De Lobo todos temos um pouco

Atualizado: 9 de Out de 2020


Em O Lobo das Estepes, o leitor é seduzido a ver na caracterização em tom fabulista uma simplificação algo infantil da condição humana. No entanto, é através desta dualidade humano/animal aparentemente simplória que o escritor introduz a matéria com que vai tecendo uma maravilhosa reflexão relativamente aos mais diversos pólos de personalidade que cada ser humano encerra em si


Crónica de Inês Moreira

Estudante de Medicina, NOVA Medical School



Imersa nos dias atónicos de quarentena, e tomada por uma tristeza crónica, entreguei-me à leitura de O Lobo das Estepes, de Hermann Hesse, uma das obras mais notórias do célebre escritor alemão, conhecido por nos ter presenteado com Siddhartha, remédio para quem se cansou de ter a alma inquieta em banho-maria.


Mas é erro equiparar as duas obras em efeito. Uma, Siddhartha, presenteia-nos com uma descoberta espiritual e busca pela plenitude de espírito e, apesar de não prescindir do incentivo ao pensamento e ao ato de questionar, acaba por ser lupa de visão turva, chave de porta que não sabíamos sequer existir, oásis para um deserto de inquietações. O Lobo das Estepes, em contrapartida, não perde em magnitude de efeito, mas difere na sua qualidade. Remata um soco impiedoso no estômago cuja sensibilidade não peca em tamanho. Dilacera completamente por dentro, enquanto cura. Isto porquê? Talvez porque mergulhamos de cabeça na narrativa da personagem principal, Haller, o solitário intelectual quinquagenário que se arrasta pelos dias, ébrio pela dor e pelo vinho da Alsácia, angustiado pela dicotomia de se achar tanto homem quanto lobo, racional e instintivo, delicado e grosseiro. Vive melindrado por fragmentos de si que se antagonizam e repelem, e que somente em raras ocasiões lhe proporcionam momentos de harmonia e felicidade. “(…) ora vivia como lobo, ora como humano, a exemplo do que acontece com todos os seres mistos, mas que, no entanto, quando era lobo, o ser humano que nele havia estava sempre à espreita, sempre a observar, a julgar, a sentenciar.”





O espólio literário de Hesse tem a particularidade de gerar as mais variadas opiniões, tanto entre leitores como no próprio leitor que relê, fazendo com que o produto final de cada obra, depois de filtrada, tecida e moldada a cada pessoa, dependa não só das numerosas personalidades como das diferentes fases da vida que cada um atravessa.


Em O Lobo das Estepes, o leitor é seduzido a ver na caracterização em tom fabulista uma simplificação algo infantil da condição humana. No entanto, é através desta dualidade humano/animal aparentemente simplória que o escritor introduz a matéria com que vai tecendo uma maravilhosa reflexão relativamente aos mais diversos pólos de personalidade que cada ser humano encerra em si. Surge a ideia de que o corpo é uno, mas a alma é diversa, abundante, múltipla. Como se cada alma abarcasse várias almas, várias essências, vários traços de personalidade, que em uns coabitam em paz, noutros em guerra infindável.


Todo este sofrimento aliado à repulsa pelos costumes da classe burguesa, estrato social que nega os excessos e reduz a vida à comodidade, ao conforto de não viver, mas “ir vivendo”, na renúncia constante dos extremos do prazer e da dor, encerra a personagem principal num auto-conflito permanente, namorando não poucas vezes a ideia de suicídio. No entanto, Haller vê-se incapaz de se separar desta classe, acabando por alugar constantemente um apartamento no seio de uma família burguesa, calorosa e acolhedora, com cheirinho a araucária, que tanto o agarra a memórias de uma infância distante, ou até mesmo à própria vida.


“Se examinarmos a alma do Lobo das Estepes(...) ele apresenta-se-nos como um ser humano cujo alto grau de individuação determina a sua condição de não-burguês- pois todo o impulso no sentido da individuação volta-se contra o eu e tende a promover a sua destruição.”


O livro ganha novos contornos aliciantes quando, certa noite, curvado num bar e circunscrito numa angústia que o aproxima do suicídio pela mão da faca de barbear, Harry conhece Hermine, uma jovem cativante que o introduz aos prazeres mundanos dos bailes citadinos que pulsam ao ritmo do jazz contemporâneo, e o apresenta ao saxofonista Pablo e à futura amante, Maria. É com estas personagens que Harry submerge numa conduta hedonista com o único objetivo de saciar as vontades básicas e carnais. “Maria não possuía nenhuma cultura, (...) todos os seus problemas se prendiam diretamente com os sentidos. Conseguir com a sua figura particular, as suas cores, o seu cabelo, a sua voz, a sua pele e o seu temperamento alcançar tanto prazer sensual e felicidade amorosa quanto possível, (...) encontrar e, como que por encanto, despertar no seu amante uma resposta, um momento de compreensão e uma animada e aprazível oposição – esta era a sua arte e a sua missão.”

A obra culmina com o convite de Pablo a Harry e Hermine para desfrutarem do seu Teatro Mágico, espaço cujo propósito é a dissolução da personalidade, ambição que só pode ser alcançada através do riso. Já dentro desta “escola do humor”, Harry, a cada porta que abre, é introduzido a mundos e realidades disformes e surreais, desde um no qual homens e máquinas estão envolvidos numa guerra sangrenta, a outro onde todas as mulheres que ele sempre quis estão disponíveis para ele desfrutar. Desaguamos numa metáfora complexa da sua mente que o personagem confronta de forma direta e indefesa. No fundo, vemos a realidade a dissolver-se à medida que o romance nos leva cada vez mais fundo na psique do Lobo das Estepes.


São vários os traços desta obra que nos fazem guardá-la com especial carinho no nosso íntimo. Tem simultaneamente o poder de semear uma empatia que cresce ao compasso da personagem, como o de ferir ferozmente, por nos vermos espelhados numa escrita que desmascara uma dor familiar, e por nos vermos assemelhados a um personagem incontestavelmente intimidante.


Ao mesmo tempo que apela a uma vasta gama de emoções, também nos urge a necessidade de contemplação por se tratar de uma prosa extremamente bela, em que a personagem principal não prescinde de intrigar e de nos acompanhar. Porque dá conversa a inquietações profundas e dores que se vêem muitas vezes sós, ignoradas ou invisíveis nos nossos becos mais escuros. Que, quando em dias cinzentos lhes damos a nossa atenção involuntária, nos corroem por dentro. Guardamo-las e não sabemos onde arrumá-las. Raras são as vezes em que as conseguimos escoar. Há sempre quem consiga chegar perto, os artistas, sofredores crónicos, que nos avizinham de compreender, palavra a palavra, pincelada a pincelada, nota a nota, a natureza humana. Também o sentido de humor ganha uma nova dimensão, talvez porque fiquemos ultimamente aliciados a ver na leveza da vida a sua derradeira cura.


Este livro vem como que abraçar-nos a solidão. Não a máscara, nem a contorna, mas expõe-na e dá-lhe a mão, numa espécie de consolo.