Ceder o lugar (de fala)

Sabendo que os lugares e posições de poder em Portugal são essencialmente ocupados por pessoas brancas, cabe a estas humildemente escutar e desocupar a plataforma que pode servir para reconhecer e dar espaço para que grupos marginalizados consigam fazer a sua luta. (...) Ora, é exatamente isto que ainda está por fazer com o Jornal Crónico.


Crónica de Gonçalo Loureiro

Estudante de História, NOVA-FCSH

Devo começar esta crónica por deixar claro que este lugar de fala está longe de ser só meu. No entanto, e dado o problema da falta de diversidade e representatividade dentro do jornal Crónico, achei por bem fazer uso do meu privilégio enquanto homem branco para fazer um apelo consciencializador a todas as pessoas que têm vindo a apoiar este importante projeto, e a todos/as os/as leitores/as que nos acompanham regularmente.


O conceito lugar de fala, tal como a ele me refiro, foi trabalhado e elaborado pela autora brasileira Djamila Ribeiro. Este conceito refere-se a um lugar socialmente entendido e ocupado por pessoas sujeitas a sistemas de dominação-opressão, que por sua vez (in)visibilizam, negam ou garantem o acesso de determinados grupos sociais a lugares de poder, cidadania e conhecimento. Por exemplo, a questão e debate sobre o racismo e as violências contra pessoas negras não deve ser dominado e apropriado por pessoas não-racializadas: o que é necessário é construir canais que amplifiquem as vozes destas identidades subalternas, sendo que é, do meu ponto de vista, aqui que o privilégio branco pode entrar em ação. Sabendo que os lugares e posições de poder em Portugal são essencialmente ocupados por pessoas brancas, cabe a estas humildemente escutar e desocupar a plataforma que pode servir para reconhecer e dar espaço para que grupos marginalizados consigam fazer a sua luta. Porque fazer a luta por estas pessoas (e não ao lado delas), enquanto indivíduo branco, seria perpetuar de forma perversa um sistema de dominação tão desigual. Ora, é exatamente isto que ainda está por fazer com o jornal Crónico.


A Direção Geral do Crónico é composta por 5 pessoas, todas elas brancas. Das 41 pessoas que integram o grupo de cronistas do Crónico, não há uma única pessoa racializada. A isto acresce a minha percepção pessoal, que nasce de uma mera observação superficial, que grande parte destas pessoas pertencem a uma classe socio-económica mais abastada. Não quero com estes números sugerir a remoção destas pessoas da equipa; nem quero pôr em causa o seu conhecimento e potencial individual. Porém, quando olhamos para este grupo, facilmente percebemos que é bastante homogéneo. A leitura de diferentes crónicas poderá até sugerir o contrário; mas a homogeneidade de que falo vai muito mais além de ideologias e espectros políticos: falo sim de vivências, acesso a oportunidades, sistemas de conhecimento, e acima de tudo, o lugar que cada um/uma de nós ocupa na sociedade. Isto levanta questões e problemáticas.

Os temas por nós cronistas escolhidos e abordados acabam muitas vezes por alimentar uma elite intelectual miópica, um círculo restrito de pessoas que bebe deste conhecimento partilhado, rejeitando e ignorando, inconscientemente, temas que pesam de igual ou maior importância. E se houvesse uma vontade e um ativismo dignos de trabalhar tais temas, o Crónico deparar-se-ia com a questão do lugar de fala, que aqui foi mencionado. Não quero com isto dizer que uma pessoa só pode falar de discriminação ou racismo quando é vítima dessa discriminação; o que defendo é que o Crónico seja uma plataforma partilhada, participada, heterogénea, emancipadora, de onde possa ser restituida agência a pessoas cuja dignidade e poder lhes foi limitado por um sistema opressor e desigual. Em termos práticos isto passa por exemplo, por convidar uma mulher negra para o debate que o Crónico organizou no dia 28 de março sobre feminismo - reconheçamos o contributo fulcral de uma ativista feminista negra, ao ser impossível negar que as violências e desigualdades de género vividas por mulheres negras é, de forma geral, muito mais profunda e complexa, ao relacionar-se com o sistema racista. Num debate com 2 oradoras e 2 moderadoras, e sendo Portugal um país com um número significativo de mulheres negras, de mulheres migrantes, mulheres trans, e tantas outras, questiona-se como é que todas as participantes são brancas, e como é que o conteúdo do debate não será inevitavelmente enviesado, limitado e mesmo limitante. Para aqueles e aquelas que não ficaram convencidos/as, sugiro que dêem uma vista de olhos nos sucessivos cartazes culturais partilhados e sugeridos pelo Crónico - Há uma clara tendência que perpetua a branquitude da cultura em Portugal. Se vivemos num período em que a cultura está ainda mais ameaçada, temos que reconhecer que o peso das dificuldades vividas por artistas racializados/as é muito maior, ao continuarem a ser sucessivamente colocados/as e sufocados/as no plano de fundo de uma foto protagonizada por artistas brancos/brancas.


Eu faço parte do Crónico desde que começou e reconheço a importância de dar voz a jovens em Portugal. Acredito no potencial deste projeto e sou grato pelo tempo dispensado pelas pessoas que fazem isto acontecer, sempre a título de voluntariado e participação cívica. No entanto, o sonho está longe de ser concretizado - se o Crónico dá voz a jovens, também é verdade que dá voz a um grupo muito mas muito limitado de jovens em Portugal. É por isso que este texto parte de uma opinião construtiva que visa apelar a uma maior representatividade e diversidade das pessoas que integram esta equipa. Só assim, poderemos verdadeiramente “dar voz a uma geração que é muitas vezes recebida com indiferença no que toca à sua preocupação pela sociedade” (Secção Sobre em www.jornalcronico.com).


Isto passa, desde logo, por integrar na equipa do jornal pessoas cujas vozes são diariamente esmagadas por uma sociedade opressora e preconceituosa; passa por criar parcerias com organizações que lutam diariamente por uma sociedade mais justa, mais livre e menos violenta; passa por alargar o universo dos cronistas ao mundo não-universitário, reconhecendo que o acesso ao ensino superior é por si só desigual, e um de muitos caminhos dignos que os jovens em Portugal optam por seguir; passa por sair das grandes cidades, em direção à periferia e a um Portugal abandonado, onde os problemas e questões têm uma outra face; passa por afirmar todos estes compromissos, com propostas e metas bem definidas.


Tudo isto não é fácil e leva o seu tempo, apesar de ter um carácter urgente. Humildemente devemos reconhecer que somos pessoas preconceituosas, sexistas, homofóbicas, racistas exatamente por vivermos em sistemas historicamente violentos e sugadores. É no momento em que admitimos isto que conseguimos iniciar um longo processo de desconstrução, tentando todos os dias fazer e ser melhor. Só assim é também possível olhar em frente e pensar em reparar, redistribuir, e contribuir para que toda a gente sinta que pertence, seja num jornal de opiniões jovem; seja em Portugal; seja no Mundo.



Sobre o lugar de fala, ver o livro Lugar de Fala, de Djamila Ribeiro