As faculdades não querem formar profissionais de excelência

As faculdades não querem formar profissionais de excelência. Utilizam métodos antipedagógicos e preferem preservar o seu reconhecimento ao sucesso dos seus alunos.

Crónica de Joana Garrido Amorim

Estudante de Economia na Faculdade de Economia do Porto


Aos estudantes universitários,


Contam-se já quase 3 semestres desde que viemos para casa, metade de uma licenciatura de 3 anos, com algumas nuances pelo meio. Aos professores e estudantes, foi-lhes pedido paciência, mais empenho e confiança.


As faculdades apetrecharam-se de equipamentos tecnológicos, os alunos ficaram curiosos pela nova realidade. Estava garantido um ensino com a mesma exigência, o mesmo nível de qualidade, a mesma eficiência e a promessa de que a comunicação estabelecer-se-ia constantemente. Havia o compromisso de ninguém ficar para trás.


Bons tempos, os do início. Agora não é assim. Desacreditou-se na aprendizagem. Atentou-se na Fraude e nas Avaliações, esqueceu-se o companheirismo.


Os momentos de aprendizagem são reduzidos a mini-testes e frequências no caso de avaliação contínua, exames no caso de avaliação final. Não existem outros métodos de avaliação.


Sabendo que as faculdades não podem permitir a fraude, como é que a contornam?


Há duas versões.


A primeira versão consiste em estrangular o tempo de realização das frequências:

300 slides de matéria, que requerem 32 horas de estudo, são avaliados em 25 minutos através de 10 escolhas múltiplas que demoram, em média, 4 minutos cada. Cada escolha múltipla vale 2 valores. Uma errada desconta 0.5. Se o aluno erra uma escolha múltipla perde 2.5 valores.


A este método acresce ainda um pormenor mais refinado: “Depois de submeter a resposta a uma pergunta não pode voltar a essa pergunta”. Acontece que o estudante, se estiver na pergunta 4/10 e dos 25 min lhe restarem 15 min, sendo este conhecedor da matéria e bom gestor do tempo, sabe que faltam 6 perguntas complexas para realizar. Então prefere deixar aquela que se mostra de realização demorada e avança, porque sabe que é preferível perder 2 valores a comprometer as restantes 6 perguntas que faltam.


O resultado disto?
Notas miseráveis que não fazem jus ao conhecimento do estudante, através de métodos antipedagógicos que privilegiam a pressão psicológica à aprendizagem.

A segunda versão consiste no uso de plataformas de combate à fraude, como é exemplo o software Proctorio, de vigilância à distância, que controla os olhares, os movimentos e os sons à volta do aluno, monitorizando todos os passos que este faz online, violando o direito à privacidade e robotizando a prática do ensino.


As faculdades portuguesas querem privilegiar a Fraude à Aprendizagem. Há estudantes que nunca tiraram tão más notas como agora e não é por falta de conhecimento teórico. Há estudantes que nunca tiraram tão boas notas.


Infelizmente, prefere-se conservar o classicismo dos métodos de avaliação ao invés de se formarem profissionais de excelência. É preservado o olhar unilateral e sobressai a rigidez e o conservadorismo do ensino superior. Um legado de anos que acha que está a ser destruído e com a integridade em causa. Na verdade, estamos a formar com menos qualidade e a achincalhar o ensino e a aprendizagem.