Como evitar uma crise climática? A visão de Bill Gates

Gates não acredita que possamos alguma vez evitar uma crise climática restringindo as atividades económicas mundiais. Usou 2020 e os impactos dos períodos de baixa produção na economia com a covid-19 como exemplo, o que acaba por ser acertado. A maneira de lá chegar, diz ele, é com ciência e tecnologia.


Crítica de Adriana Martins

Licenciada em Engenharia Mecânica, Imperial College London



Se ficar com alguma coisa depois de ler este livro, será o número 51. O que é? O número de mil milhões de toneladas emitidas mundialmente por ano de gases que contribuem para o efeito de estufa. Porque é memorável? Porque temos de o converter num zero.

Bill Gates tem uma escrita simplista e fácil de seguir. É tão clara que nenhum conhecimento prévio é necessário para que o livro seja percebido na íntegra. Alguns dirão até que o livro está claro demais pois inclui explicações de conceitos básicos como conversões de quilos para megas, o que um aluno de ensino básico seria já capaz de compreender. O intuito terá sido certamente chegar ao maior número de pessoas sem que haja alguma barreira de compreensão. Ainda assim, podemos dizer que está bastante baixa.


Muitos dos livros e artigos dentro dos temas da sustentabilidade e crise climática conseguem gastar linhas e parágrafos sem que nenhuma ideia precisa ou solução especifica seja sugerida. Nesse aspeto Bill Gates consegue passar algumas mensagens, e bem. Quanto à estrutura, esta foi feita de uma maneira bastante pragmática e inteligente. Fora algumas notas iniciais para criar contexto e uma introdução sólida com as razões pela qual é necessário reduzir as nossas emissões, o livro poderia resumir-se da seguinte maneira:



Para cada categoria o objetivo é transformar a percentagem apresentada num zero. Pois reduzir não será suficiente. A analogia usada para explicar a resiliência da nossa atmosfera aos gases que criam efeito de estufa foi de uma banheira a encher. Se reduzirmos o fluxo da torneira vamos apenas desacelerar o processo. Se não quisermos que a banheira transborde, temos de a fechar. Os combustíveis fosseis estão embebidos na sociedade de tal maneira que acabamos por os negligenciar, sendo assim difícil apercebermo-nos da dependência que temos. Este efeito é bem retratado na famosa analogia de David Foster Wallace – “What is water?”. Não será do dia para a noite, nem a custo zero, que conseguiremos chegar ao neutro em carbono (o objetivo é chegar ao ‘net zero’ não ao zero).



Gates não acredita que possamos alguma vez evitar uma crise climática restringindo as atividades económicas mundiais. Usou 2020 e os impactos dos períodos de baixa produção na economia com a covid-19 como exemplo, o que acaba por ser acertado. A maneira de lá chegar, diz ele, é com ciência e tecnologia.


Dentro do que é possível em 230 páginas, cada categoria foi bem analisada. Em cada uma, os maiores obstáculos para reduzir as emissões foram evidenciados e várias soluções foram apresentadas desde energia nuclear a melhorias na qualidade dos alimentos para os animais na produção agropecuária. A maior parte dos argumentos foram defendidos com referências a estudos, opiniões de especialistas e exemplos explanatórios com visão a compreender o potencial ou as limitações de algumas opções. Certas ideias e teorias que se ouvem falar hoje em dia, mas que nem sempre estão corretas foram desmistificadas, como é o caso de que as renováveis serão a solução para uma rede elétrica limpa e de que as baterias vão abolir as emissões no setor dos transportes. Com a ajuda de conceitos importantes como densidades energéticas (“power densities” - capacidade elétrica por área ocupada), toneladas de material usado por unidade de eletricidade gerada, e a dificuldade que hoje em dia existe em armazenar eletricidade, Bill Gates explica como os painéis solares e as turbinas eólicas, por si só, não são a solução para uma rede elétrica livre de carbono. Fazem sim parte da solução, porém não conseguiram solucionar o problema na sua respetiva categoria sem outras tecnologias de auxílio, devido à intermitência dos recursos naturais. Quanto às baterias, a situação é idêntica. Os carros elétricos podem vir a substituir os carros a diesel de individuais, no entanto o rácio entre peso de baterias e combustível fóssil necessário para a mesma quantidade de energia fornecida é 35. Gates não fala do peso dos motores de combustão que não está incluído no carro elétrico, mas em geral, para grandes veículos, aéreos e terrestres, a solução mais viável poderá ser combustível bio.

Nem sempre foram apresentadas soluções específicas e com potencial garantido pois muito do que falta é investimento em inovação - um ponto referido inúmeras vezes neste livro. Não temos ainda soluções economicamente viáveis para todas as categorias. O Green Premium (conceito usado no livro relacionado com o custo extra para que uma atividade não emita carbono) continua ainda alto para que possamos já fazer a transição. Os governos, em especial dos países mais desenvolvidos têm que se aliar a nível global, aumentar criticamente os investimentos de R&D (“Research & Development”) e arriscar mais em ideias novas.

Bill Gates não acredita que o humano (numa escala global), possa mudar os seus hábitos - hábitos de viagem, de consumo ou de dieta, e, portanto, as soluções propostas e o plano apresentado baseiam-se na substituição das tecnologias de hoje em dia por outras com igual funcionalidade, mas sem a emissão de gases poluentes. No fundo, acha que não nos vamos dar ao trabalho de mudar e sacrificar para evitar a crise climatérica. Se formos pensar, a verdade é que somos atualmente 7.9 mil milhões no mundo, com a previsão de que muitos milhões irão sair da pobreza nas próximas décadas aumentando os níveis de consumo energético mundiais ainda mais. Por muito que criemos um diálogo ativo sobre o problema e sensibilizarmos a população, é difícil acreditar que a redução das nossas emissões será feita pela mudança de comportamento do indivíduo, especialmente enquanto as opções elétricas e sustentáveis forem mais caras. A mudança tem de ser aborrecida, isto é, governos e privados têm que investir em inovação para que as opções indicadas sejam as mais económicas para todos. Isto fará com que a transição seja a mais natural possível. Não podemos ficar à espera de que 7.9 mil milhões de indivíduos adotem uma dieta vegana de um dia para o outro ou invistam mais num carro para que seja elétrico. A opção mais sustentável tem de ser a mais apelativa e esse esforço e investimento tem de vir do governo e dos grandes privados.


Por falar em grandes privados, um ponto que Bill Gates não menciona é a resistência que as empresas de exploração de combustíveis fosseis fazem ao avanço de novas tecnologias. A indústria energética, por exemplo, tem investido biliões de euros em infraestruturas e dá trabalho a milhões de pessoas. Tudo isto num cenário realístico não pode ser ignorado. Outros pontos importantes como a exploração de lítio para baterias e planos para o tratamento dos seus resíduos no fim de vida também não são mencionados.


Gates tem sido criticado por favorecer e enaltecer opções onde tem investido muito tempo e muito dinheiro – exemplos são TerraPower (energia nuclear de fissão), tecnologias de captura direta de carbono no ar entre outras. A verdade é que um investimento é feito quando se acredita no retorno e no potencial da ideia ou empresa em questão. Gates tem o dinheiro e a possibilidade de investir em projetos em que acredita, ninguém o pode criticar por promovê-los no seu livro. De uma maneira ou de outra ele está a estimular mudança e inovação.


Como nota final, Gates pede que olhemos para a pandemia que estamos a viver como lição e também como exemplo. Lição, pois, como na situação criada pela covid-19, se não nos prepararmos devidamente, as consequências podem ser desastrosas. Exemplo, pois o desenvolvimento e distribuição em tempo recorde de uma vacina nova demonstra o poder da cooperação entre nações e o potencial que tal teria para desenvolver as tecnologias que precisamos para uma crise que pode ser bem pior do que a que estamos a passar agora.

Pessoalmente, parece me um pedido acertado.