As palavras cruzadas e a Sara Sampaio

Se ao menos as palavras cruzadas tivessem uma citação da Sara Sampaio sobre body positivity, mas não, ficamo-nos pelo biquíni.

de Maria Madalena Freire



No verão, invisto muito do meu tempo no areal a pensar em palavras que caibam em quadrados com um número limitado. Normalmente, aposto nas palavras cruzadas que vêm com os jornais, mas o vício e a vontade de querer acabar umas sem tem de ir ver à internet uma resposta que me possa guiar a outras é demasiado para limitar à comunicação social. Decidi adquirir um livro cheio delas e, com o hábito, lá arranjar maneira de acabar sem batotas.

Não fiquei espantada quando a atriz Blake Lively posa na capa com quadrados não preenchidos atrás a fazer de fundo, nem quando a Sara Sampaio se encontra de biquíni, também. Algo que é comumente aceite e que ninguém questiona, no entanto acabei por investir nesta pergunta: quem é que compra palavras cruzadas porque se sentiu atraído/a pela figura apresentada na capa de tremenda beleza e não apenas porque quer fazer uma dúzia de sinapses para que o cérebro não avarie no mês de agosto?

A minha primeira conclusão: a atratividade da figura feminina determinará a aquisição dos passatempos ou, então, a competitividade no mercado dos livros dos passatempos é tão acérrima que poderei vender mais ao colocar a Blake Lively na capa do que o do meu concorrente que coloca a Sara Sampaio (algo que em Portugal é dúbio dado que metade dos leitores foi pesquisar a primeira).



De uma forma, ou de outra, a figura feminina acaba por ser extremamente objetificada e usada (nada de novo) como um produto de mercado que define a venda e a compra de um material meramente pelo seu corpo. Se ao menos as palavras cruzadas tivessem uma citação da Sara Sampaio sobre body positivity, mas não, ficamo-nos pelo biquíni.

Não é que se perca muito tempo a contemplar a capa - aliás, o meu propósito de compra já foi esclarecido. No entanto, não posso corroborar com este tipo de objetificação, mesmo que leve algumas pessoas que compraram com o propósito de contemplação a executar alguns dos exercícios do livro.


Será que esse poderá ser um método de aprendizagem pouco convencional? “Por castigo de objetificação e aquisição pela superficialidade do produto, agora fazes render esses teus dois euros e meio e exercitas o cérebro. Acabarás, mais tarde, a ler Chimamanda Ngozi Adichie e o porquê de ser feminista”. Não acredito que chegue a tanto… Talvez acabem por saber o que foi o #MeToo norte-americano.

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