Biónica: o futuro na palma da mão


Aquilo que ontem era mera ficção científica é hoje ciência. Podemos é, desde já, ficar com o entusiasmo de saber que, de certo modo, as opções para o futuro são algo ilimitadas, assim como com a certeza de que com a biónica teremos o futuro na palma da mão (literalmente).

Em parceria com:




Crónica de Mariana Oliveira

Estudante Engenharia Biomédica e Biofísica, FCUL




Já alguma vez pensaram como seria acordar e não conseguirem agarrar o vosso telemóvel para desligar o alarme? Ou não conseguirem segurar a escova dos dentes, ou a chávena de café, ou erguer a mão para acenar a um amigo? Durante muitos anos, estes foram alguns dos desafios que diminuíram consideravelmente a qualidade da vida das pessoas que sofriam amputações.


Felizmente, a ciência evoluiu possantemente. Particularmente, no campo da Engenharia Biomédica, passou-se das meras próteses passivas (i.e., as ditas próteses “estéticas”, que de modo algum dotam o seu utilizador de qualquer função) para a possibilidade de obter elegantes e sofisticadas próteses ativas (i.e., de cariz funcional, que permitem ao utilizador efetuar diversos movimentos).


Atualmente, o estado da arte da engenharia prostética permite não só fabricar próteses de mãos com aparência fisionómica, como também imbuir estas de mecanismos de controlo intuitivo, sendo que uma das formas mais usadas para aproximar o Homem à máquina passa pela utilização da eletromiografia, que é uma técnica de leitura da atividade elétrica dos nossos músculos. Deste modo, recorrendo a sensores (i.e., elétrodos) colocados sobre a pele do coto, ou diretamente sobre o músculo (i.e., elétrodos invasivos, intramusculares), procura-se captar a atividade elétrica de músculos que estariam implicados em movimentos inerentes ao uso do membro perdido.


No entanto, que não se caia no equívoco de pensar que todo este processo é simples! Para poder dominar o controlo de uma prótese, ao seu utilizador é exigido um intenso programa de treino com uma curva de aprendizagem associada bastante lenta.


Tendo este problema em vista, as próteses inteligentes recentemente desenvolvidas têm vindo a aprimorar a facilidade de utilização, sendo o expoente máximo das próteses mais “user friendly” a bebionic3, por muitos designada “o braço do Exterminador” (como no filme!). Considerada a prótese mais desenvolvida da atualidade, apresenta uma precisão tão elevada que atividades como coser com linha ou partir um ovo e separar gemas de claras são possíveis! Tudo isto é conseguido à custa da aplicação de motores individuais em cada dedo, permitindo distinguir movimentos entre os mesmos de forma articulada. E veja-se só: esta mão robótica consegue inclusivamente detetar quando um objeto se lhe está a escorregar, podendo assim ajustar a força do aperto com que o segura! E não fica por aqui; adicionalmente, é ainda possível cobrir a prótese inteligente com uma luva cosmética de cor compatível com o tom de pele do seu portador!


Evidentemente, muito tem mudado nos últimos anos; a tecnologia tem-se renovado constantemente, permitindo atingir um grau de sofisticação que certamente seria impensável há duas décadas e tendo como inexorável corolário a clara melhoria na qualidade de vida daqueles que perderam um membro (ou parte dele). Estamos perante o melhor que a ciência nos pode oferecer (ou, talvez mais corretamente, devolver).


Prótese inteligente Bebionic: exemplo de uma atividade de elevada precisão

E o que se seguirá? Pode ser que um dia, e à guisa de utopia, todos os amputados possam usar uma prótese inteligente. De facto, diria mesmo que só falta colmatar este problema de acessibilidade pois certamente o senhor leitor conhece alguém que perdeu um membro, mas dificilmente conhecerá algum utilizador de uma prótese tão sofisticada como a bebionic3. Quem sabe se dentro de uns anos não teremos metade do mundo “ciborgue” (as considerações éticas ficam para outra ocasião).


Aquilo que ontem era mera ficção científica é hoje ciência; alguns cientistas têm trabalhado, por exemplo, no sentido de obter próteses inteligentes sensíveis à dor, e talvez dentro de alguns anos esta crónica seja já obsoleta. O tempo o dirá. Podemos é, desde já, ficar com o entusiasmo de saber que, de certo modo, as opções para o futuro são algo ilimitadas, assim como com a certeza de que com a biónica teremos o futuro na palma da mão (literalmente).