Deslumbrarmo-nos com Álvaro Pires de Évora (e companhia)

Atualizado: 6 de Mar de 2020


Álvaro Pires é o primeiro pintor português cujas obras têm autoria conhecida. Só por isso, já devíamos ser movidos até ao antigo palácio dos condes de Alvor, nas Janelas Verdes, pelo nosso orgulho nacional. Se assim for, esse mesmo orgulho só poderá aumentar e transformar-se em deleite, dada a riqueza e qualidade de cada obra exposta.

por Isabel Maria Mónica


Ilustração de Francisca Faria



Até 15 de Março de 2020, o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) propõe-nos uma exposição imperdível: “Alvaro Pirez d’Évora: um pintor português em Itália nas vésperas do Renascimento”.

“Imperdível” é hoje uma palavra gasta pelo uso indevido e excessivo em qualquer publicidade, mas quero que aqui seja lida literalmente. Confiem em mim.


Para que o meu leitor fique convencido, posso começar por referir que Álvaro Pires é o primeiro pintor português cujas obras têm autoria conhecida. Só por isso, já devíamos ser movidos até ao antigo palácio dos condes de Alvor, nas Janelas Verdes, pelo nosso orgulho nacional. Se assim for, esse mesmo orgulho só poderá aumentar e transformar-se em deleite, dada a riqueza e qualidade de cada obra exposta. É verdade que se consagrou como pintor em Itália, mas, pela assinatura que deixa na obra da igreja de Santa Croce de Fossabanda, em Pisa, algo nos diz que fez questão em expôr as suas origens: assinou com letras garrafais em português — e não em latim ou italiano como habitual — e frisou que era de Évora (“ALVARO PIREZ DEVORA PINTOV”). O historiador Giorgio Vasari, em 1568, nomeia “Alvaro Piero di Portogallo” na sua obra Le Vite de Più’ Eccellenti Pittori, Scultori e Architettori.



"Retábulo da Igreja de Santa Croce de Fossabanda (pormenor)", Álvaro Pirez de Évora

Existe também outra obra incontornável — até porque somos logo confrontados com ela quando entramos na exposição — que o Estado português comprou, na Sotheby’s de Nova York em 2018, para o MNAA: “A Anunciação”. A qualidade desta pintura, que consequentemente se atribui a uma fase mais tardia da sua produção e a uma provável encomenda para colecção privada, espelha-se no tratamento delicado e elegante da Virgem e do Arcanjo São Gabriel, no virtuosismo que torna quase real o pano adamascado ao fundo, e também no paciente trabalho de punção de folha de ouro, tão requintado que leva a crer que Álvaro Pires poderá ter sido ourives em Portugal. A impressionante ilusão de transparência do véu e a fascinante escolha de cor para as asas do arcanjo anunciante são igualmente características que não conseguem passar indiferentes ao observador. No canto superior esquerdo, a mão de Deus que envia o Seu Espírito Santo como pomba branca é também um curioso recurso iconográfico reminescente das representações de Deus antes do século X.


"A Anunciação", Álvaro Pirez de Évora (no MNAA)

Outra proposta que esta exposição nos faz é a de vermos ao vivo um retrato que já todos conhecemos, nem que seja pelos manuais escolares ou pela página do Wikipédia: o retrato do rei D. João I, de autoria desconhecida. É uma experiência surpreendente, porque descobrimos pormenores que provavelmente não teríamos nunca reparado, como o rico adamascado da gola e do pano de fundo e a inscrição latina na moldura, que faz referência à Batalha de Aljubarrota.

Por fim, como se não bastassem as admiráveis obras de Álvaro Pires (estão reunidas mais de metade das cerca de 60 conhecidas), o MNAA fez ainda questão de reunir obras de outros pintores da mesma época, activos também na Toscana, com características pictóricas comuns: Beato Angelico, Paolo Uccello, Masolino da Panicale e Gentile da Fabriano. Juntam-se assim obras vindas de oito países e de cerca de 40 emprestadores, o que me ajuda a reforçar o quão imperdível é de facto esta exposição.


Por isso mesmo, acabo com um convite em nome do Grupo dos Jovens Amigos do MNAA: no próximo dia 15 de Fevereiro, pelas 16:30, Miguel Cabral Moncada, professor e sócio gerente da Cabral Moncada Leilões, falará sobre a aquisição da pintura “A Anunciação”. Em seguida, aceitei o desafio para fazer uma visita guiada à exposição, não enquanto historiadora da Arte, porque não o sou, mas simplesmente enquanto amante da Arte, que se deixa deslumbrar com os detalhes de cada obra. Apareçam! Pelo primeiro orador, já valerá a pena.