Eles e nós

A partir da legislação de 1974 é possível aplicar a requisição civil em situações de absoluta emergência onde a sua ausência levaria à perturbação de um país já por si muito perturbado pela falta de altruísmo e de sentido social

Mário Cruz/Lusa

Crónica de Beatriz Mirão



Nos últimos dias, o pânico instaurou-se sobre o Zmar. As redes sociais, inundadas por comentários anti-ditadura, reforçaram a divisão entre aqueles que são proprietários e aqueles que vivem para alimentar os donos de algo.


Estando a requisição civil pouco clara, há mais espaço para o espectáculo. No entanto, o Zmar é apenas uma parte da solução para a força de trabalho que alimenta os frutos vermelhos que juntamos à aveia, a salada que comemos ao almoço ou as flores que compramos no mercado.


A força de trabalho que falo vive em condições deploráveis, muito longe da ideia de sobrevivência com a qual nos identificamos no país desenvolvido que é este em que habitamos. Dez mil pessoas de nacionalidade estrangeira vivem no concelho de Odemira. Os comentários que assisti durante esta semana focavam-se muito no “Porquê?”, “Por que é que estão lá eles?”.


De acordo com o Pordata temos, em 2019, uma população de 10 milhões e 286 mil residentes. Desses, pouco mais de meio milhão é estrangeiro – nascido noutro país mas legalmente a viver em Portugal.


Em Portugal, 11% de jovens (dos 15 aos 29 anos) não apresentam uma ocupação, não trabalham nem estudam. Desses 11%, 1,1% referem-se a jovens em idade ativa de nacionalidade estrangeira. O que acontece aos quase 10%, aos mais de um milhão de pessoas que acordam todos os dias sem uma motivação particular em partilhar a força anímica dos seus jovens anos com o desenvolvimento de um país mais prospero e resiliente? Não sei exactamente do que vivem mas imagino que, raras excepções, todos os outros passam férias em casa ou no Zmar.


A livre circulação de pessoas e bens na União Europeia e a globalização permitiram receber muitos destes emigrantes. A percentagem, tendo vindo a crescer nos últimos anos, ao contrário do que muitos indicam, não nos rouba o emprego.


O emprego está lá, nos mais de dez mil lugares, nas estufas – onde não há um português por metro quadrado, exceto raras exceções. Porque nós estamos ocupados no Zmar, a liderar as manifestações que impedem que o Governo, esse mauzão que vive para nos tirar o lucro até ao tutano, salve a vida de uns quantos trabalhadores estrangeiros e de outros tantos nacionais cuja vida depende também da sobrevivência de quem habita no Sudoeste Alentejano ou no Interior, onde são poucos aqueles que investem ou que ficam – vivendo na triste história do êxodo rural.


Estes migrantes, que não queremos em Portugal, ocupam as escolas do Alentejo, trabalham naquilo em que nenhum de nós – hipocrisias à parte – quer trabalhar. Nós, os Doutores do Zmar, os combatentes anti-ditadura da economia fraca baseada em insolvências atrás de insolvências e na grande falta de visão, de sentido humano e de voluntariado.


A ilegalidade é sem dúvida o ponto fraco de toda esta história. As condições em que vivem, a falta de proteção do empregador é o maior motivo de vergonha daquela região. De qualquer forma, nada colmata a arrogância de quem muito poderia fazer para ajudar, de quem poderia colocar um penso rápido sobre uma situação que precisa de pontos cirúrgicos, de união perante a vida humana e também perante os milhares de empregos que estão seguros pela mão deles. Eles, que são fruto da ganância dos seus empregadores e da falta de sensibilidade de quem não lhes dá mão. De nós, donos do Zmar. Donos da grande propriedade que vive da promessa de cumprir as suas obrigações, começando pelas financeiras. As humanas, já pecam por si – ficam com certeza na memória dos grandes investidores que salvariam todo o empreendimento.