Em tempos de união, lembremo-nos o que nos une

Para as pessoas que estão a ler esta crónica, receio que este texto seja uma desilusão para quem busca um pensamento original. Eu acredito que não sejam precisas guerras e conflitos para reflectirmos e lembrarmos o que nos une - ou o que nos deveria unir - como seres humanos.

de António Vaz Pato



Num mundo ideal, esse processo de celebração e rememoração deveria ser constante, até porque tendemos a sublinhar mais as tragédias e as dissidências do que o progresso e o crescimento. No entanto, as guerras são momentos em que valores e princípios - as evidências que tomamos como garantidas - são subitamente postos em causa. Aproveitemos o espírito dos tempos para retomar esta conversa.


A invasão da Ucrânia - um país soberano e independente com uma democracia em construção - por parte de um país governado por uma elite oligárquica - encabeçada por um autocrata que convive mal com a ideia de democracia - lembrou-nos o quão frágil e, ao mesmo tempo, o quão preciosa é a democracia para nós.

A paz, a liberdade, e o desenvolvimento socioeconómico devem muito à democracia e estão de tal modo enraízadas no nosso espírito colectivo que a grande maioria nem necessita de justificar essas conquistas. Lembremos o princípio da neutralidade democrática de Kant: até hoje não houve nenhum conflito bélico com baixas travado entre duas democracias. As acções temerárias de Putin e do Kremlin na Ucrânia reforçam esta nossa responsabilidade em defender princípios que, a meu ver, são um bem-comum.


A sintonia tem sido praticamente unânime face a esta ameaça. Não tenhamos dúvidas que esta convergência europeia só é possível porque a evolução das democracias liberais trouxe-nos vantagens incalculáveis. Os processos democráticos são lentos, mas, actualmente, são os únicos que oferecem as soluções para as nossas crises existenciais - ambientais, sanitárias e económicas.


Infelizmente, ao invés de procurar melhorar o sistema democrático, há quem queira apontar somente as suas falhas e lacunas em jeito de legitimação de governos autocráticos e tirânicos. Ou quem, toldado por visões dogmáticas e doutrinárias, se contradiga nos seus discursos. Falo de tantos que, por ódio aos EUA e à NATO, acabem por justificar uma guerra ou até minimizar as suas consequências. Ou que fazem uso do vasto rol de falácias moralizadoras do público, dizendo que a nossa atenção dada ao conflito ucraniano só revela a nossa hipocrisia perante outros conflitos por esse mundo fora. A verdade é que este nosso viés é perfeitamente justificado pelo facto de ser uma guerra que constitui uma ameaça directa aos valores democráticos europeus, que traz de novo à Europa o fantasma do neoimperalismo e do medo, uma realidade que já não deveria pertencer ao século XXI e aos desafios que ele mesmo acarreta.


Este discurso existe entre, por um lado, a extrema-esquerda, encabeçada pelo PCP, que voltou a revelar a sua verdadeira natureza irracional e antidemocrática e, por outro, a hipocrisia da extrema-direita, que não consegue evitar a simpatia por Putin, inclusive através de financiamentos à sua acção política, escondendo-se com uma pele de cordeiro a cada dia mais diáfana. A impunidade e o atrevimento russos, neste momento, afloraram os extremos que sempre coabitaram mal com os valores democráticos. Tanto um discurso como o outro estão a ser combatidos à luz da racionalidade e da lógica essenciais ao debate democrático. É bom ver a democracia em acção nesse aspecto.


Em momentos como este, em que a união é a palavra de ordem, não nos limitemos apenas a condenar a guerra. É necessário contribuir construtivamente para que a democracia seja um objectivo tangível para nações como a Ucrânia, pois só ela oferece as soluções para os seus problemas.

Aproveitemos também para olhar para dentro e encontrar alternativas de forma a tornar a democracia mais participativa e próxima dos cidadãos. Este é o único sistema político onde todos podem de facto construir e fazer parte das soluções. Melhorá-la só nos dá mais razões e argumentos para lutarmos por ela, tanto aqui como lá fora, quando a agridem de forma peremptória.