De quem é a Culpa?

Todas as análises dão pano para mangas. Mas tem que ser, em nome da Democracia. “A democracia é o mais importante que temos!” - menos quando as pessoas decidem votar nos partidos errados. Aí, temos de proceder a fazer todo o tipo de análises para perceber porque é que as pessoas falharam na democracia. Que confusão!
Patricia De Melo Moreira/AFP via Getty Images

Crónica de João Moreira da Silva


O caos. O pânico. As lágrimas. A maioria absoluta do Partido Socialista. “É desta que vou emigrar”, ameaçam os Fernandos Tordos da direita. À esquerda, Catarina Martins exclama “não passarão!”, talvez a referir-se aos 14 deputados perdidos pelo Bloco de Esquerda em pouco mais de dois anos, quase substituídos na sua totalidade pela brigada fascista. Estes passaram, claro, e festejaram com gritos de “chega!” Nas hostes sociais-democratas, diz-se que “o povo português falhou” e que “preferiu acreditar na mentira.” O povo é burro, claro. A culpa é toda daqueles que não perceberam que o Dr. Rui Rio tinha toda a razão. Deviam voltar à escola. Mas à escola privada, que na escola pública dizem aos meninos para votarem PS desde a primária. Aliás, há relatos de crianças de seis anos que aprendem a escrever “António Costa” antes do seu próprio nome.


As análises começam. Põe-se o fato e a gravata e começa a explicar-se os porquês. Porque é que as sondagens estavam erradas? Porque é que os portugueses deram uma maioria absoluta ao PS? Porque é que o BE e a CDU perderam tantos deputados? Porque é que o Chega e a IL cresceram? Os quems também vêm à baila. Quem é que votou no PS? Quem é que não votou no PSD? Fazem-se inquéritos e aplicam-se as teorias de sociologia e ciência política que explicam os eventos bem explicadinhos. “Sabe, é que o eleitorado do Chega é composto por homens sem estudos...” “E mais! As pessoas só votaram, no PS porque forem enganadas pelas suas mentiras.” Ah, está explicado. Fico aliviado, a culpa é da falta de estudos e da ingenuidade das pessoas. Deve ser muito triste, ser um iluminado num país de burros e ingénuos. Não sei qual será a sensação. Claro está, é apenas um pormenor que, apesar dos seus estudos e conhecimento, vários comentadores políticos e jornalistas previam resultados como uma vitória do PSD com a IL, um bloco central, ou até uma federação de direita. Poucos ou nenhuns previram este resultado. Temos de estudar mais, está visto, para prevermos melhor o futuro.


Enfim, tudo gira à volta da culpa. O importante é determinar de quem é a culpa destes resultados. Como disse, os bodes expiatórios do costume são os ingénuos, os iletrados, aqueles que não conseguem ver a realidade de forma tão clara como aqueles que detêm a Razão - por isso votam PS. Ou Chega. Ou no partido que não gostamos. Os burros são aqueles do outro lado da barricada. Mas atenção - a culpa não está só nos eleitores. Temos de culpar os líderes, também. Para satisfazer a frustração dos eleitores que viram o seu voto desperdiçado, têm de rolar cabeças. A demissão dos políticos culpados permite uma satisfação momentânea, uma espécie de prémio de consolação. “Agora sim, o meu partido vai voltar a ser grande!” Só têm de esperar quatro anos (não é estranho imaginarmo-nos daqui a quatro anos? Já ter de imaginar o que vou fazer na próxima semana é um bocado aterrador).


Todas estas análises dão pano para mangas. Mas tem que ser, em nome da Democracia. “A democracia é o mais importante que temos!” - Menos quando as pessoas decidem votar nos partidos errados. Aí, temos de proceder a fazer todo o tipo de análises para perceber porque é que as pessoas falharam na democracia. Que confusão! Venham as percentagens, as taxas de variação de deputados, as críticas ao modelo eleitoral que beneficia os grandes partidos, o repúdio à extrema-direita feito em direto num canal de televisão que acabou de fazer uma entrevista a um dos novos deputados da extrema-direita, a culpabilização dos não licenciados, a crítica aos jovens que se abstiveram. No final, todos saberão quem errou. Poderão começar a preparar as novas campanhas, com novos slogans, novos designs, novos vídeos, talvez até um ou outro novo candidato. Mas estarão alinhados no mesmo sistema, no mesmo jogo, com as mesmas caras. Daqui a quatro anos, ficarão muito chocados quando o resultado for... o mesmo. Será altura de fazer novas análises, claro está.


Estavam à espera de uma análise que explica o que se passou? Não a tenho. Não percebo nada disto. Tal como a maioria de nós, tenho as minhas ideias, e votei no partido que mais se aproxima delas. Não creio que as ideias e convicções sejam estanques - variam consoante a nossa fase da vida, onde estamos, por quem estamos rodeados, onde crescemos, comocrescemos, o que lemos e ouvimos. Por essa razão, não confio em todas as análises a que vamos assistir nos próximos tempos. Há, claro, padrões comuns no eleitorado de cada partido, como a educação e a classe. As análises conseguem explicar isso de forma mais ou menos precisa. No entanto, a sua interpretação será feita por comentadores que costumam pertencer à mesma classe e vivem nos mesmos sítios; que dividem a sociedade entre pessoas com estudos e pessoas sem estudos; entre pessoas carenciadas e pessoas privilegiadas. No meio de todas estas divisões e sistematizações, que refletem uma clara hierarquia que favorece quem as interpreta, não há espaço ao irracional, à nuance, ao subjetivo. Não há uma abordagem diversa e representativa da população portuguesa. A nova composição da Assembleia da República é um mero reflexo de tudo isto.