Ciência e Sociedade – O papel da comunicação de ciência






Em parceria com:



Crónica de Inês Justo

Estudante de Biologia, FCUL



Há cerca de três anos, em contexto laboral precário, estava à conversa com um rapaz com os seus 20 anos que me perguntou no que é que eu podia trabalhar em Biologia, ao qual eu respondi “Investigação”. “Investigação criminal?”, perguntou ele já muito entusiasmado. “Não, investigação científica.” Naquele instante, o caos pairava na sua cabeça.


Apesar de este insólito episódio retratar um desconhecimento individual, de facto não é incomum quando o tema se trata do meu curso e das suas saídas profissionais, (em contraste com os meus colegas da faculdade de Medicina ou de Direito). Deste modo, não será errado afirmar que existe algum distanciamento entre a ciência e a sociedade.

Em pesquisa para a crónica, tentei procurar inquéritos que aferissem a literacia científica dos portugueses, no entanto não existe em Portugal a tradição de realizar estudos deste tipo, senão algumas exceções. Ainda assim, segundo um estudo de novembro de 2013, Responsible Research and Innovation (RRI), Science and Technology, 50% dos portugueses “não se sente informado sobre Ciência e Tecnologia” e “não está interessado” nestas matérias. Apenas 6 países dos atuais 28 Estados-membros da União Europeia apresentam valores mais altos nesta categoria de resposta. Em oposição, 28% dos portugueses manifestam-se “interessados e informados”, enquanto a média da UE é de 36%.


Paralelamente, à pergunta se os cidadãos consideram o impacto da Ciência e da Tecnologia na sociedade portuguesa como globalmente positivo ou negativo, 9% responde como “muito positivo” e 60% como “medianamente positivo”. Apesar da resposta positiva, quando comparados com as outras nações, somente a Roménia apresenta valores de confiança inferiores. Posto isto, é possível afirmar que os portugueses, de entre os restantes Estados-membros, não são os que estão mais envolvidos com a Ciência e Tecnologia.


Imagine-se agora que a população perdia a confiança na ciência. Ora, após longos meses de trabalho, de íntima colaboração entre as Unidades de Investigação e Desenvolvimento (I&Ds), a vacina para o vírus SARS-CoV-2 é encontrada. A solução para “O Grande Problema” foi finalmente desenvolvida! Porém, a sociedade encontra-se mergulhada num clima de medo, desconfiança e desinformação e, como tal, recusa-se a tomar a vacina. Sem o número suficiente de pessoas vacinadas, a imunidade de grupo não seria atingida e todo o esforço e investimento seriam em vão. É aqui que entra o papel da comunicação de ciência. A comunicação de ciência é a responsável por fazer a ligação entre os bastidores das grandes e das pequenas descobertas científicas com qualquer público, desde a comunidade científica aos decisores políticos, crianças ou aos cidadãos em geral.


E como se concretiza? Na verdade, a comunicação de ciência inclui todas as atividades que intersetam a ciência e a comunicação. Segue, a título de exemplo, as atividades desenvolvidas pelos museus e centros de ciência, jardins botânicos e zoológicos e aquários; pelos profissionais dos gabinetes de comunicação de laboratórios e universidades; pelos profissionais dos media que trabalhem em ciência; pelos organizadores de eventos de cariz científico (congressos, feiras, tertúlias,…); pelos tradutores científicos e também pelos professores e formadores.


Não obstante a carência de recursos humanos e financeiros nesta disciplina, é reconhecida pela comunidade científica a sua importância junto da comunidade local, empresas e público em geral, tendo como resultados visíveis o aumento exponencial de atividades de divulgação ao longo dos últimos anos.


Porém, em momentos de escassez de recursos, como se verificou na última crise económica, o trabalho de comunicação de ciência, que é tida como uma atividade secundária, sofre rapidamente cortes e, por conseguinte, o próprio investimento em investigação é posto em causa na esfera política.

É assim indispensável a aposta na comunicação de ciência tanto pela preservação da própria, como pela necessidade de envolvimento da sociedade civil através do diálogo e da discussão. Exemplos de discussões públicas da ordem do dia como o aborto, as vacinas ou as alterações climáticas só são possíveis na posse de conhecimentos básicos científicos. A resolução do dilema acima apresentado passaria pela comunicação de ciência à sociedade, de forma clara e eficiente, aliada à confiança, interesse e envolvimento na ciência por parte da mesma.