Do Retrato da Rapariga em Chamas até Metamorfoses

O propósito desta crónica não é tanto de falar sobre o filme “Retrato de uma Rapariga em Chamas” e a bonita história de amor que retrata, mas sim da viagem que me fez ter muito depois dos créditos acabarem.

Crónica de Guilherme Ludovice


“Retrato de uma Rapariga em Chamas” é um filme escrito e realizado por Céline Sciamma que conta a história de Marianne, uma jovem pintora na França do século XVIII, que foi contratada para pintar um retrato de Héloïse, para a dar a conhecer ao seu noivo que vive em Itália. O único problema é que Héloïse não quer ser pintada.


Confesso que julguei 100% este filme pelo poster e título. O nome, assim como a estética, fizeram-me logo querer ve-lo e convenci-me que ia gostar. E gostei, muito. Nem li a sinopse. Serei eu fácil de impressionar, ou será a equipa de marketing francamente boa? Questões para discutir mais tarde. Mas há outra história que serviu de inspiração ao filme e, de certo modo, corre paralela a este: o mito de Orfeu e Eurídice.


Sensivelmente a meio do filme, Héloïse e Marianne conversam sobre a história de Orfeu e Eurídice. Orfeu é músico, conhecido por tocar as mais belas músicas com a sua lira. Casou com Eurídice, a quem amava profundamente. Infelizmente o casamento entre ambos foi curto, Eurídice morre, mordida por uma serpente. Em luto, Orfeu canta aos Deuses o seu amor, pedindo que devolvam Eurídice à vida, que o destino apressadamente cortou. Os Deuses, comovidos pelo canto de Orfeu, concedem o pedido com uma única condição: Orfeu deve conduzir Eurídice até à superfície sem olhar para trás, caso contrário aquela benesse ficaria sem efeito. Sucede que Orfeu, quando pouco lhes faltava para chegarem, receoso por Eurídice não seguir atrás dele, olha para trás e, nesse momento, Eurídice volta para de onde saiu, morrendo uma segunda vez.


Héloïse e Marianne debatem as razões pelas quais Orfeu olhou para trás (talvez tivesse sido Eurídice a chamá-lo) e o filme prossegue o seu caminho. O que poderia ser apenas uma cena para aprofundar a relação entre as duas personagens principais, acaba por nos servir o tema principal desta história. Quando o filme terminou, quanto mais pensava no que tinha acabado de ver, mais interesse ganhava na história de Orfeu e Eurídice. O propósito desta crónica não é tanto de falar sobre o filme “Retrato de uma Rapariga em Chamas” e a bonita história de amor que retrata, mas sim da viagem que me fez ter muito depois dos créditos acabarem. Quanto mais lia sobre Orfeu e Eurídice, mais via os diferentes meios artísticos que inspirara. Comecei por ouvir o álbum dos Arcade Fire “Reflektor”, cuja capa é uma escultura do casal feita por Rodin, tendo duas músicas que ouvi em loop "Awful Sound (Oh Eurydice)" e "It's Never Over (Hey Orpheus)".


Por alguma razão a história não me saía da cabeça. Decidi, então, comprar a “Metamorfoses” de Ovídio que, no ano 8 a.C., imortalizou não só o mito de Orfeu e Eurídice, como muitos outros que nos chegaram até hoje, tal como o Rei Midas ou Hércules.


A mesma sensação que tenho quando li o que Ovídio escreveu em “Metamorfoses” é a mesma que tenho quando leio a Bíblia. De alguma forma as nossas emoções, das mais primárias às mais complexas, já lá estão todas. Parece que toda a gente escreve sobre elas, mas ninguém as inventou. E isso deixa-me com doses iguais de conforto e perplexidade.


O filme “Retrato de uma Rapariga em Chamas” é um filme de 2019, passado no séc. XVIII, inspirada por um mito imortalizado há mais de dois mil anos e é um filme com o qual é impossível não nos relacionarmos. O olhar para trás de Orfeu são os nossos medos, são as nossas inseguranças e, independentemente do ano, será sempre atual, seremos sempre nós.