"Browsem" livrarias, não a Internet

O documentário “Booksellers”, realizado por D.W. Young, conta-nos a história das famosas livrarias e alfarrabistas que pululavam em Nova Iorque, no século passado. Para quem gosta de livros, não deixa de ser trágico ver que muitas delas, actualmente, ou abriram falência ou vão caminhando nesse sentido, sobrando meia dúzia de corajosos espaços que lutam contra a velocidade dos tempos.

de António Vaz Pato



(Jornal SOL, 2020)



No entanto, neste filme, o que mais me prendeu a atenção foram as referências a uma personagem-tipo que costumava povoar abundantemente este lugares: os “browsers”.



O termo, neste contexto, não tem uma tradução fácil e imediata para o português. Tentando transpor o conceito para a nossa língua, significa algo como (na minha interpretação) “navegar sem objectivo, percorrer os olhos por um lugar sem procurar nada em concreto”. Hoje em dia, sabemos que a actividade de “browsing” tem outras conotações. Associamo-la rapidamente ao mundo virtual e à Internet, ou, até mesmo, ao espírito consumista dos tempos. De facto, identificamos facilmente um “browser” como aquele que não perde um belo passeio num centro comercial, numa manhã de domingo, à procura das últimas promoções.



Contudo, esta personalidade transborda para outras áreas, em particular, a cultural: o “browser” é um ávido consumidor de cultura, sem medo da aleatoriedade ou do acaso. Por outras palavras, é alguém que prefere a busca, ao invés da descoberta, e que não se importa de ser surpreendido no fim.


Dando um exemplo, todos conhecemos aquele tipo que percorre uma livraria durante horas, lendo e relendo capítulos de livros que vai encontrando, sem grande critério. Ou aquele indivíduo que vagueia pela cidade visitando museus ou bibliotecas, sem saber em concreto o que vai encontrar lá dentro. E ainda outros que navegam pelas feiras em busca de uma pechincha fortuita. Era precisamente esse grupo de pessoas de que falavam os intervenientes no documentário “Booksellers” e cujo desaparecimento gradual tanto lamentavam.



Falando do nosso país, creio que há razões para sermos pessimistas e, ao mesmo tempo, optimistas, quanto à possível extinção deste hábito e comportamento cultural.


Por um lado, reconheço que estas rotinas culturais se mantêm e isso é bem visível em vários locais em Lisboa e no Porto. Por outro, há indícios de que esta ligação tão estreita com a paisagem cultural urbana pode eventualmente passar a ser uma raridade entre nós, nomeadamente no que diz respeito às livrarias.



Ainda que as grandes metrópoles estejam a assistir a um ressurgimento de um interesse por espaços culturais independentes, estes têm perdido alguma preponderância e centralidade em prol do espaço virtual. O “browser” de hoje manifesta-se sobretudo na Internet, onde as encomendas online vão satisfazendo as nossas necessidades de consumo, rotina esta que se acentuou com a pandemia e que muitos veem como uma alteração inevitável de paradigma.



A Internet é um instrumento valioso – não o nego -, mas torna-nos preguiçosos na pesquisa. Esta substituição retira vitalidade aos lugares que se alimentam de pessoas (como é o caso das livrarias).


Para além disso, as grandes superfícies vão controlando e condicionando os nossos hábitos e comportamentos. Os grandes grupos livreiros, através de brilhantes jogadas de marketing e publicidade, conduzem-nos, muitas vezes, às principais tendências e aos fenómenos do momento. Quando entramos numa livraria, há um constrangimento tácito que nos obriga a ter já algo em mente para comprar. Na realidade, as grandes promoções, as tabelas de topo de vendas, o excesso de destaques, são tanto limitações ao nosso livre-arbítrio, como um reflexo do tempo em que vivemos. No século XXI, é-nos exigido rapidez e planeamento nas decisões que tomamos, caso contrário, tudo é uma perda de tempo - para nós e para o vendedor. Tempo é, aliás, o que muitos dizem não ter. O “browser” hesitante e desorientado vai escasseando perante esta agenda apertada de afazeres.



Receio que esta crónica seja interpretada como mais um devaneio saudosista e, portanto, é melhor sublinhar que não acredito que o “browser” esteja em vias de extinção. É provável que tenha tido o seu apogeu há umas décadas e de que os hábitos e comportamentos culturais ainda estejam a sofrer uma readaptação ao ritmo vertiginoso da modernidade.



Apesar das conveniências de um mundo em que a informação é mais imediata e objectiva, a curiosidade e a incerteza serão sempre motores de descoberta cultural. A verdade é que estes tempos pandémico-bélicos vão-nos ensinando que o que a humanidade precisa mesmo é de mais “browsing” cultural - nas ruas e nas livrarias.