Are We Great?

Atualizado: 6 de Mar de 2020


No final dos anos 20 sucedeu-se o crash bolsista de 1929, alimentado pela ganância e pelo desejo insaciável de riqueza. As festas e o luxo característico desta época foram travadas. As festas de Gatsby chegaram a um fim. O crash em Wall Street nos EUA depressa se alastrou a todo o mundo. Repetiremos a história? 2008 não foi já lição suficiente? Virá um 2029?

Ilustração de Ana Carolina Soares

por João Albuquerque Reis


Can’t repeat the past?…Why of course you can!“ - F. S. Fitzgerald, The Great Gatsby

Jay Gatsby, quando questionado sobre a sua insistência em repetir o passado.

A história decorre em 1922, o livro é publicado em 1925.


Quem já leu o livro ou viu o filme The Great Gatsby sabe que Gatsby procura repetir algo do seu passado. Continuando a ideia da minha crónica anterior, o que poderemos aprender com a década de 20 do século anterior? O que quereremos repetir? E evitar?


Os anos 1920s foram caracterizados por um crescimento económico que rapidamente mudou toda a construção da sociedade. Era um período de pós-guerra. O edifício do mundo, nomeadamente o andar da Europa, sofrera uma inesperada demolição e caminhava então para a sua rápida reconstrução. A situação inverteu-se nos “nossos” anos 20. Os países mais estagnados são estes que em tempos comandavam a expansão económica e os países que agora lideram o crescimento eram ainda há um século vítimas do colonialismo.

Antes olhava-se para o mundo como um tabuleiro de Risco, onde semelhantes exércitos, com diferentes cores claro, combatiam pelo “domínio do mundo”. Hoje, a competição não é tão clara. Desde já, há muito mais cores. Os objetivos são muito mais distintos e menos óbvios. Certas “cores” não participam no jogo pois apenas se preocupam com o seu território, não tendo como objetivo esta “expansão”.

Na década de 1920s, também se viveu uma revolução artística. Foi uma época em que correntes como o Expressionismo e o Surrealismo vingaram. De enfatizar a mudança no que se procurava retratar: não algo estático, como vimos no Realismo da pintura de séculos anteriores, mas sim emoções, sensações que transbordavam das obras. Noutras áreas como a arquitetura, reinava o Art Déco, alterando toda a paisagem de uma cidade em movimento, uma transformação constante e mecânica lembrando Charlie Chaplin às voltas nas rodas de engrenagem d'Os Tempos Modernos.Também a música foi virada do avesso pela crescente participação de comunidades fora do tradicional, que trouxe novos ingredientes para a mistura, nomeadamente a comunidade afro-americana com correntes que viriam a alterar toda a receita, como os Blues e o Jazz. Será que isto acontecerá nos nossos tempos? Será que os povos que lideram atualmente o crescimento nos inspirarão? Começaremos a incorporar na nossa arte algo tradicional das comunidades das savanas em África, das montanhas Asiáticas, dos desertos da América do Sul?


Algo aconteceu nestes últimos anos que surgiu como oposto aos “antigos” anos 20. As maiores potências mundiais são a China e os EUA. O Ocidente divide o trono. Os quatro países mais fortes economicamente são os EUA, a China, o Japão e a Alemanha (segundo dados do FMI). O Oriente recuperou o seu justo lugar. Já não é o Ocidente a jogar contra o Ocidente, com o Ocidente a ver. As oportunidades crescem. Nunca culturas tão distintas trabalharam lado a lado. A diferença é celebrada. Num mundo tão guiado por interesses económicos, a diferença é fulcral. A originalidade é essencial nas inovações que virão e na busca incansável do próximo salto. A comunidade asiática goza de uma maior ligação a tudo o que é virtual, tecnológico; e que ganhou por seu mérito. Cidades como Tóquio, Seoul, Pequim incorporaram como nenhuma cidade ocidental todas as novas tecnologias. Ficamos nós os dinossauros?

Por último, no final dos anos 20 sucedeu-se o crash bolsista de 1929, alimentado pela ganância e pelo desejo insaciável de riqueza. As festas e o luxo característico desta época foram travados. As festas de Gatsby chegaram a um fim. O crash em Wall Street nos EUA depressa se alastrou a todo o mundo (aos tais países que jogavam o Risco). Repetiremos a história? 2008 não foi já lição suficiente? Virá um 2029? Virá o ano em que a granada de investimento frenético em start-ups e em negócios ainda não rentáveis rebentará nas nossas mãos? Penso que o passado foi uma eficaz lição, todavia, talvez o tenha sido para os jogadores errados. Da mesma forma que já não lideramos o crescimento, também já não comandamos a queda. Será inevitável esta realidade? Será ela um passo essencial na maturação de uma cultura? Nascerá ela do facto de navegarmos por terras até então desconhecidas, sucedendo-se a cada breakthrough um inevitável crash que nos puxe de novo para a realidade?

Como conclui Gatsby, circunstâncias diferentes resultam em consequências diferentes, nada se repete da mesma forma, “Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre.” (Fernando Pessoa). Dito isto, a década de 20 do século passado deve ser um forte instrumento de aprendizagem. Mesmo não sendo o exemplo perfeito, é um exemplo que muito nos pode ensinar.