Como ficará a economia com a saída de Merkel?

A dias da realização das eleições legislativas alemãs, não é só na Alemanha que se fazem contas à vida no “adeus” a Angela Merkel. A chanceler vai abandonar a chefia do Governo germânico e deixa um vazio na liderança coletiva do futuro da União Europeia.

Texto de Catarina Neto





A dias da realização das eleições legislativas alemãs, não é só na Alemanha que se fazem contas à vida no adeus a Angela Merkel. A chanceler vai abandonar a chefia do Governo germânico e deixa um vazio na liderança coletiva do futuro da União Europeia.


Segundo o relatório “Beyond Merkelism: What Europeans expect of post-election Germany” do think tank European Council on Foreign Relations (ECFR), baseado numa sondagem realizada em 12 Estados-membros (incluindo Portugal), o legado de Merkel, aos olhos dos europeus, é bastante positivo: a maioria dos cidadãos confia na Alemanha para defender os interesses europeus em matérias económico-financeiras, de defesa e segurança e para liderar na defesa da democracia e dos direitos humanos na UE.


Estes resultados tão positivos por parte dos países europeus reforçam o sucesso da política unificadora e pró-europeia levada a cabo pela chanceler que, devido a todos os desafios que enfrentou, sai por muitos conhecida como “gestora eficaz das crises europeias”, personificando uma Alemanha forte e estável, que nos últimos 15 anos enfrentou, entre outras: a crise financeira, a crise das dividas soberanas da zona euro, a crise dos refugiados, a vaga de ataques terroristas, a competição chinesa e russa, o retraimento dos EUA, a pandemia de covid-19, - e, ainda assim, manteve a Alemanha como a âncora da Europa.


Esta gestão eficaz de sucessivas crises que para uns foi tão evidente, foi para outros limitada a uma gestão pragmática do statu quo. Para qualquer umas das opiniões que se partilhe, a verdade é uma: quando Angela Merkel se tornou chanceler, a Alemanha era um país em crise e é hoje, o centro de gravidade politico e económico da Europa. O tempo de Merkel acabou e é agora hora de pensar no futuro, onde muitas questões se levantam, por exemplo: como ficará a politica económica europeia?


Será a Política Económica Europeia o elefante na sala?


A reduzida vontade de falar de mudanças na política económica europeia é transversal a quase todo o espectro político alemão nestas eleições, - no decorrer da campanha este está muito longe de ser um tema central nos debates. A verdade é que, qualquer dos cenários ditos mais prováveis dificilmente representará alterações radicais nas posições alemãs relativamente a matérias como: orçamento permanente da zona euro, seguro comum de depósito europeu ou uma reforma profunda das regras orçamentais europeias.


Apesar destes temas terem sido sempre abordados com prudência, é verdade que SPD e Verdes mostram, nos seus programas, uma maior abertura a, por exemplo, introduzir mais considerações de sustentabilidade nas regras orçamentais europeias, não fechando a porta à possibilidade de a UE passar a obter parte dos seus recursos de modo próprio, o que representa um dos passos essenciais para um orçamento único e permanente. Contrapondo com as posições mais rígidas em relação a qualquer mudança substancial nestas matérias que se ouvem do lado da CDU e dos Liberais.


Assim, uma coligação à esquerda poderia representar uma suavização da disciplina económica que caracterizou a Alemanha durante os últimos anos, - que fez parecer esta economia inabalável - mas, e atualmente?


O modelo económico da Alemanha está em rotura?


Apesar do desempenho positivo em alguns dos mais relevantes indicadores económicos pelas politicas já descritas, nem tudo são rosas: uma economia muito dependente das exportações e da indústria como é a Alemanha enfrenta, num mundo repleto de conflitos comerciais e riscos ambientais, a necessidade da mudança – e (talvez) este seja o momento em que vê o seu modelo económico posto em causa. Cada vez mais entidades, quer internas quer externas, alertam para os problemas e riscos que surgem associados à forma escolhida pelo país para crescer: tornou-se ainda mais evidente a forte dependência do país do seu sector exportador, - acumulando-se excedentes externos consecutivos - graças a uma competitividade obtida por via de uma forte contenção salarial. Ao mesmo tempo, os níveis de investimento, tanto público como privado, mantiveram-se a um nível relativamente moderado, dificultando o estimulo necessário para assegurar o crescimento da economia num país em que as tendências demográficas também não ajudam.


O resultado das próximas eleições será, certamente, decisivo para saber como é que a Alemanha irá responder a todos estes desafios, e se há quem tema que estas eleições tragam um período de paralisia e incerteza, também há quem mostre entusiasmo. Só é importante não esquecer que as mudanças que serão feitas, e como serão feitas, terão impactos relevantes no resto da economia mundial.