Ao Pó Voltarás

"Sós, criadores decrépitos desta modernidade, somos apenas Adão e Eva, Ícaro e Narciso, arquitectos desentendidos de uma torre falhada."

Bruegel, Landscape with the Fall of Icarus (Musées Royaux des Beaux-Arts, Brussels)


Crónica de Francisco Costal

Estudante de Medicina na Universidade Nova de Lisboa



Esta história é tão antiga como o próprio homem. Adão e Eva não resistiram ao apelo diabólico: “Sereis como deuses”, senhores do bem e do mal, donos da vida e da morte. Foram expulsos do Paraíso.


Depois deles, vieram outros. Ícaro voou alto, mas rapidamente se apercebeu que quem chega perto do Sol queima-se. Narciso afogou-se no seu amor próprio. Os arquitectos da Torre de Babel tinham o sonho de ser grandes, maiores do que o seu Deus, e acabaram separados e a falar diferentes línguas.


Reis, imperadores, ditadores: por muito longe que tenham chegado, por muito amor ou medo que tenham incutido nos povos, por muito grandes que tenham sido, todos acabaram caídos, voltando à terra de onde tinham vindo.


Chegámos ao século XX e fizemos a fantástica descoberta de que tínhamos avançado tanto que podíamos atrasar a morte. Fizeram-se antibióticos e transplantaram-se órgãos, montaram-se instrumentos capazes de analisar e ver nitidamente o interior do corpo, arranjámos maneiras cada vez mais inventivas de reduzir o sofrimento e adiar o inadiável. Não alcançáramos ainda a eternidade nem chegáramos à fonte da eterna juventude, mas esse desejo estava, aparentemente, tão cumprido quanto possível. Éramos os senhores da morte.


Com tantos meios à disposição, com a vida (quase) eterna aparentemente alcançada, alguém acabou por colocar a inevitável questão “Quereis, agora, ser como deuses?”.

Então, gerámos crianças fora do útero, em tubos de ensaio; outorgámos a nós mesmos o direito de escolher quem, antes do nascimento, tem direito a viver ou deve ficar pelo caminho, conforme as suas características ou as circunstâncias que o rodeiam; sedentos de avanço, não resistimos a usar embriões como objectos de estudo em nome de um suposto bem maior. Éramos os senhores da vida.


Dominada a vida e a morte, o Homem só não compreendia ainda como era possível alguém sofrer. “E se pudéssemos eliminar o sofrimento?”


Então, começámos por fechar os olhos a quem sofre: aos velhos dos nossos bairros, aos refugiados às portas da nossa casa, aos pobres das nossas ruas. Se não os víssemos, nunca teríamos que enfrentar essa realidade. Não satisfeitos, vamos, gradualmente, oferecendo a quem sofre a hipótese de morrer.


No final, vimos que tudo era bom. Muito bom, aliás, e repetimos satisfeitos a expressão divina porque, afinal, é isso mesmo que o Homem moderno se considera: um deus, senhor do bem e do mal, dono da vida e da morte, criador de uma sociedade asséptica sem dor nem sofrimento. Não seremos mais como deuses, somos nós mesmos deuses!


Eis que chegamos a 2020 e, confortáveis na nossa condição de divindade, nos deparamos com um vírus que não conseguimos controlar. O vírus corre de país em país, de continente em continente, ferindo, matando, fazendo-nos sofrer. Nesse momento, os donos de tudo foram a correr para suas casas. Temendo pelo seu estilo de vida limpo e descontaminado, não perguntaram o que dizia a Ciência, se havia dúvida em relação às decisões dos governantes ou se poderíamos ter saído disto de outra maneira.


Encostados às cordas, os senhores da vida não quiseram mais viver e contentaram-se com a mera existência; os senhores da morte já não sabiam o que haviam de fazer com os seus mortos; os donos do bem e do mal não quiseram mais controlar o que era bom ou mau, nem se teriam de abdicar de tudo o que os define para sobreviver: Liberdade, Responsabilidade, Privacidade, Relação.


Deitámos tudo isto ao lixo e fomos a correr para os braços do Estado, o Grande Irmão, para que ele agora nos dissesse como deveríamos viver, o que fazer quando fôssemos devolvidos à terra, e o que é o Bem e o Mal nestes tempos de cólera.


Sem nenhuma Lei acima dele, nem divina nem natural, confinado agora à sua existência, o Homem moderno virou-se, por fim, para uma praça romana vazia e para o senhor de branco que a enchia. Observou a beleza aterradora da cena: o andar cansado do Papa, o silêncio quebrado pelas sirenes, o beijo de Francisco à Cruz debaixo de chuva.


E ouviu, pasmado, as palavras que a Igreja teve, desde sempre, para o mundo: que, sozinhos do alto das nossas pequenas grandezas, somos fracos; que há Alguém, maior e anterior ao Homem, em quem devemos confiar e a quem temos de prestar contas; e que, perante o sofrimento, não nos devemos esconder dele, mas atribuir-lhe um sentido.


Quando saírmos desta noite escura, lembremos que somos menores, finitos e mortais e que, surpresa das surpresas, não há nada que possamos fazer para alterar essa condição nem para contornarmos o sofrimento e a dor. Não somos senhores do bem e do mal, nem donos da vida e da morte.


Sós, criadores decrépitos desta modernidade moralmente falida, somos apenas Adão e Eva, Ícaro e Narciso, arquitectos desentendidos de uma torre falhada. Enquanto não tomarmos consciência disso, a nossa escolha entre viver com risco ou existir meramente num mundo limpo penderá sempre para o mesmo lado.


Vivamos, pois, sem medo, cientes das nossas limitações e do nosso inexorável fim. No final de tudo, somos apenas pó, e ao pó voltaremos.