereiro. Mala pela mão, mochila às costas, tupperwares atrás. Hoje sempre vou de boleia e posso esticar mais os pés.


Passo a ombreira da porta. Penso como passou rápido o fim-de-semana. Não deu para desfazer completamente a mala, nem terminar de dizer olá, quanto mais preparar a despedida. Encolho os ombros. Nas férias há mais tempo e agora cada um também tem a sua vida.


Início da viagem, por acaso com quatro bons amigos do Liceu. Conversa banal sobre o futebol do fim-de-semana, o café de sexta-feira, as conversas da noite anterior. Mas rapidamente a conversa flanqueia para temas mais sisudos. O próximo estágio, o primeiro emprego, (eu não, serei médico e essa etapa está ligeiramente mais longe), ficar em Lisboa ou voltar para a nossa cidade. Tema importante, assunto sensível. Passo voluntariamente a ouvinte sem direito de intervenção.


Olho para a estrada, a Serra da Estrela como pano de fundo. Começo a divagar no meu próprio pensamento. Alguém no banco de trás adormeceu. Realmente, gosto mesmo da minha cidade. Tenho de vir mais vezes! Os amigos de sempre como se nada tivesse mudado, a família que nos acolhe feliz e com admiração, as pessoas que cresceram connosco e nos estimam, os lugares de sempre que não esquecemos, a comida que nos aquece. Até as coisas de que não gostávamos têm agora um significado afetivo especial e diferente. Acredito que seja nostalgia.


Apesar de tudo, nós vamos à procura de novos mundos, conhecemos sítios e pessoas novas, mas os locais que deixamos não ficam imutáveis, como que cristalizados à nossa espera. Os amigos, que eram tão parecidos na escola, têm agora ideias, pensamentos ou formas de estar diferentes, a família envelhece, os lugares de sempre foram mudando (em certos casos, betonados, que os ciclos autárquicos também afetam as mais pessoais reflexões) e até o paladar às vezes nos atraiçoa. Ao fim de cinco anos, será que já não sou daqui?


(…)


Piiiiii.


Acordo de um sono superficial numa postura terrível. Segunda circular, 19h. A cornucópia estridente de sons agudos vindo do rádio indicam que o Sporting marcou. O trânsito à entrada de Lisboa não deixa dúvidas. De regresso à selva urbana. Abro o telemóvel:


Mensagens: “Vais à aula amanhã?”, “Confirmas se sempre temos reunião às 14h? Temos de ver umas coisas antes!!”, “Queres vir ao Quizz perto da Av. de Roma?”. Novo pop-up do e-mail deliberadamente ignorado desde sexta-feira: “Não responda a este e-mail: disponíveis datas e horários do 2º semestre”.


Estou de volta à rotina alucinante de Lisboa, à vida universitária. Passaram dois dias, mas não posso negar que já tinha saudades. Ainda volto fugazmente a casa e prometo incipientemente que esta semana é que vou mesmo ligar mais vezes.


Retomo rapidamente ao asfalto de Lisboa e revejo todos os desafios dessa semana. Vou esquecer-me de algum de certeza. Um certo stress percorre-me então o corpo. Refreio-o com a disciplina que uns quantos exames com tempo (muito) limitado e meia dúzia de orais me deram. Um avião passa por cima de nós. Estou quase a chegar a casa. Apesar de não ser costume, com a reflexão da viagem, corrijo: à casa de Lisboa. Ainda assim, gosto mesmo de Lisboa. O ruído e o movimento de uma grande cidade, os concertos, as sensações. As línguas que se ouvem e as oportunidades que surgem a cada esquina. Tanta coisa diferente. Os amigos que entretanto fizeste e com quem partilhas tantos interesses e discussões, aventuras e planos. Os sonhos que se desenham e os objetivos que delineias e sucessivamente reformulas. O futuro próximo é aqui, pensas.


Passo a ombreira da porta. Penso pela última vez por largas semanas como o fim-de-semana passou rápido. Nem deu para fazer a despedida convenientemente e já estou de volta. Inspiro fundo. Mais uma semana, mais um semestre. Menos um obstáculo para o próximo passo, o próximo desafio. Vamos a isto, com força! Mas, no meio de tudo isto que Lisboa dá, acabo sempre por sentir que falta algo. Não sei se uma mão para amparar, ainda que provavelmente não seja preciso, ou um conjunto de memórias que ainda te falta viver. Encolho os ombros.


Ao fim de cinco anos, serei alguma vez daqui?


Tenho muitas dúvidas. Por enquanto, sou apenas mais um corpo em trânsito a viver entre duas realidades.



Lisboa, 19 de fevereiro 2020

José Rodrigues