Carta a Alberto Caeiro

Atualizado: 15 de Mar de 2020

Estoril,


24/09/2019


Alberto, acho que tem toda a razão.


Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol porque - lá está - ambos existem, cada um como é.


Sou um adepto da liberdade de pensamento. Cada um pensa o que quer pensar (e o que consegue pensar…), no entanto, estou certo de que o seu ponto de vista, nesta questão, é o mais justo e equilibrado.


Eu não quero tirar às pessoas a possibilidade de poderem preferir um dia de chuva a um dia de sol e vice-versa. Apenas quero deixar bem explícito que concordo com o sentido da sua afirmação.


Não deixa de ser justo uma pessoa, sã ou não, considerar que um dia de sol é mais belo do que um dia de chuva, ou o contrário. Os malucos também têm opinião.


Quem somos nós para decidir o que as pessoas pensam? O senhor é um escritor, poeta e homem do campo; eu um mero (seu) leitor.


Os dias de sol obrigam-nos a sair de casa, convidam-nos para o exterior. Quando está sol, as pessoas passeiam, sozinhas ou acompanhadas. Quando está sol, as pessoas combinam com outras pessoas toda a espécie de programas. Quando está sol, as pessoas abrem as janelas das suas casas e deixam a luz entrar.


Percebe-se o porquê de as pessoas preferirem dias de sol a dias de chuva. A água que cai do céu torna tudo mais difícil. Há menos luz, os passeios das ruas são traiçoeiros, fazendo-nos escorregar e os carros levam mais tempo a travar. E andamos encharcados.


Ainda assim, há uma certa paz nos dias de chuva que eu nunca consegui encontrar nos dias de sol. Uma certa paz melancólica. Todas as gotas são reflexo dos meus sentimentos.


Alberto, por vezes, sinto que sou feito de chuva. Outras vezes, sinto que sou feito de sol.


PS:. Apressei a parte final do meu texto. Dei por mim a olhar para a janela e reparei que o céu tinha aberto. Sabe, esteve a chover o dia todo. Espero que compreenda.


Calorosos cumprimentos,


João