Deeply Concerned 4Ever

Em 2014, através das milhares de reacções pró-forma dos líderes mundiais que se mostravam profundamente preocupados (na gíria, deeply concerned™) com a condenável anexação da Crimeia e da cidade de Sebastopol pela Rússia, o bloco ocidental entendeu dar a notícia como tal se tratasse de uma “novidade esperada”: uma combinação entre o choque instantâneo perante o desplante belicoso de um presidente russo e a previsibilidade de um plano geopolítico traçado por um antigo agente soviético do KGB.

de Afonso Madeira Alves



Sem surpresa, o título “A Rússia invadiu a Ucrânia!” rapidamente deu lugar à análise “Obviamente que a Rússia invadiu a Ucrânia”, produzindo uma homogeneidade crítica que nos assegurou o prolongamento da história de uma guerra blockbuster do século passado.


A melhor das reacções e, simultaneamente, aquela que parecerá das menos sinceras aos dias de hoje, pertenceu à agora ex-chanceler alemã, Angela Merkel. Na altura, em conversa telefónica com o presidente norte-americano, Merkel ter-lhe-á confessado que após ter falado com Vladimir Putin, estaria certa de que o líder russo “vivia noutro mundo”. Nesse outro mundo, totalmente oposto a este, Putin não concluíra o mesmo que os seus homólogos do Ocidente porque estaria a operar sob um sistema distópico capaz de iludir os princípios da realidade e de ignorar as suas sanções. A tese de Merkel, uma nativa da Alemanha Oriental, recuperava institucionalmente a doutrina anti-soviética de Churchill e Truman. Deste modo, a disposição oficial dos governos ocidentais face ao regime russo regressou, em grande medida, à tónica do antagonismo idiossincrático e à ameaça de segurança. Nas palavras do saudoso José Cutileiro, o Ocidente deixou de esperar “que os russos quisessem vir a ser como nós”.


Sete anos e mais de 14 000 mortes depois, a disposição não só permaneceu inalterada como tem vindo a ser reforçada. Pela segunda vez este ano, o governo russo resolveu mover tropas e tanques para a fronteira que partilha com a Ucrânia, justificando o aumento da sua presença militar na região como resposta aos múltiplos exercícios da NATO no Mar Negro. Nesta escalada, e considerando os repetidos alertas de invasão dados por membros do executivo ucraniano, a aliança atlântica tem endurecido a retórica o quanto baste, de forma que não possa ser acusada de inacção.

Ameaça-se Putin com “sanções económicas nunca antes vistas”, mas sem conseguir sequer fingir que uma resposta militar coordenada em solo russo-ucraniano está em cima da mesa — deduzindo-se que debaixo da mesma estejam abrigados europeus friorentos e norte-americanos falidos.

À superfície, o renascimento da Guerra Fria surge como um dado adquirido, aproveitando-se comercialmente para revender a ideia de que esta nunca terá acabado. O clima nostálgico e meio crepúsculo é suportado por um recente ensaio da autoria de Putin onde declara que ucranianos e russos são “um só povo”. No entanto, olhando ao pormenor, é perceptível que a falta de meios que outrora abundavam nos dois blocos (dinheiro, motivação, medo) reveste esta “nova” disposição de um carácter intermitente. O conflito é real, mas sem o ser: activa-se quando a Rússia ataca nações vizinhas (como a Geórgia ou a Ucrânia), mas deixa de existir quando os custos astronómicos associados à antiga bipolaridade do sistema internacional são relembrados.


A normalização deste cinismo diplomático, entretanto generalizado, torna esta guerra numa mera relação frágil, mas imparável. Hoje, uma negociação entre os presidentes russo e norte-americano pouco difere de uma trama de novela: por experiência, não só já sabemos quem é o bom e o mau, como também aquilo que ambos irão dizer, pressagiando a hipótese de um final que os revele irmãos gémeos separados à nascença.

A falta de surpresa no guião é perniciosa porque nos torna apáticos em relação à barbárie que vai acontecendo fora de cena, ainda que nos dê uma sensação de controlo sobre a narrativa: visto de fora, tornou-se cómodo assumir que o conflito histórico que estudámos se manterá, e não nos arriscarmos em quaisquer imprevistos transbordantes de um trágico fim shakesperiano. Adicionalmente, como divertida história de segundo plano, o espectador entretém-se a decifrar que personagens se configuram como ídolos da extrema-esquerda, da extrema-direita ou de ambas. Se considerarmos a região de Donbass como novo adereço, a videoconferência da passada semana entre Putin e Biden é o último exemplo deste arranjo de clichês sazonalmente noticiado em loop.


O que parecem tentativas eficazes de frustrar projectos ocidentais nos antigos territórios soviéticos constitui-se apenas como o uso da mesma táctica perante a inércia de um Ocidente indeciso e, em último caso, confortável. Invadindo o território ucraniano — ou simplesmente simulando ataques — a Rússia garante a instabilidade necessária para que uma adesão à NATO seja uma miragem tão inacessível para a Ucrânia, como é para a Geórgia desde 2008. Por cá, choramos mortos a Leste sempre que nos relembram que isso está a acontecer. Essas lágrimas, a dada altura parcas por já nos terem secado as glândulas, virão acompanhadas do lamento de estarem sempre a mostrar-nos a mesma coisa.


Numa cena de Dr. Strangelove, obra-prima de Stanley Kubrick que satiriza um cenário de apocalipse nuclear, o Presidente norte-americano Merkin Muffley telefona ao Premier soviético para o avisar do iminente ataque aéreo à União Soviética decretado por um general tresloucado que acredita que o abastecimento de água do seu país estaria a ser envenenado pelos comunistas. Num telefonema que se transforma em briga de casal, Muffley assegura o seu adversário que a chamada é “obviamente amigável”, completando: “Se não fosse amigável, provavelmente não estaria a fazê-la”.


Aquando da anexação da Crimeia, o então Presidente da Comissão Europeia telefonou a Putin para o avisar que a Europa não iria tolerar nenhuma invasão, prometendo-lhe ainda ficar sempre a par dos acontecimentos. Ao aviso, Putin respondeu: "Não te preocupes, José. Se a Rússia invadir de facto a Ucrânia, serás o primeiro a saber."

Perante as escolhas difíceis que enfrentam, como a elevação da China a superpotência suprema ou o caos terrorista que se propagou no Médio Oriente, norte-americanos e russos optam por voltar ao único combate que sabem travar, ao seu lugar feliz; à dualidade que os, e nos, conforta. Assim, todos saberão que não demorará até que nos encontremos aqui novamente.