Atirei o pau ao gato

“Atirei o pau ao gato-to-to-to, / mas ele não morreu-eu-eu.” é uma canção que por certo pertencerá ao imaginário da maioria dos portugueses. Muitos já a cantaram em criança e alguns, talvez, até se tenham atrevido a replicar. Eu, por exemplo, instigada pela história da música, experimentei, do alto dos meus 4 anos, atirar um pequenito ramo a um gato de família. Ele arranhou-me o nariz, teve a sua vingança e eu aprendi a minha lição.

de Sofia Florentino




Ora, na passada semana, Chris Rock fez uma graçola e Will Smith “vingou-se”. Haverá alguma lição a aprender com a situação? Muitos diriam que sim, que Rock ultrapassou os limites do humor ao fazer uma piada absurda e ofensiva às custas da esposa de Smith. Bem, com a primeira parte concordo em absoluto; a piada era péssima, não pelo carácter abusivo, mas porque só faria rir um surdo.



Mas voltando à questão: quais são os limites do humor? Não é certamente uma linha na areia. Os limites diferem de pessoa para pessoa, pois todos temos as nossas sensibilidades. Eu posso facilmente ofender-me com piadas sobre religião, para outros o limite poderá ser a mãe, a mulher ou até mesmo o tareco. Não temos forma de saber de antemão aquilo que ofenderá o outro.



Se entrarmos na lógica defensiva de selecionar cirurgicamente tudo o que possa ofender e de escrutinar exaustivamente tudo o que nos dizem, porque poderá ultrapassar algum limite que nem mesmo nós conhecemos, vamos tornar-nos na versão mais moderna da Inquisição.



O caminho da censura e dos limites é o terreno escorregadio que temo percorrer. Muitos diriam que bastará escolher limitar apenas aquilo que ofende. Mas a quem pergunto? «A todos!» Mas como escolhemos o que é “seguro” dizer? «Usando o bom senso!» Então, mas se o bom senso funcionasse não precisaríamos de limites. Afinal funciona? «Espera aí que isso não é bem preto no branco!» E quem é o “Rei manda”? Quem é que vai decidir os limites? «Pronto Sofia, já estás a fazer perguntas a mais.»



Imaginemos que decidíamos proibir piadas que ofendessem ou gozassem com pessoas, crenças ou grupos. Digam adeus ao “Isto é gozar com quem trabalha” e outros do género. Não nos podemos esquecer que o humor pertence àquele grupo mágico chamado “liberdade de expressão”. Sendo a comunicação subjetiva ao olho do recetor, e tendo aberto a precedência à sua censura, facilmente se argumentaria que a simples crítica era ofensiva e deslizaríamos para a sua proibição. Conseguem imaginar não poder escrutinar os nossos governantes? (Não é que façamos muito uso desse direito hoje em dia, mas pelo sim, pelo não, convém continuar a tê-lo).


Muitas vezes é também necessário ofender certos grupos em nome do progresso científico. Deveremos impedir a ofensa mesmo que isso nos impeça de evoluir? É pela liberdade que temos de dizer o que bem nos apetece, seja errado ou certo, mau ou bom, inútil ou útil, que criamos cultura, conhecimento e desenvolvimento. Quem sabe o que iremos perder quando começarmos a proibir…



“Charlie Hebdo”, Ricky Gervais, Galileu Galilei, Andrei Sakharov, Liu Xiaobo, Charles Darwin e Friedrich Nietzsche são conhecidos por terem ofendido e/ou criticado certos grupos políticos, religiosos e sociais. Que sociedade teria ficado mais rica se tivessem sido silenciados?



É verdade que é diferente “rir com os outros” de “rir dos outros”, mas essa diferença é ténue e acaba por depender não só de quem goza, mas também de quem é gozado. Da sua capacidade de se rir de si mesmo e de aceitar a crítica. Muitos são capazes de gozar com as suas próprias deficiências. Não se pede que todos sejam capazes de o fazer, mas o que nos distingue evidencia a impossibilidade de encontrar as linhas vermelhas da expressão.



- Pelo que só se pode concluir que ou tudo se pode, ou nada se pode.



Ora se é grave impor limites àquilo que também consiste em liberdade de expressão, mais grave o é facilitarmos ou branquearmos a agressão como resposta. Essa, muito pelo contrário, é transparente como a água: a integridade física é inviolável. O nariz do outro é o limite. Em humor, podemos não saber qual é o “nariz” do outro, mas, fisicamente, não há como confundir (a não ser que se trate do Lord Voldemort).



Claro está que “with great power comes great responsibility” e, tendo o poder da liberdade, devemos usá-lo conscientemente. Invariavelmente existirão pessoas estúpidas, piadas sem piada, abusadores e grunhos. Mas ganhamos mais como sociedade em tolerá-las, trazê-las à razão, ou até mesmo a rir com elas, do que a distribuir chapadas à padrasto, cancelamentos sociais ou multas.



Da mesma forma, para podermos ter o uso da palavra, temos de estar preparados para ouvir coisas de que não gostamos, que contrariam as nossas crenças e até mesmo que nos ofendam. Quem sabe se não somos nós que estamos errados?

A violência é o pior antídoto para a estupidez. E entre uma e outra eu escolho a liberdade.



(Trigger Warning: no cats were harmed in the making of this chronicle)