Anos, Amores, Taças de vinho e Partidos Políticos

Texto de Miguel Pereira Dâmaso

Porque é que nos últimos anos temos assistido ao crescimento da extrema-direita? Porque é que muitas vezes não percebemos as “escolhas políticas” dos nossos avós? Porque é que a “esquerda marxista” não tem tido espaço para crescer? Porque é que apesar de toda a onda de contestação em torno do atual governo socialista, a direta moderada não cresce nas sondagens?



Uma mão cheia de “porquês” que animariam qualquer jantarada entre amigos e que esvaziariam com toda a certeza várias garrafas de vinho, transformando-se paulatinamente numa discussão bem mais irracional do que aquilo que se pretende.


Desde o início do Séc. XX que várias ciências se debruçam sobre o estudo dos comportamentos eleitorais, tentando perceber o que é que influencia as tendências de voto, porque as pessoas votam X ou Y, ou simplesmente porque é que as pessoas votam. Entre esses estudos destacaram-se vários nomes, contudo, é na década de 60, com Seymour Lipset e Stein Rokkan, que nos chegam algumas das mais incríveis análises dos sistemas políticos e dos comportamentos eleitorais.


Apesar da constatação de que “os partidos representam o interesse das diferentes classes” não ser propriamente inédita, os dois autores adaptaram-no à realidade do séc. XX, classificando o regime democrático como uma “legalização da luta de classes” – uma luta institucional, não violenta e despojada de qualquer potencial revolucionário.


Segundo Lipset e Rokkan, os sistemas partidários nasceram de clivagens sociais (centro/ periferia; capital/ trabalho; secularização/ igreja; etc.) e os alinhamentos eleitorais dependeram, durante décadas, precisamente destas clivagens, criando-se uma forte convicção entre cientistas políticos de que os sistemas partidários europeus eram estruturas bastantes estáveis – “o sistema partidário dos anos 60 reflete com poucas exceções a estrutura de clivagens dos anos 20. (…) As alternativas partidárias e as organizações partidárias são tão velhas como a maioria dos eleitorados nacionais”.


O advento dos partidos políticos (principalmente na Europa) deve-se às chamadas “lealdades de grupo”. Os partidos foram-se fixando e acabaram por criar a realidade política, numa fase em que esta ainda estava a ser moldada. Em sociedades bastante iletradas, os eleitores, influenciados por essa realidade, votavam nos partidos com os quais se identificavam, perpetuando-os no poder – o que levou a que durante décadas o mais fiel indicador do comportamento dos eleitores fosse a identificação partidária (a soma de questões socioeconómicas com questões socio-identitárias, que leva a que, em última instância, “uma pessoa vote num único partido para o resto da sua vida”).


Todavia, enquanto Rokkan e Lipset escreviam, já se encontrava em marcha na cultura política ocidental uma “revolução silenciosa”, como lhe viria a chamar Ronald Inglehart. Após a II Guerra Mundial, a educação e a informação tornaram-se cada vez mais acessíveis, a mobilidade social passou a ser uma realidade e a qualidade de vida aumentou.


Este processo de modernização levou ao aparecimento de novos partidos, novas bandeiras, novas formas de participação politica e a novas organizações de caráter político (sem qualquer elo de ligação representativo com os setores da população, mas defensores de causas universalistas). O resultado? Uma sociedade “partida ao meio”, com eleitores (por norma mais velhos e com menos educação) a continuarem a votar de acordo com a identificação partidária, continuando a ver a política como um confronto sobretudo económico versus uma nova geração, bastante mais critica dos partidos tradicionais e que começava a trazer novos problemas para o debate politico.


No centro deste debate deixariam de estar apenas questões relacionadas com o papel do Estado na economia, para passarmos a ver cada vez mais questões de ordem social (como a raça, o género, o ambiente ou as identidades) – clivagens que invocam sentimentos muito mais intensos do que se estivermos a discutir taxas de desemprego ou impostos.

Consequentemente, as sociedades contemporâneas, apesar de se terem tornado mais tolerantes, pacíficas, democráticas e educadas, tornaram-se também bastante mais polarizadas (uma polarização baseada em valores e não em classes). Isto acabaria por criar uma tensão entre forças de modernização Social e advogados da manutenção do status quo, como denominaria Russel Dalton.


A “esquerda marxista”, presa à sua inflexibilidade ideológica, entrou em declínio. O que levou a que em alguns países a classe trabalhadora se visse atraída pelo discurso da direita, na defesa dos valores tradicionais.

Todavia, a grande beneficiada desta “metamorfose politica”, principalmente em países que ainda não atingiram um certo nível de desenvolvimento económico, como é o caso de Portugal, foi a esquerda moderada, conseguindo através da criação de novos partidos e de uma adaptação dos partidos tradicionais, “apropriar-se dos temas do momento” e transformando-os nas suas bandeiras – enquanto a direita, muito colada ao “papel do individuo”, ainda hoje se encontra num processo de “redefinição”. Isto não quer dizer que os portugueses sejam maioritariamente “de esquerda” (seja lá o que isso quer dizer), apenas revela uma maior flexibilidade politica à esquerda (ou falta dela à direita) para corresponder aos “novos anseios universalistas”.


Tudo isto levou ao que Lipset chamou de “revolta [contínua] contra a modernidade”. O processo de liberalização iniciado na década de 1980 encontrou desde o início uma enorme resistência por parte de certos grupos mais conservadores, todavia foi necessário um choque efetivo no quotidiano dos europeus para que estes conseguissem ganhar espaço no sistema partidário, algo que se verificou com a crise das dívidas soberanas e o aumento das vagas de imigração para a europa – duas consequências da globalização – que amplificaram as divisões politicas no ocidente, refletindo-se no aparecimento e no crescimento de partidos extremistas. Os “novos” partidos de extrema-direita moldaram ainda mais a divisão cultural, ao vincular diversos problemas uns aos outros e articulando uma visão alternativa do mundo.


Desta forma, apesar da tradicional clivagem económica esquerda-direita, baseada no papel do trabalho, continuar a ser importante, uma “nova” clivagem cultural é neste momento o principal motor quando se trata de perceber os comportamentos eleitorais. Os antigos “votos por lealdade” foram substituídos por votos fluídos, os “temas do momento” ganharam extrema importância no momento “de pôr a cruzinha no boletim de voto” e as eleições têm-se vindo a tornar cada vez mais voláteis.


Se o ditado italiano, popularizado pelo filme A Incrível Historia de Adaline, nos diz que “Anni, amori, e bicchieri di vino. Non si contano mai” (“Anos, amores e taças de vinho. São coisas que nunca devem ser contadas”) – a isto, eu acrescentaria duas palavras: “partidos políticos” – e temos a receita para os comportamentos eleitorais do séc. XXI.